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Onde estão os amigos dos curdos?

A surpresa – ou talvez não – da noite de segunda-feira, chegou de Nova Iorque: o Conselho de Segurança das Nações Unidas, reunido a pedido da França por causa da ofensiva militar turca no Curdistão sírio, terminou a reunião e ficou em silêncio. Artigo de José Manuel Rosendo, publicado no blogue meu Mundo minha Aldeia.

Não houve condenação da invasão turca, nem comunicado final. As únicas declarações conhecidas são as do embaixador francês: “há uma viva preocupação face à situação no norte da Síria com a escalada em curso”. Ainda acrescentou que a prioridade é a “unidade dos aliados na luta contra o Estado Islâmico” e que a situação em Afrin é apenas “um dos elementos da situação na Síria”. E por aqui se ficou.

Dos outros 14 países do Conselho de Segurança não são conhecidas quaisquer declarações e porque a reunião foi à porta fechada – não sendo possível ter a certeza – corre a notícia de que a embaixadora norte-americana Nikki Haley, não esteve presente.

A confirmar-se esta ausência, fica claro que os Estados Unidos, mais uma vez, “olharam para o lado” quando se trata de proteger aliados e quando se sabe que um dos argumentos para a actual invasão turca foi os Estados Unidos terem dito que estavam a formar as milícias curdas da Síria com o objectivo de evitar o regresso do Estado Islâmico a territórios que já ocupou. Apesar dos desmentidos norte-americanos, a Turquia encarou esta acção como sendo a base da formação de um força militar curda para vigiar e proteger a fronteira turco-síria (que é a zona curda). Os Estados Unidos lavaram as mãos, qual Pilatos, e todos aqueles que se dizem amigos dos curdos, fizeram o mesmo. Ao apelo curdo para que Washington “assuma as suas responsabilidades”, a Casa Branca fez ouvidos moucos.

Longe vão os tempos em que muitos teciam loas aos curdos por enfrentarem o Estado Islâmico. Fizeram-no no Iraque e na Síria. Depois disso, no Iraque sabemos que fizeram um referendo e votaram pela Independência; o governo de Bagdad tratou de fazer gorar essas intenções, tomando Kirkuk à força e encerrando o espaço aéreo; os interesses económicos das elites curdas iraquianas fizeram o resto – há petróleo para vender.

Na Síria, os curdos dispensaram o referendo e declararam a Autonomia administrativa em Rojava (assim designado o Curdistão Ocidental) que inclui os cantões de Jazira, Kobani e Afrin. Este último, fica separado dos outros dois que são contíguos. Entre eles fica uma zona onde a influência curda é reduzida e por onde entraram as forças militares turcas desde que intervieram directamente na guerra na Síria em Novembro de 2016. Agora o ataque é ao cantão de Afrin, o mais exposto e difícil de defender por ser um enclave.

Não surpreende o ataque turco. As ameaças vinham sendo feitas e a vontade turca de neutralizar as pretensões curdas era mais do que evidente. A Turquia vê nas milícias YPG (Unidades de Protecção Popular) a versão síria do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) que desde 1984 declarou a revolta dos curdos e tem assumido um confronto militar com a Turquia. A Turquia considera as YPG um grupo terrorista.

Mais uma vez, o interesse particular dos Estados evita que os curdos recebam o apoio que fizeram por merecer. Mais uma vez vão sentir-se usados e mais uma vez vão pagar cara a “ousadia” de quererem ser donos do seu próprio destino.

Dos vizinhos próximos dos curdos já se sabia que não querem nem ouvir falar de Autonomia ou Independência, mas de outros “amigos” esperava-se mais. Uns porque também têm minorias nos seus territórios e não querem “maus exemplos”, outros porque têm outros interesses no Médio Oriente, todos deixam os curdos à sua sorte porque nunca são uma prioridade no xadrez internacional.

Ainda não há muito tempo, Tony Blair – depois de muitos anos como líder do “Quarteto para o Médio Oriente” – reconheceu que a comunidade internacional errou na atitude em relação ao Hamas depois do Movimento Islâmico ter vencido as eleições palestinianas em 2006; todos temos assistido ao desfile de personalidades que vieram dizer que a invasão do Iraque foi um erro; todos assistimos a um Conselho de Segurança cada vez mais incapaz de tomar decisões que tenham algum contorno de justiça e não apenas de submissão aos interesses dos membros com assento permanente. Acumulam-se os erros e somam-se conflitos que ganham contornos de guerras prolongadas com um alto preço de vidas humanas.

O recente ataque turco começou a 19 de Janeiro com bombardeamentos a partir da Turquia e teve seguimento no dia seguinte com as forças militares a penetrarem em território sírio.

O Presidente turco já disse que não vai recuar e, paralelamente, a Rússia convida os curdos da Síria a participarem em negociações de paz (com toda a oposição síria) em Sochi, no final de Janeiro, negociações que também têm o patrocínio turco. Ao mesmo tempo a Rússia acusa os Estados Unidos de provocarem a Turquia – por treinarem as milícias curdas – e incentivarem o separatismo curdo.

Na troca de declarações os Estados Unidos pedem “contenção” à Turquia, mas também reconhecem aos turcos “o direito legítimo de se protegerem”, sendo que já reconheceram terem sido avisados antecipadamente da ofensiva turca.

O Reino Unido não foge à regra: o Ministério dos Negócios Estrangeiros fez saber que “reconhece à Turquia um interesse legítimo de assegurar a segurança das suas fronteiras”.

Até agora o único país a protestar contra a invasão turca foi a própria Síria. A Turquia diz que avisou o presidente sírio, mas Bashar al Assad nega e classificou a invasão como “uma agressão brutal”, acusando o regime turco de “apoio ao terrorismo e às organizações terroristas, quaisquer que elas sejam”. Perante tudo isto o que podem pensar os curdos da comunidade internacional?

Pinhal Novo, 23 de Janeiro de 2018


Por José Manuel Rosendo, publicado no blogue meu Mundo minha Aldeia.

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