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"O movimento antivacinas pensa que as pessoas são deuses, que estão acima das doenças"

Entrevista ao pediatra Mário Cordeiro sobre o recente surto de sarampo, a diminuição da taxa de vacinação dos jovens em Portugal, as suas consequências e por que razão o movimento antivacinas tem vindo a crescer. Por Joana Campos.
Braço de criança a ser vacinado
"Portugal conseguiu ser um dos países com mais elevada taxa de vacinação sem ser necessária obrigatoriedade. As coisas funcionam melhor sem obrigações, mas sim quando os cidadãos estão convencidos que as vacinas são boas, eficazes e seguras, como o estiveram durante tantas décadas". Foto de Pixabay.

Entrevista do esquerda.net a Mário Cordeiro, pediatra, professor auxiliar de Saúde Pública na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa e membro da Sociedade Portuguesa de Pediatria e da British Association for Community Child Health.

Desde o início de 2017 houve surtos de sarampo em 14 países europeus. A que se deve este ressurgimento de uma doença que se pensava estar controlada? 

As doenças estão controladas mas não extintas, salvo a varíola, a única que até agora o ser humano conseguiu extinguir. Todavia, a enorme diminuição do número de casos, levando em alguns países - como o nosso - a ter as situações "controladas", ou seja, sem casos durante muitos anos, levou muita gente a pensar que "estava tudo resolvido". Asneira, as bactérias e vírus não se deixam vencer sem uma estratégia sustentada e coerente, e - como a economia ou outra coisa qualquer - com estratégias mundiais, concertadas e coordenadas. 

A diminuição dos casos, a memória curta e o desconhecimento histórico conduziu ao facilitismo de pensar que a vacinação era um "exagero" e que os movimentos antivacinas conseguissem abrir brechas na fantástica muralha que anos e anos de persistência e de caminho árduo tinham conseguido erguer.

A diminuição dos casos, a memória curta que muita gente tem, pensando que "o anteontem já é pré-história" e o desconhecimento histórico, ao crer que o mundo começou hoje e que para tudo não houve um percurso histórico, por vezes duro e difícil, conduziu ao facilitismo de pensar que a vacinação era uma "maçadoria imposta", um "exagero" e a que os movimentos antivacinas, associados na maioria a teorias da conspiração dignas de um twitter do senhor Trump, conseguissem fazer caminho e abrir brechas na fantástica muralha que anos e anos de persistência e de caminho árduo tinham conseguido erguer.

Segundo a DGS, há em Portugal 95 mil jovens que não estão vacinados contra o sarampo. Isso significa que corremos o risco de novos surtos da doença, como aquele que ocorreu já este ano?

Sim. Para lá da imunidade pessoal, há a imunidade de grupo, ou seja, quando mais de 95% da população-alvo da doença está vacinada, os microrganismos não conseguem difundir-se de modo a causar surtos. É como se encontrassem uma constante barreira. Qualquer diminuição na vacinação levará a surtos e alguns deles poderão ser grandes e causar danos significativos na saúde da população - um retrocesso civilizacional!

É possível prever de que outras doenças pode voltar a haver novos surtos?

Qualquer diminuição na vacinação levará a surtos e alguns deles poderão ser grandes e causar danos significativos na saúde da população - um retrocesso civilizacional!

Qualquer uma em que a vacinação abrande, seja sarampo, rubéola, papeira, tosse convulsa e até a poliomielite, como acontece na Nigéria nas zonas dominadas pelo Boko Haram, ou no Afeganistão, Paquistão e outros locais em que os fundamentalistas são contra as vacinas e as doenças - neste caso a polio - ainda resiste. Já poderia ter sido extinta se não fossem estes "senhores da guerra".

Parte dos jovens que não estão vacinados, não o estão por negligência dos pais ou por falta de informação. No entanto, uma outra parte não está vacinada por escolha ativa dos pais. Afirmou que o movimento antivacinas corresponde a um “retrocesso civilizacional” e que é uma “afronta aos mortos”. Como se deu o surgimento deste movimento e por que razão tem vindo a crescer?

Disse e reafirmo. A arrogância da sociedade afluente em que muita gente pensa que o que tem caiu do céu e não foi fruto de muita luta, de muita estratégia, de muito esforço humano, fez com que algumas pessoas pensem que são deuses - estão acima das doenças. Que se desenganem! Os patamares sucessivos civilizacionais foram conseguidos com enorme esforço, com lutas e dádiva, inclusivamente com incompreensão e mortes pelas causas.

Pode haver novos surtos de qualquer doença em que a vacinação abrande, seja sarampo, rubéola, papeira, tosse convulsa e até poliomielite.

Semmelweiss foi humilhado, preso e acabou por morrer na cela, declarado louco por dizer que os médicos deveriam lavar bem as mãos antes de observarem um doente. Temos de ser mais humildes e menos narcisistas. Só juntos, com um sentido de luta, de justiça e de democracia, sem ter medo de denunciar os falsos argumentos, a cultura de redes sociais e a ignorância científica é que conseguiremos manter e melhorar a nossa civilização. A barbárie não se vence sem esforço e uma vez ultrapassada espreita para ver se pode regressar. Vemos isso todos os dias, em todos os continentes!

