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Mulheres Fotógrafas na Palestina V: Raeda Saadeh

Os contos de fada evocados em True Tales, Fairy Tales, reenquadram a narrativa dos habitantes e dos territórios da Palestina histórica ocupada em 1948, por Israel. Numa inspiradora ironia que confunde realidade e ficção, é afinal a arte que denuncia a verdadeira história.
Penelope, fotografia de Raeda Saadeh (2010).
Penelope, fotografia de Raeda Saadeh (2010).

Neste ciclo sobre Mulheres Fotógrafas na Palestina, chegou o momento de fechar o gesto – sempre inacabado – de dar a conhecer quem conjuga arte e resistência, neste caso, privilegiando o dispositivo artístico da fotografia e o especial contexto da causa palestiniana.

Começámos com Monique Jacques, depois prosseguimos com Tanya Habjouqa, Samar Hazboun e Nidaa Badwan. Agora, com a fotógrafa e performer palestiniana Raeda Saadeh, assumimos o exemplo mais estilizado do que chamámos “conciliação emancipatória”, a da particular conjunção do poder da imagem com a experiência de um corpo que resiste num território ocupado.

Raeda Saadeh nasceu em Um El-Fahem, em 1977. No ano 2000, foi a primeira a receber o prémio de Melhor Jovem Artista do Ano, atribuído pela Fundação  A.M. Qattan (Londres/ Reino Unido, Ramallah/ Palestina). O sujeito “mulher” é um tema recorrente nas suas fotografias, instalações artísticas de vídeo-arte ou performances, nas quais se representa a si mesma também nessa condição particular de quem vive num território ocupado. Trata-se, afinal, de uma determinação imprescindível, mesmo que não absoluta, no todo da sua identidade. Essa ocupação ou força "ocupante" realiza-se a partir das condições políticas que moldam o seu meio ambiente, provocando um impacto significativo na persistente negação da qualidade pacífica do seu mundo (ler mais em Sharjah Art Foundation, em particular, sobre a sua instalação Vacuume, 2007).


  • Com as imagens e os contos de fada evocados em True Tales, Fairy Tales (2012), Raeda Saadeh reenquadra a narrativa dos habitantes e dos territórios da Palestina histórica ocupada em 1948, por Israel. Numa inspiradora ironia que confunde realidade e ficção, é afinal a arte que denuncia a verdadeira história.

Para uma leitura mais luminosa e aprofundada das peculiares fotografias de Raeda Saadeh, a palavra cabe agora à luso-palestiniana Shahd Wadi. O seu trabalho de investigação permite-nos generosamente aceder a um lugar de clarividência e de proximidade com a História daqueles territórios e com as histórias daquelas imagens. O genuíno sentimento de injustiça que em nós desperta surge com a força de um facto. Uma tal empatia não se retribui com uma dádiva, nem como uma dívida, antes com solidariedade e responsabilidade coletiva.

Raeda Saadeh: a resistência que resiste[1]

Raeda Saadeh nasceu em 1977 em Um Al-Fahem na Palestina histórica ocupada em 1948, que se encontra agora dentro da fronteira do estado israelita. Raeda Saadeh tem nacionalidade israelita, como uma pequena parte da comunidade palestiniana que conseguiu ficar na Palestina histórica quando a maioria do povo palestiniano foi expulso durante a Nakba. A estes palestinianos que ficaram na Palestina histórica foi concedida a cidadania israelita, embora sejam tratados como cidadãos de segunda classe; os palestinianos que vivem dentro da fronteira de 1948 são rotulados por Israel como “grupo de minoria étnica”, o que faz destas pessoas “exiladas no seu país”.

Raeda Saadeh
Foto de Médiathèque des Rencontres d'Arles.

O trabalho de Saadeh é centrado na fotografia, instalações e performance. Estudou em Bezalel Academy of Arts and Design, em Jerusalém, e um ano na School of Visual Arts, em Nova Iorque. Trabalha e vive em Jerusalém.

True Tales, Fairy Tales

Raeda Saadeh procura não limitar o seu trabalho à história da sua vida: “Tento falar da política na vida das mulheres, procuro criar obras mais universalistas; por exemplo, quando uma mulher portuguesa vir o meu trabalho, quero que sinta que a minha arte fala por si.” (entrevista por Skype, 2 de Março de 2013). Todavia, Saadeh afirma que a sua vida aparece no seu trabalho quase obrigatoriamente:

“A Palestina é a nossa causa, é algo quotidiano que vivemos e respiramos, mesmo se eu não quisesse colocar a nossa situação política no meu trabalho, a vida diária obrigava-me. Passar num checkpoint três vezes ao dia, ver a opressão e a perseguição todos os dias, obrigam-me a falar de política no meu trabalho. (…) Poderia ter nascido ou vivido num outro país, e ter trabalhado sobre outros assuntos, mas falo no meu trabalho sobre as coisas que estão à minha volta, muitas das minhas obras se sobrepõem, voltam a falar dos mesmos assuntos”. (entrevista por Skype, 2 de Março de 2013)

