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Para vos dar vida

Podemos afirmar que na prática, foi a partir dos anos 80, com o aparecimento das Associações de Dadores de Sangue que acabou o drama de morrerem pessoas por falta de sangue. Artigo de Paulo Cardoso, dirigente associativo.

Ninguém dúvida da importância que tem para o SNS, a recolha organizada de dádivas de sangue e o reforço da base de dados nacional dos dadores de medula óssea. Podemos afirmar que na prática, foi a partir dos anos 80, com o aparecimento das Associações de Dadores de Sangue que acabou o drama de morrerem pessoas por falta de sangue. Este progresso, segundo o meu ponto de vista foi devido a dois fatores muito importantes:

Um, infelizmente por tristes motivos, teve a ver com a guerra colonial. Por várias razões a recolha de sangue tornou-se uma prática muito útil entre os militares, tal como acontece ainda hoje, felizmente, na Escola da GNR em Portalegre, a título de exemplo. Outro e ainda em prática, resulta da mobilização dos trabalhadores para esta importante causa. Muitas vezes em grupos organizados como por exemplo da Caixa Geral de Depósitos, ferroviários, etc.

Com o fim da guerra do ultramar e a redução do contingente militar, com o fecho de unidades, esta fonte de dádivas reduziu drasticamente. E muitos dos que eram dadores dessa origem, estão a terminar o seu ciclo de dádivas. São muitos os exemplos da continuidade nesta causa por via dos antecessores, mas existe um novo paradigma que o mundo da dádiva de sangue enfrenta nos tempos atuais. Não basta termos uma população envelhecida e com regiões a desertificar, como e a agravar, a legislação laboral, a precariedade e o aumento da pobreza afetam e de que maneira a dádiva de sangue.

Pelas razões anteriormente enunciadas percebe-se que o universo dos dadores está a caminhar na sua maioria para o fim de ciclo das dádivas de sangue. Num país com falta de jovens e que infelizmente, ainda viu muitos a partirem nos últimos tempos, a renovação além de não estar garantida, preocupa os dirigentes das Associações. Mas esta preocupação tem de ser estendida a todos, porque estamos a falar de um bem essencial e insubstituível que é o sangue. É aqui que a classe política e em especial os nossos governantes devem assumir a responsabilidade.

Esquecendo por agora o triste episódio da quebra de isenção das taxas moderadoras aos dadores, não se pode ignorar que a partir de 2003 com a alteração do código do trabalho, agravado em 2009 e com o respetivo aumento da precariedade, o mundo da dádiva de sangue saiu muito prejudicado e os seus dirigentes sentiram e sentem dificuldades para manter os números, que de forma exemplar garantem que não falte sangue. Mas como já referi, não são fáceis de garantir.

Eu próprio senti na pele as dificuldades acrescidas de dar sangue depois das alterações laborais. Assim como, percebi as diferenças entre ter patrões alemães cumpridores e passar a ter patrões portugueses exploradores. O código do trabalho não passa de um conjunto de leis “bem-intencionadas”, mas que permitem tudo aos mal-intencionados. E é aqui, que se apela à classe política para que perceba que têm a obrigação de garantir os meios de sobrevivência da população que os elegeu. Sem alterar as leis laborais, devolvendo a defesa da dignidade dos trabalhadores, não vai ser possível combater a perseguição que é feita em muitas empresas aos trabalhadores que querem manter a sua habitual e valiosíssima dádiva de sangue. Cabe aos políticos esta reflexão a par daquela, que felizmente parece começar a dar passos positivos como é o caso do aproveitamento do plasma em detrimento dos milhões que o Estado paga a multinacionais.

O nosso país é apontado como um bom exemplo, reforçado pelo facto de que a dádiva é benévola e se os nossos autarcas têm tido uma atitude muito importante e positiva no apoio que prestam, já ao nível parlamentar deixa muito a desejar, o que me faz pensar às vezes, que tipo sangue corre nas veias dos deputados… Não quero ser injusto, provavelmente não estão despertos para esta realidade; talvez nunca tenham precisado e este meu desabafo vai mesmo nesse sentido. Um dia, também podem vir a precisar de alguém com o braço estendido, não para pedir emprego, casa, pão, mas para vos dar a vida!

Artigo de Paulo Cardoso, dirigente associativo.

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