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Raduan Nassar critica governo “repressor” de Temer: "Vivemos tempos sombrios"

Quando subiu ao palco para receber o Prémio Camões, o escritor transformou a homenagem à sua obra num contundente ato de protesto. O ministro da Cultura brasileiro reagiu lamentando o sucedido e foi fortemente vaiado pelo público.
Foto publicada em Outras Palavras.

Esta sexta-feira, o escritor Raduan Nassar foi galardoado com o Prémio Camões de 2016, atribuído pelos governos do Brasil e Portugal. Durante a homenagem, que teve lugar no Museu Lasar Segall, em São Paulo, e contou com a presença do embaixador de Portugal no Brasil, Jorge Cabral, Raduan Nassar lembrou o momento em que esteve em Portugal em 1976, “fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior”.

“Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil”, lamentou o escritor.

Referindo-se ao governo de Michel Temer como “repressor”, Raduan lembrou os episódios da invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; da invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; da invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; da prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; da violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios estes que foram “todos perpetrados por Alexandre de Moraes”, agora indicado para o Supremo Tribunal Federal.

O ministro da Cultura brasileiro Roberto Freire reagiu à intervenção, lamentando o sucedido: “O Brasil de hoje assiste perplexo a algumas pessoas da nossa geração, que têm o privilégio de dar exemplos e que viveram um efetivo golpe nos anos 60 do século passado, e que dão exatamente o inverso”.

Sendo vaiado e interrompido várias vezes durante a sua intervenção, Freire afirmou que “é fácil fazer protesto em momentos de governo democrático como o atual” e que “quem dá prémio a adversário político não é a ditadura!".

Perante as afirmações do ministro de que “é um adversário político do Governo que está a receber um prémio do Governo que ele considera ilegítimo”, os escritores presentes no evento lembraram que o Prémio Camões 2016 foi anunciado em maio de 2016, quando o impeachment ainda não tinha sido concluído.

O Esquerda.net reproduz, na íntegra, o discurso do escritor Raduan Nassar:

“Excelentíssimo Senhor Embaixador de Portugal, Dr. Jorge Cabral.

Senhor Dr. Roberto Freire, Ministro da Cultura do governo em exercício.

Senhora Helena Severo, Presidente da Fundação Biblioteca Nacional.

Professor Jorge Schwartz, Diretor do Museu Lasar Segall.

Saudações a todos os convidados.

Tive dificuldade em entender o Prémio Camões, ainda que concedido pelo voto unânime do júri. De qualquer forma, é uma honraria a um brasileiro ter sido contemplado no berço da nossa língua.

Estive em Portugal em 1976, fascinado pelo país, resplandecente desde a Revolução dos Cravos no ano anterior. Além de amigos portugueses, fui sempre carinhosamente acolhido pela imprensa, escritores e meios académicos lusitanos.

Portanto, Sr.Embaixador, muito obrigado a Portugal.

Infelizmente, nada é tão azul no nosso Brasil.

Vivemos tempos sombrios, muito sombrios: invasão na sede do Partido dos Trabalhadores em São Paulo; invasão na Escola Nacional Florestan Fernandes; invasão nas escolas de ensino médio em muitos estados; a prisão de Guilherme Boulos, membro da Coordenação do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto; violência contra a oposição democrática ao manifestar-se na rua. Episódios todos perpetrados por Alexandre de Moraes.

Com curriculum mais amplo de truculência, Moraes propiciou também, por omissão, as tragédias nos presídios de Manaus e Roraima. Prima inclusive por uma incontinência verbal assustadora, de um partidarismo exacerbado, há registo em vídeo, atestando a virulência da sua fala. E é esta figura exótica a indicada agora para o Supremo Tribunal Federal.

Os factos mencionados configuram por extensão todo um governo repressor: contra o trabalhador, contra aposentadorias criteriosas, contra universidades federais de ensino gratuito, contra a diplomacia ativa e altiva de Celso Amorim. Governo atrelado por sinal ao neoliberalismo com a sua escandalosa concentração da riqueza, o que tem vindo a desgraçar os pobres do mundo inteiro.

Mesmo de exceção, o governo que está aí foi posto, e continua amparado pelo Ministério Público e, de resto, pelo Supremo Tribunal Federal.

Prova da sustentação do governo em exercício aconteceu há três dias, quando o ministro Celso de Mello, com as suas intervenções enfadonhas, acolheu o pleito de Moreira Franco. Citado 34 vezes numa única delação, o ministro Celso de Mello garantiu, com imunidade, a proteção do alcunhado “Angorá”. E acrescentou um elogio superlativo a um dos seus pares, o ministro Gilmar Mendes, por ter barrado Lula para a Casa Civil, no governo Dilma. Dois pesos e duas medidas.

É esse o Supremo que temos, ressalvadas poucas exceções. Coerente com o seu passado à época do regime militar, o mesmo Supremo propiciou a reversão da nossa democracia: não impediu que Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados e réu na Corte, instaurasse o processo de impeachment de Dilma Rousseff. Íntegra, eleita pelo voto popular, Dilma foi afastada definitivamente no Senado.

O golpe estava consumado!

Não há como ficar calado.

Obrigado!”

(Intervenção integral publicada na Carta Capital)

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