O próprio título do livro sobre a artista organizado por Rose Issa – Raeda Saadeh. Reframing Palestine (2012) – explicita a impossibilidade de falar da artista sem mencionar o seu background e a sua vida enquanto palestiniana que vive nos territórios ocupados em 1948. Saadeh conta a história da Palestina encaixando-a numa nova moldura, num processo de reinterpretação e “reframing”; o conjunto das obras da Saadeh é uma reescrita da narrativa dos habitantes dos territórios ocupados em 1948, como a própria artista defende: “A maior parte das minhas obras mostra os territórios de 1948, não só porque sou de 1948, mas também porque a minha causa começou em 1948.” (entrevista por Skype, 2 de Março de 2013).

Na série de fotografias True Tales, Fairy Tales (exposição a solo de Saadeh, em Londres, Rose Issa Projects, 2012), a artista faz uma “tradução” dos contos de fadas, enquanto forma de reescrita que fala da sua própria condição como palestiniana que vive nos territórios ocupados em 1948.

A foto Little Red Riding Hood, foi tirada no centro económico da cidade de Telavive: Saadeh leva no cesto o pão para o (outro) lado palestiniano que, ao contrário deste centro de poder económico, nem pão tem.

A foto Cinderela, foi tirada na cidade ocupada de Jafa, à noite, exatamente à mesma hora que a população palestiniana de Jafa tinha sido expulsa em 1948. As casas foram espoliadas às famílias palestinianas ricas e as autoridades israelitas da ocupação transformaram-nas em “sítios de atração turística”, como restaurantes, museus e galerias de arte. A fotografia de Saadeh apresenta a existência de uma outra narrativa, silenciada pela narrativa sionista, que tenta esconder a história do lugar que foi palestiniano.

Rapunzel, foi tirada em Beit Jibreel, uma das vilas destruídas em 1948. Saadeh tirou a foto ao pé da única porta antiga que sobreviveu à destruição. O cabelo da Rapunzel palestiniana entra pela porta dentro como se fosse uma serpente, que parece estar a fazer o caminho até aos colonatos israelitas que fazem parte da paisagem.

Penelope foi tirada em Beit Hanania, onde muitas casas foram destruídas pela ocupação israelita e onde os palestinianos estão proibidos de construir mais casas. A Penelope palestiniana está sentada com um novelo gigante, a tricotar por cima das ruínas de uma casa, como quem tece e re-tece uma casa nova, sem perder a paciência. Esta característica, aproxima a fotografia Penelope do mito antigo: não importa o tempo que levar, Penélope tece uma casa e a sua resistência tem a forma de um novelo gigante. A foto é justamente uma representação perfeita da palavra palestiniana sumud, uma palavra muito utilizada para descrever um certo tipo da resistência especificamente palestiniana. Habitualmente, sumud é traduzido como “firmeza” e “constância”; por outras palavras, sumud é a estabilidade da resistência, é persistência – é “o-ficar”, a “resistência na resistência”, a resistência que resiste. A Penélope de Raeda Saadeh só pode ser a própria Raeda Saadeh, ou uma mulher palestiniana a exercer o seu sumud.

Na série True Tales, Fairy Tales, Saadeh conta a vida palestiniana através dos contos de fadas, captando a nossa atenção entre a fantasia e a realidade, compondo e traduzindo a sua realidade, imitando cenários conhecidos dos contos e dos mitos tradicionais e combinando-os com outros. A própria artista afirma: “O título da exposição True Tales, Fairy Tales, mostra que a Cinderela, a Menina do Capuchinho Vermelho e Rapunzel, as protagonistas dos contos de fadas, falam na sua própria voz sobre a nossa situação política (na Palestina).” (entrevista por Skype, 2 de Março de 2013)

Saadeh produz justamente uma “reescrita” palestiniana e feminista dos contos de fadas e dos mitos. No entanto, não se trata apenas de um ato de criação de uma utopia para um futuro diferente, mas também de um ato de denúncia dos crimes da ocupação israelita. Uma denúncia exercida pela reescrita visual dos contos de fadas. Estes contos são conhecidos no mundo árabe e ocidental. Deste modo, Saadeh alcança um público muito mais amplo nesta sua denúncia e na criação de um mundo “diferente”, apresentando o “mundo real” de uma mulher palestiniana resistente.

As fotografias de Saadeh mostram que a narrativa sionista é ficcional. Os contos de fadas de Saadeh são mais “realistas” – e verdadeiros – do que as histórias que a ocupação fabrica sobre o lugar. Para Raeda Saadeh a vida é arte e a arte é vida, a linha que as separa é (quase) invisível. O “era uma vez” é uma das maneiras de dizer “em 1948”.


[1] Este texto é parte e adaptação da investigação publicada em WADI, Shahd (2017) Corpos na trouxa: histórias-artísticas-de-vida de mulheres palestinianas no exílio, Coimbra: Almedina.

 

Por Sofia Roque e Shahd Wadi.

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