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Triumph: Crónica de uma insolvência anunciada

Na fotografia, já não cabem ministros nem autarcas com sede de microfone. De Belém, nem uma palavra, quanto mais uma visita. As bravas trabalhadoras da antiga Triumph permanecem à porta da empresa, faça chuva ou faça sol, para receberem o que é seu por direito. Por André Julião.
Foto de fotos de António José Baião.

O fumo das braseiras improvisadas que se escapa por entre as lonas do acampamento gentilmente montado por um grupo de escuteiros faz adivinhar o inóspito ambiente que encontramos à porta da fábrica da Têxtil Gramax Internacional, em Sacavém, a menos de um quilómetro e meio dos limites do concelho de Lisboa. A receber-nos, uma frente de mulheres corajosas e determinadas, a quem uma vida de trabalho árduo deixou marcas, mas não esmoreceu a alma. As caras conhecidas dos deputados Jorge Costa e Isabel Pires fazem esboçar alguns sorrisos. Mas, o sentimento geral é de grande preocupação.

“Estamos aqui há quase uma semana, vamo-nos revezando, mas daqui ninguém arreda pé”, explica, convicta, Dulce, uma das eleitas para representar as mais de 460 mulheres que há mais de uma semana montaram arraiais à porta da fábrica, procurando impedir a saída de máquinas e material, no âmbito do processo de insolvência da empresa suíça.

“Tenho 51 anos de casa e nunca me imaginei numa situação como esta”, conta emocionada uma das operárias mais antigas. “Daqui, só saímos quando nos desmontarem a barraca”, podia ouvir-se na fila de trás, por entre risos e palavras de incentivo. Entretanto, a EDP já tinha tentado cortar a eletricidade, por falta de pagamento há mais de três meses. O frio e a chuva são outros adversários de respeito. “Parece que combinaram, foi a semana mais fria deste inverno”, desabafa Mónica, procurando esfregar os braços para aquecer o corpo.

Por entre perguntas e palavras de agradecimento, Isabel Pires e Jorge Costa entregaram diversos mantimentos para ajudar a matar a fome e a suportar o frio. "Já desde 2015 que o Bloco de Esquerda questionava o Governo sobre os problemas nesta fábrica e sobre a intenção que a administração da altura tinha de a encerrar”, lembrou Isabel Pires. “Ela foi vendida e, um ano depois, existe uma nova ameaça de encerramento, pelo que há que perceber se se trata de uma insolvência fraudulenta, até porque houve apoios estatais", sublinhou a deputada bloquista.

Os incentivos fiscais dados pelo Governo são frequentemente tema de conversa, sobretudo na hora de atribuir responsabilidades pela situação atual. "O encerramento desta fábrica teria um impacto muito grande para o concelho de Loures, por isso, é preciso que o Governo esclareça onde foram aplicados os incentivos fiscais que deu à administração, até porque, na altura, houve uma grande divulgação", argumentou Isabel Pires.

A fotografia onde já ninguém quer ficar

Ameaçada pelo fecho desde 2015, “para evitar redundâncias”, a fábrica da antiga Triumph, a única na Europa, sediada na freguesia de Sacavém, foi adquirida no início de 2017 pela TGI-Gramax, um grupo empresarial suíço, e emprega atualmente 463 trabalhadores.

Há aproximadamente um ano, a 4 de janeiro de 2017, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, congratulava-se então com o facto de a antiga fábrica de roupa interior da Triumph continuar a laborar em Portugal e manter os cerca de 500 postos de trabalho, durante uma visita à fábrica, na qual foi informado pela atual administração da TGI do plano de negócios, que previa a “diversificação do portefólio de produção” assim como a “expansão a novos mercados de exportação”.

Ler também: Trabalhadoras da antiga Triumph lutam contra encerramento da fábrica

Sorridente, ao lado do ministro na fotografia, o presidente da Câmara Municipal de Loures, Bernardino Soares, apressava-se a garantir que o negócio abria “ótimas perspetivas” e que a nova administração pretendia, “não só manter os atuais postos de trabalho, como no futuro investir ainda mais nos recursos humanos”. O autarca ia, inclusive, mais longe, manifestando “inteira disponibilidade para apoiar a empresa nos seus projetos, através da nossa Agência de Investimento”.

Menos de um ano depois, em novembro passado, a administração da empresa comunicou aos trabalhadores que iria ocorrer um processo de reestruturação, que previa o despedimento de 150 pessoas. Há uma semana, foi conhecido o processo de insolvência da empresa.

Na fotografia, já não cabem ministros nem autarcas com sede de microfone. De Belém, nem uma palavra, quanto mais uma visita. As bravas trabalhadoras da antiga Triumph permanecem
à porta da empresa
, faça chuva ou faça sol, para receberem o que é seu por direito.

Na luta desde o início

Em dezembro de 2015, o Bloco de Esquerda questionou o Ministério da Economia e o Ministério do Trabalho e da Segurança Social sobre o anúncio da venda da fábrica da Triumph, alertando para o facto de estarem em causa centenas de postos de trabalho.

Confirmando-se os receios do Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda, e não obstante os apoios estatais recebidos, a antiga Triumph entrou, entretanto, em processo de insolvência. O anúncio surgiu após a atual administração ter confirmado, perante o ministro da Economia, o investimento de um milhão de euros na fábrica.

A 21 de dezembro de 2017, os trabalhadores da antiga Triumph manifestavam-se em Lisboa para pedir “acesso a uma fonte de subsistência”, face aos salários em atraso e ao processo de insolvência da empresa. Na passada semana, entraram em vigília à porta da fábrica para impedirem a saída de material valioso.

Ler também: Bloco quer garantir manutenção de postos de trabalho na antiga Triumph

Num conjunto de questões endereçadas ao Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, os deputados bloquistas José Soeiro e Isabel Pires frisaram que “urge uma resposta que garanta a manutenção dos postos de trabalho, bem como apoio social aos trabalhadores com salários em atraso, alguns dos quais há meses”.

A ausência de “uma resposta eficaz por parte do Estado acarreta prejuízos sociais irreparáveis para estes trabalhadores e para o concelho de Loures, sendo certo que a empresa tem que justificar que medidas está a tomar com vista à sua viabilização, atentos os apoios que recebeu e investimento que alegou ter feito”, defenderam os dirigentes do Bloco.

José Soeiro e Isabel Pires acrescentaram ainda que “a delapidação do património pode consubstanciar uma situação de insolvência fraudulenta e só uma atuação rápida pode minimizar os riscos resultantes desta atuação por parte da administração”.

Neste contexto, os deputados questionaram o Governo sobre se o mesmo apurou como foram aplicados os apoios públicos facultados à empresa e que garantias e contrapartidas foram exigidas à TGI-Gramax.

Isabel Pires e José Soeiro exigiram ainda saber que medidas está o Governo disposto a encetar com vista a impedir que a administração delapide o património da empresa e acabe por encerrá-la, e como pretende intervir para travar o encerramento da fábrica de Sacavém e garantir a manutenção dos postos de trabalho. Por último, os deputados interrogaram o executivo sobre os apoios que estão a ser assegurados aos trabalhadores e às trabalhadoras com salários em atraso. Tem a palavra o sr. ministro! 

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