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Syriza passou o teste da constituição do Governo

De onde vêm os membros do Governo liderado por Alexis Tsipras? Os Gregos Independentes são mesmo xenófobos? E as mulheres, foram relegadas para pastas de segundo plano? Nikos Smyrnaios responde a estas e outras questões.
Como se vê na foto, o novo ministro do Interior grego acompanhou de muito perto a ação das forças policiais, mas na perspetiva dos manifestantes reprimidos.

Alexis Tsipras agiu muito depressa para dar sinais de mudança. Sendo o primeiro chefe de governo na história da Grécia a recusar jurar sobre os Evangelhos perante um arcebispo, fez uma visita simbólica na sequência da tomada de posse. Depositou uma coroa de flores no bairro ateniense de Kessariani sobre o monumento aos 200 heróis comunistas da Resistência executados pelos nazis no 1º de maio de 1940.

Este gesto pretendeu simbolizar a continuidade histórica entre as várias gerações que se bateram à custa das suas vidas durante décadas - contra a barbárie, pela democracia, a justiça social e a independência nacional - e o novo governo. É também uma mensagem dirigida aos neonazis da Aurora Dourada que estarão de novo presentes no Parlamento. Mas é também uma lembrança para a Alemanha a respeito da sua dívida histórica perante a Grécia.

A seguir à tomada de posse, Alexis Tsipras foi ao monumento dos heróis comunistas fuzilados pelos nazis.

A aliança com os Gregos Independentes

Consciente que um vazio de poder, por menor que fosse, poderia ter consequências imprevisíveis, Tsipras conseguiu compor uma maioria parlamentar com o pequeno partido dos Gregos Independentes. Claro que se trata de uma escolha que levanta problemas. Mas os Gregos Independentes não são o partido xenófobo que tem sido descrito aqui e acolá na imprensa. É um grupo político conservador no plano societal, próximo da Igreja ortodoxa e patriota no limite do nacionalismo. Parece-se mais com os partidos da direita cristã que existem na Europa.

O discurso do seu líder Panos Kammenos tem por  vezes uns resquícios de teoria da conspiração. Mas ele não é um racista xenófobo encartado como eram sem quaisquer dúvidas vários membros do anterior governo. De facto, ele nunca andou em namoros com a Aurora Dourada, como faziam regularmente os colaboradores próximos de Antonis Samarás.

O discurso do seu líder Panos Kammenos tem por vezes uns resquícios de teoria da conspiração. Mas ele não é um racista xenófobo encartado, como eram sem quaisquer dúvidas vários membros do anterior governo. De facto, ele nunca andou em namoros com a Aurora Dourada, como faziam regularmente os colaboradores próximos de Antonis Samarás.

É o que também diz a correspondente do Mediapart na Grécia, Amélie Poinssot, fundamentando-se no testemunho do jornalista Dimitris Psarras, um dos melhores especialistas sobre a extrema-direita na Grécia. Diz ele: "Quando o partido foi criado em 2012, integrava alguns elementos que habitualmente encontramos em partidos de extrema-direita, como o nacionalismo, a dimensão populista, a relação com a Igreja, uma agenda anti-imigração. Mas a identidade deste partido é o seu posicionamento anti-austeridade. Na sua prática e discurso, caracterizo-o mais como nacional-populista. E também já afastou por completo os temas que agitava em 2012".

No que respeita à questão da imigração, é certo que o programa oficial dos Gregos Independentes adota o discurso de "fronteiras fechadas" mas ele é essencialmente retórico. No fundo apenas defende a reforma dos acordos europeus (Dublin II e III) que retêm os milhares de requerentes de asilo no primeiro país de entrada na União Europeia, neste caso a Grécia.

Além disso, a ministra-adjunta com a pasta da imigração, Tassia Christodoulopoulou, que faz parte do Syriza, é uma antiga defensora dos direitos dos imigrantes. Ela anunciou mal tomou posse a intenção de naturalizar os milhares de jovens de origem estrangeira nascidos na Grécia mas que não podem obter a nacionalidade grega, bem como a substituição dos campos de retenção, indignos para os requerentes de asilo, por centros de acolhimento.

