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Shahd Wadi: "A dignidade humana não tem fronteiras"

A luso-palestiniana candidata independente pelo Bloco ao Parlamento Europeu explicou ao esquerda.net o que a fez aceitar este desafio e como o enquadra nas suas lutas pela libertação da Palestina e das mulheres em todo o mundo.
Shahd Wadi é candidata independente nas listas do Bloco para as eleições europeias de 25 de maio.

Shahd Wadi nasceu no Egipto, filha de refugiados palestinianos. Viveu a infância e juventude na Jordânia e está no nosso país há oito anos. Foi a autora, em 2010, da primeira tese em Estudos Feministas feita em Portugal, intitulada «Feminismos dos corpos ocupados: As mulheres palestinianas entre duas resistências», na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Faz parte do Comité de Solidariedade com a Palestina e quer que este seja um dos temas a sublinhar na campanha das próximas eleições europeias.

Porque aceitou o convite do Bloco para se candidatar às europeias?

Bom, o que me fez aceitar este convite é tudo aquilo que sou e sonho ser mas não posso ser neste momento: portuguesa, palestiniana, mulher, feminista, académica na área das Humanidades e uma pessoa que acredita nas artes. Foi por todas estas coisas que sou e pelas quais luto que aceitei este convite para lutarmos juntos. E sobretudo a questão da solidariedade com a Palestina, que foi sublinhada pela Marisa Matias na apresentação do Manifesto Eleitoral. Acredito que a dignidade humana não tem fronteiras e que o combate deve ser internacional. Creio que hoje em dia a solidariedade com a Palestina tem de ser um contrato obrigatório e não uma questão de palavras. É a nossa  responsabilidade sermos solidários com a Palestina. Enquanto mulher e feminista, acredito que há muitas lutas por fazer enquanto não existir igualdade entre os seres humanos. E enquanto portuguesa e académica sofro com a austeridade e vejo as áreas das Humanidades a irem desaparecendo.  Em suma, sou e quero ser muitas coisas que hoje não estou a conseguir ser e quero lutar para ser.

Sendo uma ativista pela causa da libertação da Palestina, que críticas aponta à posição europeia no conflito?

Falar da minha luta em relação à questão da Palestina é falar da minha história de vida. Sou de uma família de refugiados palestinianos e só tive a oportunidade – que muitas pessoas palestinianas não têm – de poder estar na Palestina aos 15 anos, através do trabalho do meu pai. Foi aí que percebi e decidi que sou palestiniana. Por isso digo que nos tornamos palestinianos porque precisamos de ser palestinianos. É por isso que muitas pessoas se tornam palestinianos. Por exemplo, o Miguel Portas lutou muito pela Palestina e tornou-se de alguma forma palestiniano, tal como a Marisa Matias se tem empenhado pela causa palestiniana através do seu trabalho no Parlamento Europeu. 

Creio que neste momento o que é preciso é uma ação de desobediência cívica, seja contra a austeridade seja pela causa palestiniana, como está a ser agora desenvolvida na campanha pelo boicote, desinvestimento e sanções contra Israel. É necessário que a União Europeia pressione Israel para respeitar a lei internacional. 

Uma coisa tão simples como esta campanha, que funcionou tão bem contra a África do Sul no tempo do apartheid, está a ser implantada desde 2005 e felizmente, pouco a pouco, juntou muitas pessoas. A União Europeia publicou uma diretiva para impedir negócios com os colonatos israelitas, dentro desta linha do boicote, e é preciso caminhar mais neste sentido. 2014 é o ano internacional de solidariedade com a Palestina, pelo que agora é o momento para estarmos todos solidários com a Palestina.

Foi autora da primeira tese de Estudos Feministas em Portugal. Como surgiu o interesse por essa área de estudo? 

Esse interesse surgiu justamente quando decidi tornar-me uma mulher palestiniana, ao visitar a Palestina pela primeira vez. Senti o que é ser mulher e ser palestiniana. A partir daí quis aprender a minha língua-mãe e conhecer as mulheres palestinianas para estudar a sua dupla resistência: contra a sociedade patriarcal e a ocupação israelita. Elas vivem uma dupla opressão e ao mesmo tempo exercem uma dupla resistência. No projeto de doutoramento que estou a terminar agora, concentro-me mais nas artes, já que acredito na luta através dos corpos e da arte. 

ESQUERDA.NET | Entrevista | Shahd Wadi

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