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Procurador ameaça prender chefe do governo catalão

Na contagem decrescente para o referendo, Carles Puigdemont reafirma que a 1 de outubro haverá urnas, boletins e eleitores. O procurador espanhol responsável pela perseguição ao referendo diz que a prisão do chefe da Generalitat é uma possibilidade que “está em aberto”.

Em entrevista à France Inter esta segunda-feira, o chefe do governo da Catalunha mostrou-se determinado em realizar o referendo. “Está convocado, tudo está em marcha e há uma grande expetativa e esperança por parte dos catalães em poderem exprimir-se” no próximo domingo, afirmou Carles Puigdemont.

A tensão continua a crescer na Catalunha, à medida que o Estado espanhol continua a transferir milhares de polícias para impedir o referendo e tenta agora assumir o controlo dos Mossos d’Esquadra, o corpo policial catalão.

Para o líder da Generalitat, esta atitude do Estado espanhol, à semelhança do controlo das Finanças catalãs, é “uma reação por parte do Estado que já estava prevista” e que não porá em causa a celebração do referendo.

“Posso confirmar que haverá votação. Haverá urnas, boletins e o mais importante, eleitores”, afirmou Puigdemont, condenando os apelos à violência por parte de Espanha, o que “nunca foi nem será nunca uma opção para a Catalunha”.

Também esta segunda-feira, o Procurador-Geral espanhol, Juan Manuel Maza, afirmou que até ao momento não lhe pareceu “oportuno” pedir a detenção do chefe do governo catalão, admitindo que essa possibilidade eestá “em aberto”

Apesar das manifestações e protestos pelo direito a decidir terem sempre decorrido de forma pacífica, a Procuradoria espanhola tem falado em “mobilizações tumultuosas” para justificar não só a chamada de reforço policial de outras zonas do Estado espanhol, como a acusação de sedição, ou crime contra a segurança do Estado, aos apoiantes do referendo.

Procurador ordena aos Mossos d’Esquadra que passem a aceitar ordens do Estado

A ordem para que a coordenação do trabalho dos Mossos d’Esquadra, Guardia Civil e Corpo Nacional de Polícia passasse para as mãos do coronel da Guardia Civil Diego Pérez de los Cobos causou grande polémica na Catalunha. Filho de um candidato do partido de extrema-direita Fuerza Nova nas primeiras eleições democráticas após a queda do franquismo, o coronel é irmão do ex-presidente do Tribunal Constitucional que declarou ilegal a consulta realizada ao povo catalão no dia 9 de novembro de 2014. Além das ligações familiares, o próprio coronel teve de responder pelas acusações de tortura a um preso da ETA em 1992, do qual acabou por não ser condenado, ao contrário de três colegas seus da Guaria Civil.     

O governo catalão veio a público rejeitar qualquer interferência do Estado no corpo policial catalão e o próprio responsável policial dos Mossos, Josep Lluís Trapero, também deixou sinais do seu incómodo com as instruções recebidas, afastando a hipótese de uma intervenção do Estado na sua polícia. Ao fim da tarde de segunda-feira terá lugar a primeira reunião conjunta dos três organismos policiais. A polícia espanhola não esconde o descontentamento com a ação dos Mossos durante as rusgas da semana passada ao Departamento de Economia, em que 18 agentes da Guardia Civil ficaram eles próprios presos dentro do edifício durante todo o dia, enquanto os manifestantes no exterior bloqueavam todas as saídas e cobriam as viaturas policiais de propaganda a favor do referendo e da independência da Catalunha.

#FreePiolín: navio dos polícias espanhóis ridicularizado

A mais recente humilhação dos polícias chegados à Catalunha aconteceu no porto de Barcelona, devido à decoração de um dos navios alugados para albergar milhares de polícias enviados para reprimir o referendo. A toda a altura do paquete estão desenhados os personagens da lendária série de animação “Looney Tunes”, com o pássaro Tweety (o “Piu-piu”, ou Piolín, em castelhano) em destaque, a par do Coiote e do Daffy Duck.

De imediato, os apoiantes do referendo encheram as redes sociais com fotos do paquete e comentários jocosos sobre a “invasão dos Piolín”. A humilhação chegou a um ponto em que o Ministério do Interior foi obrigado a dar ordens a que os desenhos fossem tapados através do lançamento de lonas com dezenas de metros de altura.

A repressão do Estado passa pela inquirição dos autarcas que disponibilizaram as instalações municipais para a realização do referendo, mas também começaram a ser ouvidos esta segunda-feira os alegados responsáveis por replicar as páginas na internet com informação sobre o referendo, que o Estado proibiu e bloqueou.

Extrema-direita ataca sessão do Podemos, polícia queixa-se de falta de efetivos

A reunião nacional deste domingo dos eleitos do Unidos Podemos, a que se juntaram os representantes das “confluências” e também políticos do campo soberanista catalão e basco, foi recebida em Zaragoza por uma manifestação da extrema-direita espanholista. Os manifestantes bloquearam as entradas para a sessão e atiraram garrafas contra os participantes, tendo atingido a presidente das Cortes de Aragão, Violeta Barba.

Quando os organizadores pediram explicações à polícia sobre a garantia da segurança da iniciativa, a resposta foi que “os seus efetivos estão na Catalunha a perseguir urnas”, afirmou o líder do Podem catalão, Xavier Domènech. A polícia decidiu fechar várias portas do pavilhão onde a iniciativa se desenrolava e os participantes tiveram de esperar algumas horas até que fossem repostas condições mínimas de segurança.

Na iniciativa convocada pelo Podemos, o seu líder Pablo Iglesias voltou a desafiar o nº 1 do PSOE para não alinhar com Rajoy na repressão da democracia na Catalunha e a procurar “o seu próprio caminho, longe da via autoritária e reacionária do PP”. O mesmo apelo aos socialistas para que seja possível um referendo pactuado na Catalunha foi repetido por Ada Colau, edil de Barcelona que interveio nesta sessão.

A necessidade de tirar Rajoy do governo e mandar o PP e os Ciudadanos para a oposição foi outro dos pontos fortes do discurso de Iglesias, que defendeu “um novo governo de unidade plurinacional e democrático que organize um referendo na Catalunha”.

O encontro aprovou ainda um manifesto subscrito por todas as organizações presentes, à exceção da Esquerda Republicana Catalã. O manifesto apela ao diálogo, condena as detenções e rusgas e defende que o governo não deve impedir “que a 1 de outubro os cidadãos catalães se expressem como achem adequado”.

 

 

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