Os fregueses e as freguesias

A democracia é a soma de todas as vozes, sem parcelas mais importantes, e ser democrata é estar junto dos cidadãos onde todos se ouvem: nas freguesias. Contributo de Tiago Pinheiro.

A riqueza de uma melodia está na pluralidade de sons distintos que a compõem; a excelência de uma pintura está no bailado das infinitas cores que desenham os seus traços; o requinte de um sabor está em cada ínfima pitada de acre, doce e salgado; o significado de um caminho está embebido por cada um dos passos que o percorreram.

Não há plural que não tenha a sua riqueza na soma do singular. É no singular que se encontram todas as opiniões, todas as formas de ver, sentir, viver. Para o plural sobram apenas as vozes que se escutam mais alto, ou as singularidades que com mais frequência se repetem.

A democracia é a essência do singular, com uma oportunidade deste se manifestar, para que o inevitável plural seja a produção do máximo de singularidades possível.

E se escutar 10 singularidades já se reveste de uma indubitável complexidade, escutar 10 milhões mais complexo se torna. Requer ouvidos astutos, que oiçam murmúrios com a mesma atenção que escutam gritos; requer bom senso que adivinhe inquietações e preocupações, requer humildade para que em momento algum se quebre o princípio de que não há singularidades mais nobres ou importantes.

Votar é depositar a singularidade num papel, confiar numa outra singularidade que no plural nos saiba representar, com um tom semelhante, ainda que sempre distinto, mas que, ainda que com notas diferentes, entoe a mesma melodia.

É da responsabilidade de quem representa tantas pequenas vozes no coro que é um país, saber ouvir cada uma delas. E só o consegue estando próximo, caso contrário ouvirá apenas os ruídos adjacentes. E mais próximos vão estando os interesses económicos, munidos de tambores ensurdecedores, que deixam ténue e frágil a dócil voz do cidadão.

Debate-se a aniquilação de freguesias, debate-se no fundo, o silêncio das vozes mais ténues. As freguesias são o ouvido mais próximo da população, que escuta a todos, nos seus contextos particulares, no seu dia-a-dia. Nas freguesias, uma grande maioria das vozes conhecem-se à muito, partilham de laços familiares, partilham dos laços de pertença a uma mesma “terra”. De braço no ar, no adro da igreja, na mesa do café, na garagem de uma qualquer casa, debate-se, distingue-se a voz de cada um.

A extinção das freguesias atrai demasiados fregueses. Os fregueses do interesse económico, para os quais a democracia é um chavão sem sentido, para os quais a igualdade é um momento de humor; os fregueses a quem não interessam as vozes singulares, interessa sim que a pluralidade seja o somatório de 2 ou 3 singularidades. Aos outros resta o papel de ouvir, de aceitar, de se embrenharem na ilusão de que são livres, não sendo.

Os fregueses estudam a matemática das freguesias. Poupam uns tostões, cêntimos desperdiçados num qualquer outro festim de luxúria e interesses, para pouparem na probabilidade da discórdia. Vendem a ideia de que as freguesias são uma teimosia de alguns, quando são, na verdade, a voz de todos. A representatividade é perigosa, afinal a melodia pode perder-se com os gritos dos que clamam por justiça.

Viram-se agora os fregueses para as freguesias. Outrora viraram-se para o Parlamento; sugerem redução de deputados alegando o elevado custo dos mesmos, esquecendo que os custos são com aqueles que por lá passaram nos últimos 35 anos, sem ideias, sem iniciativa, esquecendo os que representam.

É em demasia a freguesia da desbastação da representatividade; grandes partidos, interesses económicos, lóbis estabelecidos, pretendem apoderar-se da pluralidade, para que a mesma seja um eco apenas da sua voz, e não das vozes ínfimas de 10 milhões de portugueses. Para que os braços no ar na votação não representem uma nação, mas sim o interesse de uma parcela.

A democracia é ouvir os instrumentos todos numa música, é distinguir todos os tons aguerridos ou ténues de uma pintura. A democracia é a soma de todas as vozes, sem parcelas mais importantes, e ser democrata é estar junto dos cidadãos onde todos se ouvem: nas freguesias.

4 de abril de 2012

Contributo deTiago Pinheiro

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