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Mulheres Fotógrafas na Palestina IV: Nidaa Badwan

Quando o isolamento se torna o ponto de fuga para um horizonte maior e mais luminoso, contrariando todos os muros lá de fora, a contradição inscrita nessa experiência da arte revela o ridículo de todas as perseguições e restrições. Este é um dos sentidos dos seus “100 dias de solidão”.
Foto de Nidaa Badwan, da série “100 Days of Solitude”.
Foto de Nidaa Badwan, da série “100 Days of Solitude”.

Continuamos esta visita guiada pelo trabalho artístico de quem documenta, entre a realidade e a ficção, os atos de resistência que são também memória-corpo de uma Palestina Ocupada, na sua sugestão direta ou mediada. Depois de Monique Jacques, Tanya Habjouqa e Samar Hazboun, a fotógrafa palestiniana Nidaa Badwan permite-nos aceder a esse gesto político, mas acentuando-o na sua vertente estética e esbatendo as fronteiras entre o artifício e o contexto do real.

Se, num primeiro momento, as suas fotografias são belas, depois, tornam-se poderosamente belas. Porventura, tudo resulta da força de uma contradição produtiva inscrita na experiência artística, neste caso, da fotografia. A luz e a cor são metáforas estridentes de autodeterminação, bem como do fundamental direito à (auto) expressão. Badwan parece querer dizer-nos, desesperadamente, que os muros, sejam eles quais forem, físicos ou simbólicos, definem sempre um território de dominação, seja externa ou internamente.

Nidaa Badwan nasceu em 1987, em Abu Dhabi. É conhecida pelos seus protestos pacíficos e artísticos, nos quais tem denunciado a difícil condição do povo palestiniano, nestes 50 anos de ocupação israelita.


  • A notoriedade internacional de Nidaa Badwan é devida sobretudo ao seu projeto 100 Days of Solitude [100 Dias de Solidão], uma série de 14 auto-retratos fotográficos, realizados quando exilada no seu próprio quarto, em Gaza.

Nesta série de fotografias, a artista é representada na experiência de um exílio a que se submeteu voluntariamente, durante 20 meses. No seu isolamento, que teve início a 13 de novembro de 2013, Badwan condena, simultaneamente, as restrições a vários níveis impostas pelo governo de Israel, na Faixa de Gaza, e também o domínio conservador e abusivo do Hamas, de quem recebeu sérias ameaças, apenas por ser uma mulher-artista em desconformidade com a norma, seja através do vestuário ou da sua “profissão”.

A “catástrofe” de ser mulher e artista, como muitas vezes sublinha nas entrevistas, tem sido uma condição de dupla “penalização”, pesando sobre a sua singularidade e o seu desejo de liberdade. Porém, na sua arte, essa catástrofe torna-se expressão criativa de resistência e de poder.

Depois de viver muitos anos na Palestina, Nidaa Badwan mudou-se para a República de San Marino, onde trabalhou também como professora, na Universidade de Design. Atualmente, a artista reside em Itália. As suas exposições têm dado a volta ao mundo, visitando cidades em vários países, como Jerusalém, Itália, San Marino, Dinamarca, Alemanha, Estado Unidos da América, Emirados Árabes Unidos, Espanha, entre outros.

Os seus mais de “100 dias de solidão”

No seu quarto, pôde isolar-se da religiosidade restritiva de Gaza e alienar-se da guerra e do controlo militar israelita. Por mais de um ano, Nidaa Badwan habitou apenas aquele lugar. Recolhida entre as paredes daquele espaço interior, criou o seu próprio mundo e um conjunto impressionante de auto-retratos, que tanto comunicam com a história da arte, como sugerem uma vanguarda ainda sem nome.

"Eu esperava pela luz", contou Badwan, na entrevista ao The New York Times, em fevereiro de 2015, explicando que o seu uso da luz natural implicou, em alguns retratos, uma espera de semanas, até conseguir concretizá-los numa apuradíssima forma final. De facto, as suas fotografias parecem pinturas, embora resultem do jogo artificial entre elementos usados no seu estado mais puro: a luz e a cor. "Tudo é belo, mas apenas no meu quarto, não em Gaza. Estou pronta para morrer neste quarto, a menos que eu encontre um lugar melhor”, afirmou a artista, revelando um grande desalento, na mesma entrevista.

Nidaa Badwan

Tudo começou em quando estava na montagem de uma exposição e foi abordada por milícias do Hamas, que acabaram por obrigá-la a assinar um documento, no qual se comprometia a andar vestida segundo o preceito religioso e fundamentalista, e nunca sair à rua sem a companhia do seu pai ou irmão. No dia seguinte, Nidaa Badwan exilou-se no seu próprio quarto.

Nos primeiros dois meses, pensou no suicídio, lutou para conseguir saborear a sopa que a irmã lhe trazia, tomou comprimidos para controlar a ansiedade, dormiu no chão e chorou. Entretanto, Badwan pegou na sua câmara fotográfica Canon EOS 600D, e começou a seguir a luz. “Devagar, muito devagarinho, comecei a gostar do isolamento”, explicou ao NYT. “Não era uma doença. Curou-me”.

No seu site, pode ler-se que “através deste exílio voluntário, procurou denunciar a condição de isolamento e a falta de liberdade que caraterizam o quotidiano do povo da Palestina, especialmente, o das mulheres”. Neste contexto, o de um “território fortemente militarizado”, explica, “exercer os direitos mais básicos é um verdadeiro desafio, que é renovado todos os dias”.

A solidão daquele exílio trouxe-lhe uma experiência que só é compreensível se assumirmos o seu paradoxo: aquele pequeno quarto, porque isolado e impermeável, era o único espaço no qual se sentia livre e podia ser ela própria, e também uma mulher e uma artista. Quando o isolamento se torna o ponto de fuga para um horizonte maior e mais luminoso, contrariando todos os muros lá de fora, a contradição inscrita nessa experiência da arte revela o ridículo de todas as perseguições e restrições. Este é um dos sentidos dos seus “100 dias de solidão”.

É certo que Nidaa Badwan parece propor que só na contração do possível poderá surgir a criação e a novidade. Contudo, julgo que se trata do exato oposto: o seu quarto fecha-se sobre si mesma, e ela é humana como todos nós, talvez aí resida um infinito de liberdade, de esperança.

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