Ao nível económico, o partido soberanista de Kammenos tem tido uma linha anti-austeritária e pró-social desde 2012, apesar das contínuas pressões que até incluíram tentativas de suborno dos seus deputados. Sendo ponto assente que a recuperação da economia e a negociação da dívida serão as prioridades do governo, trata-se por isso de uma escolha pragmática e coerente da parte de Tsipras.

A participação de Kammenos no governo enquanto ministro da Defesa vai complicar algumas reformas importantes, como a separação da Igreja e do Estado ou o casamento gay que o Syriza defenda. Mas ela permite a Tsipras mostrar que soube formar um governo de união que ultrapassa largamente o perímetro do seu próprio partido e dispor no seio do governo de um interlocutor credível aos olhos dos militares.

A economia primeiro (mas sem banqueiros)

Sob a batuta do velho sábio Yannis Dragasakis, que será vice-primeiro ministro e coordenador geral, o governo afigura-se coerente e equilibrado. Os ministérios das Finanças e do Desenvolvimento estarão nas mãos de professores de economia moderados, respetivamente Yannis Varoufakis e Yorgos Stathakis.

Varoufakis tem um perfil interessante: bloguista e twitteiro inveterado, foi professor de economia na Austrália e nos Estados Unidos antes de trabalhar para a conhecida empresa de jogos de computador Valve. Antigo conselheiro de George Papandréou, não tem papas na língua. Conhecedor do sistema financeiro mundial, terá a seu cargo as negociações com os credores. Esta escolha um pouco surpreendente indispôs outros economistas mais à esquerda como Yannis Millos e Euclide Tsakalotos, nomes ventilados para ocuparem o mesmo ministério. Mas é uma escolha tática interessante, tendo em vista as negociações sobre a dívida, e que pode revelar-se eficaz.

Ao lado de Varoufakis encontra-se uma militante histórica da esquerda grega, Nadia Valavani, que será encarregue de gerir o orçamento (e eventualmente controlar os movimentos do primeiro). Outra mulher, Rania Antonopulou, que dirigia até agora o programa Gender Equality and the Economy no Levy Institute de Nova Iorque, tomará em mãos a difícil batalha contra o desemprego.

Ao lado de Varoufakis encontra-se uma militante histórica da esquerda grega, Nadia Valavani, que será encarregue de gerir o orçamento (e eventualmente controlar os movimentos do primeiro). Outra mulher, Rania Antonopulou, que dirigia até agora o programa Gender Equality and the Economy no Levy Institute de Nova Iorque, tomará em mãos a difícil batalha contra o desemprego. É uma tecnocrata keynesiana clássica que defende o conceito do Estado empregador de última instância. Vai trabalhar sob a batuta de Panos Skouretis, colaborador próximo de Tsipras e agora ministro do Trabalho.

A escolha de economistas mais liberais é contrabalançada pela nomeação de Panayoitis Lafazanis, o chefe da ala esquerda do Syriza, para o superministério da Produção, Energia e Ambiente. Lafazanis, mais de tendência produtivista, terá ao seu lado um ministro-adjunto do Ambiente membro dos Verdes, Yannis Tsironis. Será interessante observar se irão encontrar um equilíbrio ou se iremos assistir ao desenvolvimento de conflitos latentes entre o comunista Lafazanis e o ecologista Tsironis. Em todo o caso, o primeiro já fez saber que está fora de questão proceder à privatização da DEI, a empresa pública de energia, prevista pelos acordos do anterior governo com a troika.

Universitários e ativistas por todo o lado

Tsipras decidiu criar uma pasta especial para a luta contra a corrupção, sinal de que será também uma prioridade para o seu governo. Nomeou ministro-adjunto Panayotis Nikoloudis, um procurador que esteve recentemente à frente da Autoridade contra a corrupção. A difícil tarefa de democratizar as forças policiais foi confiada ao professor de criminologia Yannis Panousis, antigo membro de um partido que não conseguiu representação parlamentar, a Esquerda Democrática (DIMAR).

O seu superior direto, ministro do Interior, será Nikos Voutsis, quadro experimentado e combativo do Syriza que tem contas a ajustar com a polícia por causa de muitas manifestações como na foto deste artigo, que tem sido bastante difundida no Twitter. O facto de o filho de Voutsis ser um anarquista acabado de sair da prisão apimenta ainda mais a situação.

