Turquia: Durankadin, a mulher que ficou de pé em protesto

19 de junho 2013 - 18:01

Yonca S. passou 30 horas de pé, em protesto, como uma durankadin. Ela foi a primeira a aderir a esta forma de protesto em Ankara, e muitos a acompanharam, tal como está a acontecer na praça Taksim e noutros lugares de Istambul. Nesta entrevista ao blog No Rhetorike, ela explica os motivos que a levaram a esta nova forma de protesto e o que espera obter. Por Gabriel Yacubovich Japkin.

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Uma Durankadin.

Que significa a expressão “durankadin”? Como decidiste começar este protesto em Ankara?

#duranadam e #durankadin (homem de pé/mulher de pé) são uma nova forma de protesto silencioso. Ficar de pé, imóvel como gesto de resistência diante de um governo e na contramão da força brutal exercida pela polícia contra os manifestantes durante as últimas semanas. Os duranadam e durankadin mostram solidariedade com os manifestantes e são uma demonstração de que a resistência se mantém e vai continuar através de novas formas. Os manifestantes (um dos quais sou eu mesma), de forma justa, pedem mais liberdade e um governo verdadeiramente democrático na Turquia há semanas, e continuaremos a fazê-lo ficando de pé em silêncio.

Os meus motivos para protestar deste modo:

– Quando Ethem recebeu um tiro na cabeça disparado por um polícia, eu estava nessa praça Kizilay a manifestar-me. Poderia ter sido eu ou qualquer outro manifestante, em vez de Ethem, a ser atingida na praça Kizilay (tive sorte).

– Depois de Ethem ter sido atingido, foram divulgados vídeos e gravações do tiroteio em que se podia ver um grande número de polícias com os seus uniformes de polícia de choque. No entanto, as autoridades não reagiram nem deram início a uma investigação. Até o dia do funeral de Ethem, o polícia que disparou continuou de serviço!

– Quis ir ao memorial levantado em sua homenagem no lugar onde foi atingido, mas a polícia não permitiu que ninguém se aproximasse.

– No mesmo dia quis ir ao funeral de Ethem, e o transporte público para Batikent (um subúrbio da cidade) tinha sido suspenso pela câmara da cidade.

– Sou mãe, sinto-o por Ethem e pela sua mãe.

Senti-me frustrada, devido às razões que mencionei, e decidi ficar de pé como forma de protesto e de solidariedade com todos os manifestantes que têm sido feridos, especialmente com a família de Ethem. À meia-noite, fui para a praça Kizilay e comecei o meu protesto no lugar em que Ethem foi atingido.

Ontem a polícia turca deteve e expulsou as pessoas que estavam a protestar como duranadam e durankadin na praça Taksim. Como é possível compreender que um protesto deste tipo seja reprimido pela polícia?

Essa pergunta tem uma resposta curta. Não tenho a menor ideia dos motivos que levaram a polícia a reprimir uma manifestação pacífica como esta. É apenas outra decisão absurda e ridícula do governo do AKP.

Como te sentes durante as horas que estás de pé na praça? Em que pensas?

Estive de pé na praça um total de 30 horas. Senti que fui capaz de mostrar os meus sentimentos a Ethem e à sua família de uma vez por todas. Senti que podia lamentar e mostrar a minha dor por toda a gente que foi ferida e os que morreram durante as três semanas de resistência.

O governo dá-nos ordens de irmos para casa, eu não tinha intenção de ir, mas sim de ficar aqui e continuar a resistir. Senti-me como se saísse de meu interior um grito a dizer: “Não senhor, não vou para casa!” E aqui estou, de pé.

Senti que ainda tinha meios de mostrar solidariedade com os meus irmãos e irmãs que resistem. E sinto que ainda estou a resistir. Sinto-me orgulhosa desta resistência justa, que vai continuar.

Ontem vimos as pessoas a juntarem-se aos protestos do primeiro duranadam na praça Taksim. Qual é a reação das pessoas em Ankara?

Quando comecei o meu protesto, por volta da meia-noite mandei um tweet a respeito disso (tinha só 400 seguidores naquele momento) e o primeiro tweet teve 3000 retweets. Uma hora mais tarde, as pessoas começaram a aproximar-se e a protestar comigo. Os meios de comunicação também apareceram.

Perto das 5 da madrugada fui informada por um tweet de que o irmão de Ethem, Mustafa, fora informado do meu protesto e que iria aderir a ele de manhã. Essa mensagem comoveu-me e demonstrou que estava a fazer o que é certo. Mustafa e a sua esposa juntaram-se a nós pela manhã. Estavam muito emocionados e apreciavam o meu gesto. Foi emocionante para todos e permitiu-nos partilhar o nosso pesar pelo que está a acontecer e pela morte de Ethem.

Comecei esta entrevista querendo saber os motivos de começar este protesto, mas qual seria um resultado satisfatório para ele?

As primeiras semanas de protestos foram muito tensas e a polícia respondeu de forma muito violenta. Devido aos excessos da força policial, morreram cinco pessoas, 12 perderam a vista, mais de cem estão em estado crítico e mais de 7000 foram feridas.

A revolução e as mudanças são um caminho longo, deves começar a correr, depois caminhar e depois correr de novo, e até às vezes ficar parado! Passámos as primeiras semanas a correr. A única coisa que sei é que não vamos parar e voltar para casa. A resistência vai continuar e vamos conseguir como resultado a democracia e a liberdade.

Retirado do blog No Rhetorike, de Gabriel Yacubovich Japkin

Tradução de Luis Leiria, para o Esquerda.net