Está aqui

O Ártico não voltará a congelar

O facto de que o Ártico é agora uma relíquia do passado, deveria sobressaltar-nos. Porém, é também um aviso de que o nosso destino como indivíduos e como sociedade não está predeterminado. Se o Ártico pôde mudar tão rapidamente, a humanidade deverá fazer o mesmo. Por Eric Holthaus.
O Ártico não voltará a congelar
Recentemente, o fotógrafo Paul Nicklen, da National Geographic, divulgou um vídeo impressionante, mostrando um urso polar faminto, na Ilha Somerset, do Arquipélago Ártico Canadiano.

Na semana passada, num centro de congressos em Nova Orleães, que se tornou num refúgio temporário para milhares de pessoas, durante a passagem do furacão Katrina, um grupo de investigadores científicos especialistas nas questões polares emitiu uma declaração alarmante: o Ártico, tal como nós o conhecemos, não existe mais. A região tem evoluído, definitivamente, em direção a um estado sem gelo, disseram os cientistas, com amplas repercussões nos ecossistemas, na segurança dos Estados e na estabilidade do clima ao nível do planeta. Estavam num lugar ideal para lembrar categoricamente que, se tal continuar, a civilização arrisca a sua existência à custa da biosfera do planeta.

Num comunicado anual sobre a saúde do Ártico[1], intitulado “O Ártico não mostra indícios de voltar a ser a região fiavelmente congelada das últimas décadas”, a Administração Nacional do Oceano e da Atmosfera (NOAA, na sigla original em inglês), que supervisiona toda a investigação oficial dos EUA na região, cunhou um novo termo: “Novo Ártico”[2]. Desde há quase uma década, a região resistia bastante bem, apesar de aquecer quase ao dobro da velocidade do planeta como um todo. No entanto, nos últimos anos experimentou uma mudança abrupta que agora é a que a caracteriza. O Ártico é o nosso vislumbre de uma Terra em evolução, e que se vai transformando em algo radicalmente diferente do que é hoje.

Numa conferencia de imprensa convocada para anunciar a nova avaliação, o administrador da NOAA, Timothy Gallaudet, sublinhou o “enorme impacto” que têm estas alterações em tudo, desde o turismo até à pesca, e nos modelos climáticos de todo o mundo. “O que está a acontecer no Ártico não se limita a esta zona, mas sim a todo o planeta”, disse Gallaudet.

[Ver gráficos em: http://sites.uci.edu/zlabe/arctic-temperatures/]

Numa entrevista à rádio pública nacional (NPR)[3], o investigador científico em biologia marinha Jeremy Mathis, diretor do Programa do Ártico da NOAA, foi ainda mais longe. No que diz respeito ao Ártico, afirmou Mathis, já não existe um estado normal: “O meio ambiente está a mudar com tanta rapidez e em tão pouco tempo que não podemos ter uma ideia de como será este novo estado”. Com base em registros naturais referentes a 1500 anos, compilados a partir de sedimentos lacustres, núcleos de gelo e anéis de árvores como contexto, o relatório da NOAA indica que o Ártico está a mudar a um ritmo que não tem nada a ver com o que aconteceu na região durante milénios[4]. "O ritmo da mudança é sem precedentes nos últimos 1500 anos e provavelmente em períodos ainda mais longos", indicou Mathis. "Não estamos apenas a ver grandes mudanças, mas também a velocidade dessas mudanças, que está a aumentar".

No relatório da NOAA, os cientistas que estudam o Árctico apresentam as suas melhores ideias sobre o que essa mudança poderia significar para o mundo. Os seus augúrios são assustadores. Consideremos, por exemplo, a hipótese do cientista da Universidade do Alasca-Fairbanks Vladimir Romanovsky sobre o permafrost: até ao momento, o ano de 2017 foi o que registou as temperaturas mais altas no permafrost do Alasca, desde que há registos. Se este aquecimento continuar e com o mesmo ritmo, em apenas 10 anos, poderá começar um extenso descongelamento. O impacto desse degelo "será muito, muito sério", diz Romanovsky, e poderá causar a destruição de infra-estruturas locais, como estradas e edifícios, em todo o hemisfério norte, bem como a libertação de gases de efeito estufa adicionais que permanecem capturados no gelo, desde há várias gerações.

A perda de gelo no mar já está a provocar mudanças profundas na própria base da cadeia alimentar da região ártica. Ao incidir mais luz solar nas águas abertas escuras, estas retêm mais energia térmica e as temperaturas aumentam ainda mais. Isso desencadeia o que Mathis, do Programa do Ártico da NOAA, chama de "algo como um efeito de resposta", que inclui o prolongamento da época de crescimento vegetal, o reverdecimento da tundra, a proliferação de incêndios e a aceleração do crescimento do plâncton. Tudo isto envolve ainda uma vasta alteração dos padrões em que os habitantes do Ártico basearam os seus meios de subsistência, durante milénios[5].

Os efeitos também se fazem sentir muito mais além. "Agora estamos bastante convencidos", disse Mathis, de que o aquecimento do Ártico "cria as condições para que comecem a produzir-se mais fenómenos climáticos extremos na América do Norte". Por exemplo, vários estudos independentes, publicados durante este mês[6], detetam uma ligação clara entre o derretimento do gelo marinho do Ártico e o aumento do risco de seca na Califórnia.

A linguagem convincente do relatório levanta a grande questão: quais os passos concretos que a Casa Branca, que nega o valor da evidência científica, dará, como resultado destes novos dados? O administrador em exercício da NOAA, Gallaudet, afirmou que apresentou, pessoalmente, o relatório na Casa Branca, no mês passado, acrescentando que os funcionários da Administração de Trump "estudam-no, reconhecem-no e incluem-no nos seus planos".

O facto de que o Ártico é agora uma relíquia do passado – e a primeira importante parte do planeta que está em contagem decrescente – deveria sobressaltar-nos. É um daqueles factos que quem de nós seguia de perto as mudanças climáticas já sabia que iria acontecer. E o seu advento é devastador na sua totalidade. A perda do velho Ártico está tão próxima como tão longe chegou a humanidade na transformação da Terra em algo fundamentalmente diferente, em relação ao planeta que deu sustento à civilização, ao longo dos últimos 10 mil anos. É uma transição aterradora e que temos de lamentar. Porém, é também um aviso de que o nosso destino como indivíduos e como sociedade não está predeterminado. Se o Ártico pôde mudar tão rapidamente, a humanidade deverá fazer o mesmo.

[Ver mais gráficos no artigo original, em http://grist.org/article/let-it-go-the-arctic-will-never-be-frozen-again/]

 

[6] http://www.sciencemag.org/news/2017/12/vanishing-arctic-ice-could-drive-future-california-droughts


Artigo publicado em Vientosur.info. Tradução de Sofia Roque para o Esquerda.net.


Recentemente, o fotógrafo Paul Nicklen, da National Geographic, divulgou um vídeo impressionante, mostrando um urso polar faminto, na Ilha Somerset, do Arquipélago Ártico Canadiano:

Heart-Wrenching Video: Starving Polar Bear on Iceless Land | National Geographic

Termos relacionados Ambiente

Adicionar novo comentário