A pasta da Saúde será entregue a um histórico do Pasok que se distanciou cedo da política de austeridade, o invisual Panagiotis Kouroumplis. Nikos Kotzias, um reconhecido intelectual [NR: de origem comunista e germanófona, tendo mais tarde feito a aproximação a Papandreou], será ministro dos Negócios Estrangeiros. Ele encarna uma linha patriota de esquerda, compatível com Kammenos, o que poderá finalmente permitir à Grécia dispor de uma política autónoma e não submissa. 

Devemos esperar um reequilíbrio da posição grega em relação à Rússia, mas também a Israel, do qual os governos precedentes se aproximaram apesar da relação historicamente próxima da Grécia com os países  árabes. Importa também dizer que muitos militantes e simpatizantes do Syriza militam a favor da causa palestiniana.

O aviso de Tsipras a Federica Mogherini, comissária europeia dos Negócios Estrangeiros, de que não se pode esquecer da Grécia antes de fazer declarações em nome de todos os Estados membros acerca do conflito ucraniano, foi seguramente inspirada por Kotzias. Devemos portanto esperar um reequilíbrio da posição grega em relação à Rússia, mas também a Israel, do qual os governos precedentes se aproximaram apesar da relação historicamente próxima da Grécia com os países  árabes. Importa também lembrar que muitos militantes e simpatizantes do Syriza militam a favor da causa palestiniana.

Por fim, Nikos Xydakis, o editorialista erudito do diário conservador Kathimerini, ficou ministro-adjunto da Cultura e Nikos Paraskevopoulos, professor empenhado desde há muito na defesa dos direitos humanos e militante pelos direitos dos presos, será o novo ministro da Justiça. O constitucionalista Yorgos Katrougalos, uma figura em ascensão no Syriza, deixa o seu lugar de eurodeputado para se ocupar da reforma da administração, outra frente urgente na Grécia.

A tonitruante jurista e convicta feminista Zoé Konstantopoulou vai presidir ao Parlamento. É também algo inédito na Grécia. Do seu cargo irá cumprir a tarefa de disciplinar os deputados neonazis, habituados às escaramuças no hemiciclo, e de levar a bom porto os inquéritos parlamentares que não deixarão de se abrir quanto aos escândalos do passado. Trata-se de um gesto de pirraça divertido depois de todo o bullying que os deputados machistas da direita lhe infligiram nos últimos anos (sem que ela se deixasse ficar, evidentemente, como neste caso).

Zoé Konstantopoulou e Rena Dourou, a presidente da grande região de Ática, são as duas mulheres mais poderosas do Syriza, e têm menos de 40 anos. Um dos seus próximos, o jovem Gabriel Sakellaridis, que esteve à beira de ganhar à Câmara de Atenas em junho, será o porta-voz do governo. É um representante talentoso da geração de trintanários próxima de Tsipras.

O porta-voz do Governo Gabriel Sakellaridis com a governadora de Ática Rena Dourou e Alexis Tsipras

Concluindo, trata-se de um governo com diversidade e abertura, em que estão representadas três formações para alem do Syriza (os Verdes, a Esquerda Democrática e os Gregos Independentes). Um governo que se quer tranquilizador para os mercados e os credores, mas que envolve igualmente a ala esquerda do Syriza e recompensa as figuras desde sempre empenhadas a favor dos direitos sociais. As mulheres são relativamente numerosas (em comparação com o que é hábito na Grécia) e estão em postos chave. Os universitários constituem a espinha dorsal.

É óbvio que se podem fazer muitas críticas a este governo: podia haver mais mulheres; a esquerda radical podia estar mais representada, em especial nos ministérios económicos. Mas não era um exercício fácil compor este governo que deve enfrentar rapidamente problemas graves e urgentes. Aguardemos os próximos capítulos.


Nikos Smyrnaios é douturado em Ciências da Informação e Comunicação pela Universidade de Toulouse e escreve em blogues gregos e franceses sobre temas da atualidade.

Publicado no blogue Ephemeron. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net

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