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Teatro: Diário do Festival

Nascido na Grécia, o teatro é bem mais antigo que a ideologia de pacotilha que nos querem impingir. E já viu enterrar umas quantas outras, como este fanatismo pseudo-liberal que grassa nas cabeças de quem nos governa. Crónicas diárias publicadas ao longo dos cinco dias do V Festival das Companhias da Descentralização (Évora, 5 a 9 de Junho de 2012). Por Pedro Rodrigues
“O Abajur Lilás”: peça contra o poder ilegítimo, escrita num português amplo.

5 de Junho de 2012

Festejar o quê – recomendaria o bom senso que nos perguntássemos – se logo depois dos primeiros abraços desatamos a contar misérias e a comparar as extensões dos danos do que nos estão a fazer.

E no entanto festejamos – o estarmos vivos e o termos sabido construir esta comunidade teatral que gosta de se juntar e de assim se mostrar ao público, nas suas diferenças, contradições e complementaridades.

É verdade que esta edição do Festival começa com um sabor muito mais amargo do que as anteriores. Que sofremos com os despedimentos que já tivemos de fazer, que ainda andamos a fazer contas e a inventar soluções para chegar até ao final do ano e que nos angustia esta incerteza face ao futuro próximo. Que nos ofende a inutilidade arrogante das instituições públicas que deviam assegurar, em parceria com os artistas nacionais, o acesso de toda a população a todas as formas de expressão artística.

Mas não desistimos. E hoje, ainda a CTB não tinha subido ao palco para oficialmente abrir o V Festival das Companhias da Descentralização, já se falava do sexto, com o Vereador da Cultura da Câmara Municipal da Covilhã.

Festejar o teatro é também isto – inventar luzes onde e quando apenas nos querem condenar às trevas. Por isso aqui estamos, seis companhias e mais de 50 profissionais de teatro, na premiada Évora, perante a indiferença da autarquia mas recebidos de braços abertos pelo Cendrev e pelo público da cidade.

Estamos em festa e a vivê-la (manda o bom senso) como se fosse a última.

Esta já ninguém vos tira!

6deJunhode2012

No dia em que o autocarro chegou à cidade e em que o mocó do Giro voltou à casa-mãe, o Teatro das Beiras apresentou “Provavelmente uma pessoa”, na sala-estúdio do Teatro Garcia de Resende, perante uma casa cheia.

Há 12 anos que cheguei ao teatro. Com a sorte a que todos os principiantes deviam ter direito, calhou que a minha primeira visita técnica fosse ao Garcia de Resende. Entre histórias em que não quero deixar de acreditar sobre troncos gigantes trazidos a reboque do Brasil e lições de acústica e de arquitetura cénica, foi aqui que me apaixonei pela visão de uma plateia – desta plateia – a partir do palco.

Subindo, subindo e subindo ainda mais um pouco, mostraram-me a dada altura a “sala da Escola”, agora assepticamente chamada “sala-estúdio”. Ali funcionava a Escola de Formação Teatral do Cendrev, onde tanta da gente que hoje faz o teatro português começou a aprender a arte e o ofício. Essas pessoas estão espalhadas pelo país – em projectos que fundaram, noutros grupos, dando aulas –, a fazer com que o teatro continue a existir.

A Escola fechou no final de 2002. Os últimos alunos, a cujas estreias profissionais assisti, são de gente da minha geração. Gente que anda há 10 ou 15 anos a tentar evitar que se deite fora o trabalho da geração que nos antecedeu. Gente que, em vez de se ocupar a fazer seguir o rio, é obrigada a gastar as suas energias lutando contra o regresso das águas à nascente. Gente que anda a fazer biscates e a arranjar outros trabalhos para poder continuar no teatro, que tem de deixar de ser profissional para poder continuar a exercer a sua profissão. Em certo sentido, uma sub-gente que nem à “oportunidade” do desemprego tem direito, dada a precariedade em que sempre viveu e trabalhou.

