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Prefácio à reedição de "Viagem à União Soviética"

Por ocasião do centenário da revolução de 1917, a Cavalo de Ferro vai lançar esta semana uma reedição de "Viagem à União Soviética", um relato de Urbano Tavares Rodrigues. O Esquerda.net antecipa o prefácio de José Neves. 
"Viagem à União Soviética", de Urbano Tavares Rodrigues, agora reeditado pela Cavalo de Ferro.
"Viagem à União Soviética", de Urbano Tavares Rodrigues, agora reeditado pela Cavalo de Ferro.

A memória dos debates travados em torno da URSS tende a sublinhar a importância das clivagens ideológicas na história do século XX. A forma contundente como a mobilização em defesa do comunismo e a crítica anticomunista do regime soviético se opuseram deixou pouca margem a terceiras vias. Rompendo todo o tipo de vínculos, lançou compatriotas para lados distintos de barricadas, quebrou elos de amizade, minou relações profissionais e chegou a cortar laços familiares. Acresce que a lembrança desta conflituosidade é tanto mais viva quanto mais se acomoda aos interesses políticos de muitos daqueles que se envolvem na disputa do presente. Como se tem visto por estes dias de centenário da Revolução de Outubro, não falta quem enfatize o século de 1917 como uma época de paixões extremas. E se há quem trate de sublimar o radicalismo daquele tempo visando a crítica do consenso liberal que por ora nos hegemoniza, outros há que demonizam esse radicalismo e procuram evitar o regresso de um horizonte de transformação radical da sociedade.

Permitindo-nos voltar ao encontro de um autor que recentemente nos deixou – e que tem sido acarinhado além das fronteiras políticas que a sua trajectória de vida delimitou –, o texto de Urbano Tavares Rodrigues, que em boa hora aqui se reedita, relata uma viagem à URSS efectuada no início dos anos de 1970. A leitura deste documento permite-nos perceber o século xx como A Era dos Extremos, para citarmos o célebre título do livro que o historiador Eric J. Hobsbawm dedicou ao período. Mas a leitura do texto de Urbano também autoriza que o século seja focado à luz de uma outra perspectiva. A esta possibilidade – que assenta na ideia de uma convergência civilizacional entre capitalismo e socialismo a partir do segundo pós-guerra – gostaria de dedicar este breve prefácio.

Não foi preciso cair o Muro de Berlim para que o fogo das paixões ideológicas que animaram o período de entre-guerras abrandasse, esfriado no calculismo das modernas engrenagens administrativas que aparentam tudo despolitizar. Encontramos facilmente sinais de um tal esfriamento quer na história da própria URSS, quer na evolução do capitalismo ocidental. A chamada tese da coexistência pacífica, defendida por Nikita Kruschev, é um exemplo concreto desse processo e, mais do que uma simples cedência reformista dos comunistas soviéticos, testemunha uma mudança maior nos termos da relação entre comunismo e capitalismo: a passagem de uma relação de tipo conflitual a uma de tipo competitivo, com o antagonismo ideológico e o confronto político a cederem terreno à concorrência económica e à comparação de indicadores sociais.

E se o esforço de Kruschev para instituir o económico como critério de superioridade na luta entre soviéticos e norte-americanos contribuiu para tal passagem, importa igualmente sublinhar a relevância que para ela tiveram as transformações do próprio capitalismo. Com efeito, em vários países ocidentais, no quadro do desenvolvimento de uma atitude preventiva em relação às lutas de classes, houve um incremento da intervenção social do Estado, apurando-se uma forma de governar o antagonismo operário assente mais no controlo do que na disciplina. Tratou-se então de optimizar a repressão política por via da inclusão social. Em suma, dir-se-ia que ao longo da segunda metade do século XX, no encalço da frente aliada que derrotou o nazismo na II Guerra Mundial, o socialismo se revalorizou como sujeito económico e o capitalismo assumiu para si uma função social. Estas mudanças não deixaram de implicar e de reflectir transformações no próprio modo de debater a questão soviética. A proclamação de ideais cedeu terreno à argumentação analítica, numa transição a que não foi estranha a importância política crescente dos serviços e agências estatais de informação, dos órgãos de comunicação social ou ainda das ciências sociais em geral e da economia em particular.

