Está aqui

O moribundo Serviço Nacional de Saúde

Já é tempo de nos deixarmos de mais passos de prestidigitação. Por uma vez haja coragem política e defina-se o que é medicina pública e medicina privada  e acabe-se com esta promiscuidade tāo subtil e capciosamente urdida. Por Eurico D. Gomes.
Foto de Paulete Matos.

Durante algum tempo não vim ao encontro dos meus amigos diabéticos, pelo que me penitencio.

Várias razões o justificariam. 

Talvez a principal, sendo que a que mais me vem preocupando,  passe pelo facto de o SNS ter chegado a um estado tal de insuficiência que na sua globalidade secundariza a problemática da  diabetes como patologia particular.

Daí este desabafo de quem sempre trabalhou para o SNS e só…. e que nos tempos que correm vê todo um edifício  edificado pedra a pedra, construído em condições particulares únicas…. e que hoje assiste impotente à sua destruição como verdadeiro crime  sócio-político.

O SNS ainda existe tal como o concebemos?                

Creio bem que não!     

Aliás, a confusão que consciente ou propositadamente se estabelece entre o original serviço de saúde e o que hoje temos, não faz, em minha opinião,  qualquer sentido. 

Não é fácil abordar de uma forma sintética todo o processo evolutivo que nos conduziu ao estado atual.    

Passaram-se já  mais de trinta anos!

Convenhamos que é muito tempo... e só lamento que não tenha havido, por quem poderia estar verdadeiramente interessado, nenhum alerta atempado que tivesse tido a possibilidade de ecoar  fundo nos meios de comunicação social de molde a que pudessem ter despertado e influenciado os  já pomposamente designados, então, por gestores...

Estávamos a dar os primeiros passos do que designo por gestorocracia

Todos se ficaram numa perspectiva de "o nosso SNS é o melhor do mundo” e daí termos que o defender e manter sem que se fosse percebendo e refletindo e fazendo eco da forma como ia sendo destruído, passo a passo, com a cumplicidade dos poderes políticos. 

Repito, já lá vão mais de trinta anos...

Os médicos e outros profissionais de saúde que viveram esses tempos estão  hoje já na casa dos setenta, tal como eu…       

É fundamental  perceber que quando falamos do tal SNS melhor do mundo já nada diz às gerações actuais. Diria, isso sim, que se os conhecimentos adquiridos então tivessem sido, de uma forma linear,  transmitidos geração médica após geração… como durante anos e anos foi prática nos hospitais mais diferenciados de toda a Europa,  desde os inícios do século xx, poderíamos usufruir nos tempos que ainda correm de um verdadeiro SNS que pediria meças ao mundo.

Houve uma oportunidade única que foi aproveitada, sem dúvida,  mas cedo foi descontinuada, como, infelizmente, tantas vezes acontece.  Poderá hoje já nāo ser entendido quando nós, como tantos colegas,  chegamos aos entāo hospitais distritais onde julgáramos ser úteis, e, em meia dúzia de anos, pusemos em funcionamento  diversos serviços desde a cardiologia à gastroenterologia, oftalmologia ou nefrologia e, pouco tempo depois, hemodiálise ou cirurgias  ortopédicas ou obstétrico/ginecológicas e pediátricas equiparáveis aos melhores centros. Quando hoje olhamos para trás percebemos que só em condiçōes muito particulares --- que o 25 de Abri facultou --- seria possível toda esta, aqui sim com toda a propriedade, "revoluçāo". 

Acrescentaria apenas, porque pouca gente acreditará, que também mais meia dúzia de anos foram suficientes para formar  jovens especialistas que logo começaram a publicar artigos científicos a nível internacional. 

Pois foi assim de par e na sequência do único e espantoso serviço médico à periferia e à  clínica geral que entretanto floresceu que toda a panorâmica da saúde em menos de uma década explodiu... verdadeiramente.

Nāo conhecemos nada semelhante a nível mundial e cremos bem que nāo existe...

Porém, como sempre, mais difícil do que fazer uma “revolução”... o que custa é perpetuá-la e fazê-la  evoluir .

Seria interessante por essa altura, ter dados quanto ao que fazia ou onde estava a hoje tão florescente a dita de  medicina privada e que fez pelo país?  Limitou-se a esperar, como sempre, a sua hora e depois cavalgar simplesmente com a certeza de um investimento rentável.

Atrever-me-ia a aventar algumas razōes que creio, fundamentais. 

Teremos que perceber e nāo esquecer e explicar aos mais novos  que no pré 25 de Abril apenas existia medicina e principalmente cirurgia evoluída em Lisboa, Porto e Coimbra. 