Dizem-nos agora que esta gente estava enganada. Que afinal Portugal não quer nem pode nem precisa de ter criação artística para lá daquela que o mercado permite; que os teatros (mesmo os públicos) têm de ser auto-sustentados; que as companhias que quiserem continuar a existir têm de abandonar o serviço público e dedicar-se ao negócio. Dizem-nos agora que à crise económica que deixaram que se juntasse à crise financeira é agora preciso acrescentar a crise social; que é depois de terem perdido os serviços públicos, incluindo o acesso à criação e à fruição cultural, que os portugueses ficarão melhor e mais animados.

Lamento: não me convencem. E como a juntar-se a esta está já uma nova geração, ainda mais inquieta e maltratada, cheira-me que não vai ser assim tão fácil.

Nascido na Grécia (sabe tão bem dizer isto...), o teatro é um bocadinho mais antigo que a ideologia de pacotilha que nos querem impingir. E já viu enterrar umas quantas outras, bem mais fundamentadas do que este fanatismo pseudo-liberal que grassa nas cabeças de quem nos governa.

7deJunhode2012

Assumamos: o reportório escolhido pelas seis companhias da descentralização que por estes dias se mostram em Évora não é o mais indicado para levantar a moral dos portugueses. Entre reis sanguinários, populares assustados, regimes racistas, patos-bravos desnorteados e umas irmãs mesquinhas, venha o mais pessimista e escolha.

A meio deste festival de elogios à condição humana, voltou hoje a surgir no Garcia de Resende um dono de prostíbulo que só pensa na faturação. Em nome da produtividade das suas “empregadas”, não hesita em exercer sobre elas todas as formas de poder que tem ao seu alcance: da humilhação e da chantagem à tortura e ao assassinato.

A futilidade do pretexto que desencadeia os acontecimentos, a rapidez com que tudo se desenvolve e a facilidade com que os seres humanos passam a descartáveis colocam-nos em tempos que gostamos de considerar passados. Giro, o proprietário, tem e exerce o poder do dinheiro, em nome do lucro que não concebe a parar de crescer. “A putaria é assim mesmo”, sustenta, protegido pela sombra-capanga que lhe faz o trabalho sujo.

Mantendo-se viva, uma das suas vítimas resiste à inevitabilidade e insiste em perguntar: “onde vamos?”.

Quando “os faróis que nos guiam são pálidos”, é nestas perguntas, mesmo que feitas num palco entretanto esvaziado e corroído, que conseguimos encontrar alguma esperança.

8deJunhode2012

Se não fosse por mais nada, o VATe – Serviço Educativo da ACTA distinguir-se-ia pela forma como se apresenta e faz transportar: num autocarro transformado em teatro que anda há anos a encantar miúdos e graúdos pelas terras algarvias. As portas foram abertas ao público de Évora pela primeira vez hoje de manhã, com uma sessão da peça “A mais louca história da aviação”, para cerca de meia centena de alunos do pré-escolar e do primeiro ciclo.

Independentemente do nome que cada uma lhes dá, o VATe é o mais exuberante exemplo de um conjunto de atividades desenvolvidas por várias companhias de teatro (incluindo todas as que participam neste festival, visando o alargamento e a formação de públicos: ações de formação para alunos e professores, para grupos de amadores, para estudantes universitários, para o público em geral; leituras; visitas guiadas; conversas com os artistas; conferências e debates; ciclos de cinema; intervenções na rua e em espaços não convencionais (o espetáculo da ACTA estreou junto aos balcões do check-in do aeroporto de Faro); documentários; edições.

Fazem-no há muitos anos. Por interesse próprio e por interesse público, num país cuja taxa de analfabetismo ronda os 10% e onde ir ao teatro ou ler um livro são extravagâncias na vida da vida da maior parte dos cidadãos.