Nos países em que a vacinação é obrigatória, a taxa de vacinação não é superior à dos outros países. Por outro lado, há cerca de 20 anos emitiu um parecer para a DGS contra a obrigatoriedade da vacinação, mantém essa opinião? De que forma se pode combater o problema?

Fui eu um dos relatores desse parecer e não me arrependo. Portugal conseguiu ser um dos países com mais elevada taxa de vacinação sem ser necessária obrigatoriedade. As coisas funcionam melhor sem obrigações, mas sim quando os cidadãos (os pais, neste caso) estão convencidos que as vacinas são boas, eficazes e seguras, como o estiveram durante tantas décadas. Nos países da ex-Cortina de Ferro, em que a vacinação era obrigatória, havia taxas de 100%. Quando as ditaduras caíram, as taxas baixaram para níveis incríveis e eclodiram epidemias de várias doenças na então Checoslováquia, Roménia, Hungria. Isto porque as pessoas associavam as vacinas a uma obrigação e a sanções, e quando o governo caiu a "vingança" foi não vacinar.

A obrigatoriedade da vacinação não iria penalizar, mais uma vez, os mesmos de sempre, os mais pobres e desprotegidos? Até porque seria mais fácil encontrar uma pessoa pobre que desconhecia haver vacinas do que uma afluente que não quer vacinar os filhos.

Além disso, colocam-se questões práticas: qual o prazo a partir do qual a vacina é considerada "não feita" e não apenas "atrasada"? Quem o define? Quem avalia e procura as pessoas com vacinas em falta? Como se avisam? Quantas oportunidades são dadas? Como se avalia a responsabilidade, quando sabemos como funcionam os serviços e como tantos pais são mandados para trás por falsas contraindicações ou porque falta um dia para os "dois meses" entre vacinas? Isso acontece diariamente. E depois: coimas? Prisão? Não iríamos penalizar, mais uma vez, os mesmos de sempre, os mais pobres e desprotegidos? Até porque seria mais fácil encontrar uma pessoa pobre que desconhecia haver vacinas do que uma afluente que, pura e simplesmente, não quer vacinar os filhos. Pertencendo a uma classe social mais elevada, acabariam esses pais mais ricos (mas nem por isso menos ignorantes e pesporrentes), por "escapar". É sempre assim, já o sabemos!

O que importa é dizer, alto e bom som: "As vacinas salvam, as doenças matam! E as vacinas são eficazes, seguras e fazem bem às crianças!". É esta campanha que temos todos de abraçar.

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Comentários

O movimento "anti-vacinas" não pensa isso. Isso diz o Dr. Mário Cordeiro para o denegrir. O próprio nome que ele lhes dá é para os denegrir. Os próprios não se apresentam em público sob esse nome. Acho que eles dispensam qualquer nome.

Há pouco tempo o Dr. Mário Cordeiro veio a público atacar os que chama de "anti-vacinas" julgando que tinha caso, no caso da jovem de 17 anos que morreu com sarampo. Não tinha. E pediu a "reprovação social" deste grupo de pessoas. Isto é, pediu violência contra este grupo de pessoas. É certo que não foi o único entre pessoas com responsabilidades e que deviam ter mais juízo do que aquele que demonstraram. O resultado viu-se nas redes sociais e nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social. E embora cedo tenha vindo a público que os pais da jovem não eram "anti-vacinas", a investida contra o grupo de pessoas assim denominado continuou. Passado já um bom tempo continuamos sem saber como começou o nosso pequeno surto de sarampo. Não sabemos se começou com uma pessoa não-vacinada ou se começou com uma pessoa vacinada. Sabemos que a jovem que faleceu, não faleceu por não estar vacinada (por conselho médico após uma reacção adversa a uma outra vacina), mas por tomar um imuno-supressor, um medicamento que tanto mata não-vacinados como vacinados.

O Dr. Mário Cordeiro não procede a uma correcta avaliação. A vacina do sarampo pode matar, isto é, já matou, e o sarampo que também pode ser prevenido por outras formas, pode ser tratado e curado. É só um exemplo.

A persistência desta notícia na página do esquerda.net é já campanha do esquerda.net (e do BE) a favor do Plano Nacional de Vacinas (e da sua obrigatoriedade). O grande argumento a favor da obrigatoriedade do PNV tem sido a dita imunidade de grupo. Todos têm que estar vacinados para protegerem os que não podem ser vacinados. Qual é a razoabilidade disto quando os vacinados podem contagiar terceiros? E quando os não vacinados se podem proteger de outras formas? Ninguém não vacinado morreu de sarampo além da jovem de 17 anos de Cascais, mas esta estava desprotegida pelo imuno-supressor. Esta histeria que quer tornar o PNV obrigatório não é mais do que uma confissão do fracasso das vacinas.

O sr. Luís Neves mantém a atitude crítica sem sustentação. Hermética. É só para iniciados!

De que outras formas é que os não vacinados se podem proteger?

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