Entre 1991 e 2012 Joseph Koudelka percorreu 19 países da bacia mediterrânica para visitar e fotografar mais de 200 sítios arqueológicos. Desse périplo nasceu uma exposição intitulada “Vestiges”, inaugurada no quadro da programação da Capital Europeia da Cultura Marseille-Provence 2013. A conceção da mostra assenta, também ela, numa ideia de percurso definido pelas grandes panorâmicas que se abrem nas paredes ou se levantam do chão em suportes que evocam uma cartografia de ruínas e outras histórias.
Nas fotografias de Koudelka, como o próprio admite, não está o desejo do repórter, mas a vontade de registar uma imagem perfeita na sua beleza. Essa determinação é aqui evidente. No entanto, uma aventura feita de tantos anos de imersão na História não é impermeável à tentação dum propósito narrativo ou historiográfico. Ele está lá, pelo menos na deferência que o espectador devotará ao peso da civilização, na dificuldade de contemplar um templo grego e não sentir vontade de baixar a voz por respeito aos antepassados que foram capazes de tal proeza: uma ruína assim não é um amontoado de pedras velhas, é uma história inteira que nos transcende numa grandeza de antiguidade e perfeição. Conquanto pudesse ser um caminho natural, o gesto do fotógrafo checo (naturalizado francês em 1987), não se deixa levar pela melancolia que a cultura greco-romana despertou nos pintores românticos. Estas são paisagens sem gente dentro, mas com o homem e a sua ação, o tempo e o seu trabalho. Mesmo quando são visíveis em segundo plano alguns traços do mundo mais recente, estão ali calados, como observadores (talvez ameaçadores, ou então antecipando as ruínas em que serão).
Joseph Koudelka, nascido em 1938 num país que já não existe, começou a fotografar muito cedo, combinando mais tarde a atividade como engenheiro aeronáutico com trabalhos como fotógrafo, sobretudo para companhias de teatro. A partir de 1967 abdicou da carreira como engenheiro e dedicou-se em exclusivo à fotografia. Retratou os ciganos romenos (prémio Nadar, em 1975, com o livro “Les Gitans: la fin du voyage”), o exílio (“Exil”, 1998) e o fim da Primavera de Praga. As imagens da invasão de Praga chegaram à agência Magnum, que as publicou protegendo o nome do autor de eventuais represálias do regime. Em 2008, estas foram compiladas num volume intitulado “Invasion Prague 68”, um registo mais documental que outros trabalhos seus mas, ainda assim, feito de deambulação e, definitivamente, de ruínas, de exílio.
Em 1970, Inglaterra concedeu-lhe o asilo político e Koudelka só voltou à República Checa em 1991, já naturalizado francês, para fotografar as paisagens devastadas pela exploração de minério e a indústria pesada associada (“Le triangle noir”, 1994).
Deambulando por distintos países, retratou ao longo dos anos essa mesma devastação do território pela guerra, pelo tempo, ou pela ação do homem e posterior abandono (“Chaos”, 2000).
A magnífica exposição que agora apresenta é bem a síntese desse olhar que busca ao mesmo tempo a beleza e o inventário, o silêncio acumulado na composição rigorosa dos despojos. Representa, desse ponto de vista, a viagem pela obra dum fotógrafo que, não sendo paisagista, acumulou imagens do território depois do homem, ou para lá deste.
Que tal epopeia veja a luz numa das cidades mais antigas da margem norte do mediterrâneo e no âmbito de uma iniciativa como a “Capital Europeia da Cultura” parece natural, mas revela também os tiques do novo-riquismo que tantas vezes enforma a programação dos grandes eventos culturais. A Joseph Koudelka foram dados os meios para (re)visitar os sítios arqueológicos aqui apresentados, de forma a enriquecer e concluir o trabalho iniciado 20 anos antes. Todo o orçamento disponível foi gasto numa produção que, segundo o fotógrafo, resultou na seleção de uma pequena parte do acervo acumulado, dados os constrangimentos de meios e espaços disponíveis para a Capital Europeia da Cultura. No centro da Vieille Charité, em Marselha, três salas servem até 15 de Abrilo dispositivo da versão definitivamente curta do périplo pelo mediterrâneo que estes vestígios documentam. Supõe-se que mais tarde, noutro âmbito, o projecto acabe por ser apresentado numa versão mais ou menos completa. Quem sabe, até talvez acompanhada de um catálogo.