Os que tinham possibilidades económicas deslocavam-se… sabe Deus com que dificuldades... os outros nāo!!! Não esqueçamos, porém,  os médicos de então,  credores de toda a admiração e respeito que espalhados pelo país iam fazendo milagres com os meios de que dispunham.

O importantíssimo movimento das carreiras médicas -- curiosamente hoje de novo tāo incompreendido-- havia já despontado graças a quem sabia, como Miller Guerra, como a medicina e saúde evoluíam necessariamente numa perspectiva científica.

Então... o que aconteceu?

— A primeira grande machadada foi a gestorocracia com a indigitação de pseudo- gestores que mais não eram que personalidades do partido do poder e a quem convinha retribuir o partidarismo local, desde alfaiates a militares na reforma, a engenheiros técnicos todos provindo de áreas que nada tinham a ver com a saúde. Foi fácil reduzir à gestão de uma qualquer empresa privada os hospitais  do SNS que, com tantas dificuldades, graças aos conhecimentos dos profissionais de saúde, haviam sido postos a funcionar e com custos muito mais contidos do que a seguir viria a acontecer… como não podia deixar de ser. 

Ignorância? Talvez, mas sem dúvida, orientação político-partidária.

— A segunda foi a propositada confusão público/privado… que  se vem arrastando até hoje sempre a favor do privado… naturalmente.

Não se definiram minimamente os limites entre público e privado tal como não se definiu uma política de saúde global para o país.

Propositadamente? 

Estou em crer que sim. Mesmo que toda a evolução ao longo dos últimos anos  tenha sido obra  do acaso - o que obviamente não me convence - os passos subsequentes têm sido mais que suficientes para intuir o "novo  projeto alternativo em curso". 

Não... não foi obra do acaso. Tudo se processou em sintonia e de par com a ideologia dominante.... o neoliberalismo impante escancarava as portas aos grandes grupos, aliás com as barbas a arder no que concernia à saúde e, também, por isso, ávidos de lucros. 

Relembremos aquela jovem inocente aprendiza de feiticeira que, numa de deslumbre, afirmou perante uma câmara de um qualquer canal televisivo, algo como:  

- Ah , não sabe... a seguir ao negócio das armas... o da saúde é o mais lucrativo...!! Estava tudo dito.

Convenhamos: 

 - O problema não está exclusivamente nos que se movem pelo lucro  e estão  linearmente a aplicar toda a sua ideologia e, naturalmente, consequente. 

O problema residiu e reside nos que estando ou possuindo os cordelinhos do poder permitiram, diria mesmo, foram coniventes ou até incentivaram  todo o processo que conduziu, ano após ano, ao  cercear das raízes do SNS sendo que hoje continuam a bater no peito jurando a defesa do mesmo.

Enterraram-no…com cedência aqui, cedência ali, sem perceberem ou não quererem perceber que, golpe após golpe, entregavam o tal negócio da saúde aos grandes grupos económicos… porque era mais fácil ou porque as parcerias público privadas estavam na moda….e que grande moda !!!

Pé ante pé. E.P.E. mais E.P.E., facultando à ADSE e outros sub- sistemas serem sugados pelos hospitais privados que surgiam como cogumelos.

Chega de lágrimas de crocodilo pelo SNS que já há muito secaram.

Vejamos alguns números eventualmente já ultrapassados : 

A rede atual de 110 hospitais privados com atividade em Portugal representa sensivelmente metade das unidades hospitalares do país. A privada emprega mais de 17 mil pessoas e realiza anualmente 6,8 milhões de consultas, 1,7 milhões de atendimentos urgentes e 260 mil cirurgias. Segundo os dados mais recentes do INE, os hospitais privados asseguram cerca de 30% das camas de internamento do país. 

O volume de negócios do sector ronda os 1.850 milhões de euros.

Seria interessante conhecer quanto deste montante provém do ministério da saúde ou, dito de outro modo, desviado do SNS.

 Já é tempo de nos deixarmos de mais passos de prestidigitação. Por uma vez haja coragem política e defina-se o que é medicina pública e medicina privada  e acabe-se com esta promiscuidade tāo subtil e capciosamente urdida. 

Só assim será possível reestruturar um SNS comatoso, sequioso de profissionais competentes, ávidos de boas condições de trabalho que necessariamente têm que estar em sintonia com os seus conhecimentos e capacidades de decisão. E só assim.


*Eurico D. Gomes - médico (ex-diretor clínico do Hospital de Faro)
Artigo publicado no Jornal do Algarve.

24/07/17

Termos relacionados Sociedade

Adicionar novo comentário