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Por que aumentar os salários?

É uma medida que tem fundamentos teóricos sólidos, e a situação atual fornece um contra-exemplo concreto, porque a austeridade mergulha a Europa na recessão. Mas talvez valha a pena examinar as objeções avançadas pelos defensores do “rigor”. Por Michel Husson.
Aumentar os salários, não os dividendos dos acionistas. Foto de ag-exag

Aumentar os salários melhoraria o nível de vida dos assalariados e relançaria o consumo, logo, a atividade económica, e portanto o emprego. Este raciocínio tem fundamentos teóricos sólidos e a situação atual fornece um contra-exemplo concreto, porque a austeridade orçamental e salarial mergulha a Europa na recessão. Mas talvez valha a pena examinar as objeções avançadas pelos defensores do “rigor”.

A primeira é que as empresas têm necessidade de restabelecer o seu lucro para poder investir de novo e portanto criar empregos. A margem certamente baixou com a crise, mas muito menos se se levar em conta os dividendos distribuídos pelas empresas, que voltaram aos níveis muito elevados de antes da crise: representam hoje 13% da massa salarial, o equivalente a perto de 3 milhões de empregos [em França]. Além disso, não se dá de beber a um burro que não tem sede. O investimento não tem nenhuma razão de ser retomado se as carteiras de encomendas estão quase vazias.

Uma outra série de objeções diz respeito à globalização. Dizem-nos: se aumentam os salários, degradam a competitividade das empresas francesas que vão perder mercado e portanto vão suprimir empregos ou deslocalizá-los. Mas basta raciocinar à escala europeia para ver o absurdo deste argumento: na corrida pela competitividade, todos os países não podem ganhar uns contra os outros, porque os seus principais clientes são os seus vizinhos. Essa é, aliás, uma das causas essenciais da recessão europeia.

Objeta-se também que o aumento dos salários conduziria a um aumento das importações mais que a um relançamento da produção doméstica. Mas também neste caso, a validade deste argumento desaparece em grande parte se imaginarmos uma retomada salarial coordenada entre os países europeus. Restam evidentemente as trocas com o resto do mundo (outros países desenvolvidos e emergentes). É preciso no entanto saber que o comércio internacional da Europa é globalmente equilibrado e que a variável-chave não é o “custo salarial”, mas sim a taxa de câmbio. Ora, não se podem compensar as consideráveis flutuações da taxa de câmbio do euro através de uma redução de salários: o que se ganharia de competitividade em relação ao resto do mundo, seria largamente compensado pela recessão interna.

Esta discussão rápida permite apontar os obstáculos a uma política de relançamento salarial que seria socialmente justa e economicamente eficaz. O primeiro obstáculo diz respeito à repartição dos lucros. Uma política alternativa deve tratar esta questão porque é o meio de libertar margens de manobra, promovendo uma transferência dos dividendos para os salários. É preciso anular, com efeito, a contra-transferência feita em benefício do lucro dos acionistas ao fim de pelo menos 15 anos e que é a causa da incrustação do desemprego e, no fim de contas, da recessão. O segundo obstáculo é a generalização da austeridade na Europa: todo o relançamento salarial tem de ser coordenado a nível europeu para assegurar a sua viabilidade económica.

É preciso também examinar as razões profundas das condições de vida dos assalariados que não podem ser resolvidas apenas pela subida dos salários. Um dos principais é a habitação. Em vez de uma corrida sem fim entre os salários e as rendas de casa ou o preço da habitação, a solução de fundo passa por uma política de controlo das rendas e da luta contra a escassez de habitação. Um outro fator é a perda de substância dos serviços públicos e da proteção social. A sua revalorização permitiria melhorar a condição salarial de maneira complementar ao aumento dos salários diretos. O aumento dos salários seria assim uma medida justa respondendo a necessidades urgentes. Mas a sua concretização supõe uma clara rutura com o curso do capitalismo que protege os acionistas e organiza conscientemente a concorrência entre assalariados em escala europeia, ou mesmo mundial.

3 de abril 2013

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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