No eco das notícias que os serviços de informação das grandes potências ocidentais foram plantando nas redes de comunicação social no contexto da chamada Guerra Fria, nas lutas pela divulgação do informe que Kruschev apresentou ao XX congresso do PCUS denunciando os crimes do estalinismo ou nas guerras de interpretação de relatórios produzidos pela plêiade de organismos supranacionais situados na órbita da ONU, um mesmo problema foi sendo uma e outra vez formulado: o do conhecimento de uma realidade soviética que estaria coberta pelas vestes ideológicas tecidas pela propaganda comunista (no dizer de uns) ou pelas campanhas anticomunistas (segundo outros). Ou seja, o choque de posições ideológicas em torno da bondade ou malignidade do modelo soviético cedeu terreno a uma batalha de informações em torno da verdadeira realidade do próprio modelo.

Neste puzzle, o texto de Urbano é – à primeira vista – uma peça de encaixe simples: tratando de tomar partido a favor do comunismo, pretende já tomar conhecimento da realidade soviética. Transporta marcas da amizade e fidelidade ideológica do autor ao comunismo, mas também de um processo de inquérito à realidade soviética. Se há um ou outro aspecto da escrita de Urbano que deve ao estilo aventureiro de alguma literatura de viagem, em muitos outros elementos discorre uma linguagem própria de um relatório de avaliação. Procurando dar a conhecer com algum detalhe certos pormenores do funcionamento do regime, o autor comenta aspectos da divisão profissional do trabalho ou do dia-a-dia de instituições públicas no domínio da saúde ou da educação. A esta luz, a URSS aparece menos como um país diferente do que como um país melhor. A vida soviética dá-se aqui menos como exemplo de uma nova direcção para a Humanidade do que o ponto mais avançado da direcção que a Humanidade vinha já tomando. Como se na relação entre a URSS e o Ocidente estivesse em causa, mais do que um conflito entre civilizações de natureza diferente, a performance competitiva de cada qual, a aferir por critérios económicos e sociais tacitamente aceites por ambas as partes.

Finalmente, é para nós também claro que uma certa sensibilidade romântica de Urbano Tavares Rodrigues acaba por tornar o seu exercício menos previsível do que é permitido supor pela contextualização que temos vindo a efectuar neste prefácio. Uma tal sensibilidade mostra-se à evidência numa ou noutra reserva que exprime a propósito dessa mesma vida soviética: por exemplo, atraído já então por outros regimes e movimentos, nomeadamente latino-americanos, e ciente da interpelação maoista ao marxismo soviético, o nosso autor acusa a ausência de outros comunismos na esfera pública soviética.

A sensibilidade romântica revela-se ainda no tipo de aspiração que em parte projecta o seu relato da vida soviética: esta não é simplesmente mostrada como o estádio mais avançado do progresso social mas também como prova e experiência de um progresso diferente: onde a vida soviética é urbana, nem por isso impera a desordem própria da época das massas, pois que a multidão enche as ruas da cidade sem se atropelar, acorrendo aos transportes públicos para neles entregar o seu tempo à leitura. E se Urbano mostra uma e outra vez como a sociedade soviética tende a cicatrizar as feridas sociais que o capitalismo abrira em todos os cantos do planeta, igualmente considera que o problema da desigualdade é não apenas uma questão de capital económico mas da própria forma que as relações de poder tomam. A simpatia que revela por uma pedagogia não- -autoritária e a crítica do culto da personalidade são disso exemplo, bem como o elogio que dirige, no âmbito do seu foro profissional, à igualdade de estatuto entre escritores e tradutores na URSS.

De resto, se participa da nova ordem informativa e analítica que passa a reger os debates em torno do problema soviético, o texto de Urbano não deixa de se relacionar problematicamente com ela. As páginas que se seguem estão investidas de uma autoridade de tipo empiricista, com base no princípio metodológico é-verdade-porque-estive-lá-e-vi -com-os-meus-próprios-olhos, mas desde o início que Urbano igualmente reconhece não haver observação que não seja subjectiva. Como se a ideologia, uma vez atirada porta fora, logo retornasse pelo friso de uma janela.

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