Têm-no feito sem o apoio do Estado, que se limita a incluir estas actividades (cada vez mais) entre as contrapartidas obrigatórias pelos apoios que dá (cada vez menos) à criação artística. Pior: têm-no feito contra o discurso e a prática dominantes nas instituições públicas, que não só não fazem o que lhes compete nesta matéria (na articulação com o Ministério da Educação, por exemplo), como objectivamente afastam públicos das salas de teatro de cada vez que insinuam, acusam ou deixam que se acuse aqueles que financiam de serem subsidiodependentes ou “mendigos de chapéu na mão”. Que adiantam a retórica oficial sobre a importantíssima relevância da cultura, os prémios e as honras balofas em dias de festa quando o Estado que os atribui é o mesmo que viola contratos assinados, aplicando cortes de 40% em financiamentos atribuídos e que nada diz sobre o que pretende fazer daqui a seis meses, deixando paralisadas dezenas de estruturas profissionais? Como pode o Estado querer que os cidadãos se importem com a criação artística se ele a espezinha desta maneira?

E, no entanto, a responsabilidade continua a cair sobre nós. Se não temos públicos suficientes nem dispostos a pagar os custos da nossa actividade, o problema é nosso, que não sabemos cativá-los.

Seria demagógico, irresponsável, improdutivo e (em alguns casos) injusto referir aqui as taxas de abstenção nas eleições que legitimaram o poder dos governantes que assim pensam e agem.

Não o faço a sério, portanto. É apenas para responder à letra.

9deJunhode2012

As palavras às vezes são feias e preferimos não as usar, encontrando outras maneiras (quase sempre menos certeiras) de dizer o que pensamos.

O Abel fartou-se. Para ter a certeza de que os destinatários o entendiam, resolveu usar um português completo (o único à altura da situação em que nos encontramos) na abertura do debate “O Teatro em tempo de crise”, no último dia do Festival das Companhias.

Neste mesmo debate, soaram os ecos da suposta reacção do Secretário de Estado da Cultura às declarações de Luis Miguel Cintra na entrevista à Antena Um. A meio de uma paciente explicação sobre a utilidade pública da arte, e denunciando o silêncio do Governo quanto ao financiamento da criação artística para os próximos anos, o director da Cornucópia disse que, sem o apoio do Estado, os criadores teriam de se prostituir para poder continuar a fazer o seu trabalho. Tenha sido pela fealdade da palavra ou pelo respeito que o encenador não pode deixar de impor ao actual titular da pasta da Cultura, Francisco José Viegas sentiu-se obrigado a dizer qualquer coisa. Veio dizer que “os concursos” vão abrir em Setembro. E que, portanto, não há razões para alarme nem para pessimismos.

Perante uma sala com cerca de 50 profissionais do teatro prestes a ficar sem trabalho, a Directora Regional da Cultura do Alentejo transmitiu, com um sorriso simpático, a “boa nova”.

Sem o talento do Abel Neves nem a acutilância do Luis Miguel Cintra, falta-me a palavra feia apropriada para qualificar a atitude destes governantes que já nem se dão conta do ridículo e acham que é uma benesse garantir ao povo que vão cumprir a lei. É que nós, pelos vistos mais confiantes na sua idoneidade do que eles próprios, não colocávamos isso em causa. O que precisamos urgentemente de saber é em que condições abrem tais concursos, com que orçamentos, com que prazos. Não é uma questão de estados de alma – é uma questão de sobrevivência. Disso depende sabermos se as nossas companhias continuam a existir depois de Dezembro de 2012, se os nossos trabalhadores têm emprego daqui a seis meses e, já agora, se alguns dos teatros que estes grupos mantêm abertos continuarão a funcionar no próximo ano.

Sabemos que nada disto interessa para meia dúzia de ideólogos do regime, daqueles que – sem os pudores que nos têm condicionado em relação à linguagem – nos chamam subsidiodependentes, mentecaptos, mendigos “de chapéu na mão” e chantangistas, “tropa fandanga” e nos acusam de “mamar” no Estado. Mas o que verdadeiramente nos indigna é que responsáveis políticos – por mais cordatos, simpáticos e bem-educados que sejam na forma como se nos dirigem – nos tratem como estúpidos enquanto vão acabando com o teatro em Portugal.

*crónicasdiáriaspublicadasaolongodoscincodias
doVFestivaldasCompanhiasdaDescentralização
(Évora,5a9deJunhode2012). Asversõesoriginaispodemserlidasaqui.

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