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O lastro da retoma económica ainda se chama precariedade

Segundo o último relatório do Observatório sobre Crises e Alternativas, a retoma económica caracteriza-se ainda por um “predomínio da precariedade” nos novos contratos, que acompanha uma tendência para a “degradação da remuneração média dos novos contratos permanentes”.
O lastro da retoma económica ainda se chama precariedade
Foto de precarios.net.

Se é certo que o mercado de trabalho tem vindo a recuperar a um ritmo considerável, esta evolução não tem sido acompanhada por uma melhoria da qualidade do emprego criado, dado que o peso da contratação permanente, na totalidade dos novos contratos assinados desde 2013, continua a ser diminuto e a diferença entre a remuneração dos novos trabalhadores permanentes e a dos trabalhadores precários é cada vez menor. Esta é a principal conclusão do último estudo do Observatório sobre Crises e Alternativas, intitulado “Retoma Económica: o lastro chamado precariedade” – disponível aqui.

O autor do estudo, o economista João Ramos de Almeida, analisou os dados do Fundo de Compensação do Trabalho e do Fundo de Garantia de Compensação do Trabalho (mecanismos que registam, desde Outubro de 2013, os novos contratos), que mostram  que a consolidação da recuperação económica  não  alterou  em  2017  a  distribuição  por  tipo  de  contratos celebrados  depois  de  2013: “o  peso  dos  contratos  permanentes  nos  contratos assinados  desde  2013  continua  a  ser  diminuto  (cerca  34%  dos novos  contratos vigentes em outubro de 2017)”.

Ainda assim, assinala-se que entre Maio (data do anterior estudo do Observatório) e Outubro do ano passado os contratos sem termo aumentaram ligeiramente o seu peso, passando de 33,1% para 33,6%.



O “predomínio da precariedade” nos novos contratos vem, segundo o autor do estudo, acompanhada de uma tendência para a “degradação da remuneração média dos novos contratos permanentes, ao mesmo tempo que se verifica uma subida da remuneração média dos contratos não permanentes, tudo apontando para um ponto de convergência em que o salário mínimo nacional se apresenta como a remuneração de referência”.

Os dados mais recentes são disso exemplo: em janeiro de 2016, 236 euros separavam o salário bruto de um novo trabalhador permanente (889 euros) da remuneração de um trabalhador precário (653 euros). Quase dois anos depois, em setembro de 2017, a diferença é de apenas 60 euros. Isto acontece, segundo o estudo, porque o salário médio mensal dos contratos permanentes registou uma estagnação, enquanto o dos contratos não permanentes teve uma subida continuada.

Fonte: Barómetro das Crises, 05.01.2018 | n.º18.

Além disto, João Ramos de Almeida alerta que esta alta rotatividade de trabalhadores e o predomínio de salários baixos podem estar relacionados com o facto de a retoma económica estar a ocorrer em atividades do sector dos serviços, sobretudo, os ligados ao turismo.

“A economia portuguesa está a assentar a sua criação de valor em atividades que, na maior parte dos casos, têm baixo potencial de crescimento produtivo e que requerem um baixo nível de qualificação ou de estabilidade dos seus quadros de pessoal”, sublinha, acrescentando que “a aposta neste tipo de atividades aumenta um potencial risco de cristalização de um padrão de especialização que retira vantagens do trabalho precário e mal remunerado e que é muito vulnerável a alterações da conjuntura externa”.

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Comentários

A conclusão tirada no texto da notícia não é a que resulta com mais clareza da leitura do gráfico: é a subida nítida do trabalho em contratos não permanentes e não permanentes a tempo parcial que faz a maior parte da tendência de aproximação aos em contrato permanente, dado que a descida destes é muito pequena, e não é claro se não resulta já da passagem a permanentes de contratos não permanentes mais mal pagos. Logo, com as recentes alterações legislativas sobre a precaridade, será é de observar se vai manter-se uma tendência global de subida, dando de barato que os contrato não permanentes a tempo parcial (onde estão coisas como os empregos de Natal, por exemplo), representam uma fatia menor, mas onde a lei da selva ainda impera. Aceito que a direita não goste da geringonça; mas irrita-me que na esquerda só se aponte a parte da análise que, gostemos ou não, permite a mesma leitura... Fica mal, livrem-se disso!

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