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PCF contra encerramento de centrais nucleares

O Partido Comunista Francês tem-se manifestado abertamente contra o encerramento das centrais nucleares francesas, em particular contra o encerramento da central nuclear de Fessenheim, na Alsácia. A pobre fundamentação do PCF na defesa da energia nuclear, sobretudo depois de Fukushima, revela um acantonamento ideológico crónico e uma nostalgia do programa nuclear do bloco de leste.
Central nuclear de Fessenheim - Foto wikipedia

Nas últimas semanas, o PCF (Partido Comunista Francês) tem-se manifestado abertamente contra o encerramento das centrais nucleares francesas, em particular contra o encerramento da central nuclear de Fessenheim, na Alsácia, tal como está previsto no programa eleitoral de François Hollande por pressão dos Verdes franceses (Europe Ecologie). O PCF fundamenta as suas posições recorrendo a argumentação onde se invoca a perda dos postos de trabalho, onde se garante a segurança da unidade de Fessenheim e se apela à independência energética nacional. Ora, os postos de trabalho que serão criados no complexo de energias renováveis que substituirá a unidade de Fessenheim, será da mesma ordem de grandeza dos postos de trabalho da central nuclear em causa. Acresce que o encerramento de uma central nuclear é um processo que se prolonga durante vários anos e alguns dos processos de tratamento dos resíduos perigosos chegam a prolongar-se por várias décadas. Mas, o mais grave é que a posição do PCF acaba por dar cobertura à abundante subcontratação de trabalhadores no setor do nuclear, trabalhadores estes que realizam o trabalho mais perigoso, recebendo salários pouco superiores ao salário mínimo, suportando doses bem acima de qualquer um dos funcionários da central, e que têm sido vítimas de acidentes incapacitantes. A central nuclear de Fessenheim é a mais antiga central francesa em funcionamento, foi construída em 1977, tendo sido previsto na altura um tempo de vida de 20 anos que foi já largamente ultrapassado. Esta central encontra-se localizada numa região de atividade sísmica, sem dar garantias de resistir a um terramoto de magnitude superior a 6,7 na escala de Richter – estima-se que o terramoto com um epicentro a 50 km ocorrido em Basileia em 1356 poderá ter atingido os 6,9 – e à rutura do grande canal da Alsácia. Estes factos não só descredibilizam as garantias de segurança dadas pelo PCF, como são reforçados pelo número de acidentes de nível 0 e de nível 1 que quadruplicou ao longo da última década.

A pobre fundamentação do PCF na defesa da energia nuclear, sobretudo depois de Fukushima, revela um acantonamento ideológico crónico e uma nostalgia do programa nuclear do bloco de leste implementado por partidos como o Partido Socialista Unificado da Alemanha (ex-RDA) e o Partido Comunista da Checoslováquia, ambos representados no GUE/NGL (Esquerda Unitária Europeia e Verdes Nórdicos) no Parlamento Europeu através do Partido do Socialismo Democrático que integra o Die Linke e do Partido Comunista da Boémia e da Morávia (Rep. Checa). Os comunistas checos são acérrimos defensores da energia nuclear e o Die Linke defende uma saída do nuclear apenas a médio ou longo prazo. No GUE também o PCP mostrou abertura à discussão da energia nuclear. Apesar do PCF ter integrado a Frente de Esquerda nas eleições presidenciais, Jean-Luc Mélenchon defende uma saída progressiva do nuclear e propõe a realização de um referendo sobre a questão.

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Sobre o/a autor(a)

Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra
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