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Mulheres Fotógrafas na Palestina II: Tanya Habjouqa

Num tempo em que a paz no Médio Oriente sofre um novo revés, o premiado trabalho de Tanya Habjouqa, Occupied Pleasures, vê renovado o seu sentido de homenagem ao povo palestiniano que, apesar dos 50 anos de ocupação israelita, não se deixou vencer na sua humanidade.
Hayat (à esquerda) ensina yoga às residentes da sua aldeia, Zataara, nos arredores de Bethelehem, na Cisjordânia. Foto de Tanya Habjouqa/ Panos Pictures.
Hayat (à esquerda) ensina yoga às residentes da sua aldeia, Zataara, nos arredores de Bethelehem, na Cisjordânia. Foto de Tanya Habjouqa/ Panos Pictures.

O primeiro ciclo do tema arte&resistência iniciou-se com a divulgação do trabalho fotográfico de Monique Jacques. Como foi anunciado, trata-se de um ciclo onde a fotografia e a Palestina são o pretexto para dar a conhecer cinco mulheres artistas, cuja obra é exemplo de uma conciliação emancipatória: a que reúne o poder da imagem e a experiência de um corpo que resiste num território ocupado.

Fotografando e documentando, o gesto artístico de Tanya Habjouqa realiza-se também na conjugação desses quatro ventos que nos servem de guia e critério na escolha: o da visibilidade, o da denúncia, o da resistência e o da vida.

Tanya Habjouqa nasceu na Jordânia, em 1975. O seu trabalho de fotografia e documentário foca-se em questões sociais, de género e sobre direitos humanos, privilegiando o contexto do Médio Oriente e uma particular sensibilidade e gosto pelas histórias que fogem à abordagem dominante. De uma forma geral, a sua obra reflete o desejo de traçar a imagem sempre diversa de uma humanidade comum. Formada em jornalismo e antropologia, Habjouqa é membro da NOOR (palavra árabe que significa ‘luz’), uma agência de fotografia comprometida com a visibilidade das lutas por justiça-social, e fundadora do Rawiya, o primeiro coletivo de mulheres fotógrafas do Médio Oriente. Neste momento, vive em Jerusalém Oriental, com os seus dois filhos e o seu companheiro, um advogado palestiniano com cidadania israelita.

O seu trabalho fotográfico Occupied Pleasures [Prazeres Ocupados] foi premiado pelo World Press Photo 2014 e o livro, que veio a publicar posteriormente, foi também aclamado pela revista TIME e pela Smithsonian Institution, nos EUA, que lhe atribuíram o título de ‘melhor livro de fotografia de 2015’. 


  • A série de fotografias que compõe a obra Occupied Pleasures está inteiramente disponível para visualização aqui.

As fotografias de Tanya Habjouqa têm sido expostas um pouco por todo o mundo e integram as coleções do Museu de Belas Artes de Boston e do Museu de Arte de Carnegie, nos EUA, e do Instituto do Mundo Árabe, em França.

Prazeres Ocupados

“Occupied Pleasures apresenta um retrato matizado e multidimensional sobre a capacidade humana de encontrar prazer, mesmo quando diante das difíceis circunstâncias da Cisjordânia ocupada, de Gaza e Jerusalém. Occupied Pleasures percorre sentidos passivos e ativos: ser ocupado por Israel e ocupar-se, alegremente e em modo desafiante, com passatempos e pequenos prazeres. Mais de quatro milhões de palestinianos vivem na Cisjordânia, em Gaza e em Jerusalém Oriental, onde a situação política, muitas vezes, se intromete nos momentos mais mundanos. A mobilidade encontra-se circunscrita e, frequentemente, a ameaça de violência paira sobre as cabeças. Este contexto gera os desejos mais fortes pelos mais pequenos prazeres, e também um aguçado sentido de humor sobre as absurdidades que uma ocupação de 47 anos produziu”, lê-se no site de Tanya Habjouqa, na apresentação deste seu trabalho, escrita há três anos.

A estratégia de Habjouqa para denunciar a realidade da Palestina ocupada, na sua mais intensa e totalitária complexidade, não é a mais comum e, se considerada na superfície, poderá até surgir como despeito. Porém, as suas fotografias resistem a uma visão fechada, estigmatizante e injusta, essa que se alimenta da normalização da violência, da guerra ou da morte, e também da banalidade das imagens do irrepresentável. Permitir que os palestinianos e as palestinianas sejam mais do que apenas vítimas ou proponentes de violência, é abrir corajosamente a porta às suas identidades, às suas contradições, às suas justas aspirações, aos seus desejos e à sua humanidade. 

“Permissão para narrar”

Tanya Habjouqa
Foto de Middle East Institute.

“Eu senti mesmo que precisava de encontrar outra maneira de contar uma história, não apenas para que fizesse sentido para mim, mas para lhe dar sentido, e também para poder contá-la aos meus filhos, uma vez que esta é também a sua casa”, explicou a fotógrafa, numa entrevista ao The New York Times, em janeiro de 2014. 

Numa outra entrevista, publicada em 2016, no The Arts Desk, Tanya Habjouqa afirma que “ao ter casado” com aquele conflito e tendo tido ali os seus filhos, essa condição conferiu-lhe uma “permissão para narrar”, tomando para si a expressão do autor palestiniano Edward Said. Sente que pode e deve falar diretamente e empenhar-se num trabalho de documentário social mais aberto, mostrando o que é a vida na Cisjordânia ocupada por Israel, ou na Faixa de Gaza controlada pelo Hamas.

Tudo começou numa entrevista que realizou, em 2009, na qual ouviu a história de um noivo palestiniano que se apaixonou pela sua noiva jordana, através do Skype. Este acabou por conseguir que ela chegasse, já vestida de noiva, pelos túneis que ligam ao Egipto. No momento de a receber, apesar da situação (o contexto subterrâneo, a areia que caía nos cabelos e as luzes trémulas), correu para ela, abraçou-a e beijou-a arrebatadoramente. Como numa desencantada cena de “Bollywood”, contou ele, acrescentado depois: "Não importa o que esta ocupação nos faz ou nos leva, iremos sempre encontrar uma forma de viver e de amar, talvez de rir. Encontraremos sempre uma forma de manter a nossa dignidade e não apenas de sobreviver”.


Por Sofia Roque.


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