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Refugiados: “Temos que escolher entre a humanidade ou o preconceito”

Comentário de Joana Simões Piedade, uma das organizadoras da Marcha Civil por Alepo sobre a situação dos refugiados.
Refugiados em debate, com Joana Simões Piedade.

Joana Simões Piedade é jornalista e fez parte da organização da Marcha Civil por Alepo. O seu comentário está incluído no décimo primeiro programa do Mais Esquerda, que pode ser visto na íntegra aqui. O seu comentário pode ser lido e visto em baixo. Os restantes comentários em debate no mesmo programa podem ser vistos em separado aqui (de José Soeiro, sobre precariedade) e aqui (de Cristina Roldão sobre racismo na educação).

És uma das duas organizadoras portuguesas da Marcha Civil por Alepo, o que é esta Marcha e em que estado se encontra neste momento?

A Marcha Civil por Alepo começou no passado dia 26 de dezembro em Berlim, é fruto da iniciativa de um conjunto de cerca de 20 pessoas provenientes de vários países da Europa e também da Turquia e da Síria. Decidimos juntar-nos nesta iniciativa porque 2016 foi um ano muito violento para os civis na Síria, com um número de vítimas ainda a ultrapassar o ano anterior. Muitos homens, mulheres e crianças passaram diversas dificuldades em várias cidades e vilas da Síria, com muitos poucos cuidados médicos, pouco acesso a bens essenciais.

Esta iniciativa surgiu de um grupo de pessoas que, não sendo pertencentes a nenhuma organização, sentiram uma necessidade de se juntar com este objetivo comum. É uma iniciativa da sociedade civil, feita por voluntários. 

A Marcha teve início no dia 26 de dezembro em Berlim e a nossa ideia é prestar tributo aos refugiados, aos milhões de pessoas que foram obrigados a fugir das suas vidas nos últimos anos. Por isso a rota da marcha teve início em Berlim, neste momento está em Dresden, ainda na Alemanha, e vai seguir pela República Checa, pela Áustria, pela Eslovénia, Croácia, Sérvia, Macedónia, Turquia e Síria. 

A Marcha tem como objetivo prestar tributo aos refugiados. Ao mesmo tempo que tentamos fazer esta chamada de atenção para a sociedade civil, fazemos também encontros em escolas nas várias vilas e cidades por onde vamos passando.

E qual tem sido a receção da Marcha?

Tem sido muito boa, especialmente nas escolas. É muito interessante a forma como os jovens e as crianças nos recebem e fazem perguntas. Tem sido bom não só poder falar da Síria, do problema que afeta tantas pessoas, mas também da importância destes movimentos da sociedade civil.

O que nós tentámos fazer, ao constatar o óbvio e a situação tremendamente injusta e inaceitável que vivem os refugiados foi uma tentativa de agir e de ir um bocadinho mais além. E é isso que estamos a fazer e acho que a Marcha tem um potencial muito grande, no sentido da chamada de atenção, de colocar as pessoas a discutir estes assuntos, não só a guerra da Síria, mas dos conflitos em geral. E abrir a discussão e falar de quem realmente beneficia com a guerra, quais são os interesses internacionais que estão por trás de todos estes conflitos internacionais. Não só na Síria, mas todos os conflitos que hoje em dia acontecem no mundo. 

Pensando no futuro potencial desta iniciativa, acho que passa muito por este debate, por esta chamada de atenção, por convocar as pessoas a participarem, a pensarem realmente naquilo que está para acontecer e de que forma é que nós, que ainda somos privilegiados ao vivermos em países onde podermos eleger os nossos representantes, podemos ter uma palavra importante a dizer.

Qual é a tua expectativa em relação ao que pode acontecer na Europa ao longo deste ano e de que forma é que Portugal podia e devia reagir a este problema?

Neste momento a Europa tem muito medo dos refugiados, constroem-se muros e cercas para evitar que ultrapassem certas barreiras. Nesse aspeto, acho que a comunicação social tem algum peso e influência, porque aquilo que temos visto sempre são barcos cheios de pessoas, parece que há uma invasão. As pessoas comentam isso, “estão-nos a invadir”, há esse preconceito e esse medo que está a ser criado. 

No entanto, se formos olhar objetivamente para os dados das Nações Unidas, neste momento os países que mais acolhem refugiados não são países europeus. É a Turquia, o Paquistão, o Líbano, o Irão, são esses os países que acolhem mais refugiados, não são os países europeus. Mas a ideia que temos é que são os países europeus, o que alimenta os ódios, o preconceito e os movimentos de extrema-direita que estão a crescer muito em vários pontos da Europa.

A Marcha, como muitos outros movimentos, serve para resgatar o que deveriam ser os valores europeus, que são os valores que estiveram na base da criação da União Europeia e que estão a ser completamente esquecidos: os valores da dignidade pessoal, da solidariedade, do bem estar das populações. Esse resgate tem de ser feito.

Em relação a Portugal, Portugal tem pela frente um desafio. Neste momento temos setecentos e poucos refugiados em Portugal, mas a cota é de cerca de cinco mil, que pode ser preenchida nos próximos anos. Isto é um grande desafio para nós, claro, para o governo, também para as instituições que trabalham nesta área, para a sociedade e acho que para cada um de nós em particular. Acho que também cabe a cada um de nós, enquanto cidadãos, pensar no que podemos fazer, de que forma podemos contribuir para esta situação, qual é que vai ser a minha escolha, o meu posicionamento, vou escolher a solidariedade ou vou escolher o medo? Vou escolher a humanidade ou vou escolher o preconceito? Acho que são todas estas escolhas que todos nós teremos que fazer ao longo deste ano e dos próximos.

 

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