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Mulheres Fotógrafas na Palestina III: Samar Hazboun

Na série de fotografias intitulada Beyond Checkpoints, de Samar Hazboun, os rostos e os objetos contam histórias trágicas sobre o que é ser mulher e querer ser mãe, num território ocupado e militarizado. Muitas vezes, tantas vezes, a vida é mesmo impossível. Por Sofia Roque.
“Amnah. Um conjunto de roupa de um bebé que nasceu morto, o único vestígio que a mãe tem do seu trágico parto, que teve lugar num checkpoint.” Foto de  Samar Hazboun.
“Amnah. Um conjunto de roupa de um bebé que nasceu morto, o único vestígio que a mãe tem do seu trágico parto, que teve lugar num checkpoint.” Foto de Samar Hazboun.

Depois de Monique Jacques e Tanya Habjouqa, prosseguimos no gesto em aberto de dar a conhecer quem conjuga arte e resistência, agora com a fotógrafa palestiniana Samar Hazboun.

Nasceu em Jerusalém e cresceu na Cisjordânia. Hazboun procura a expressão da intervenção política através da arte, centrando o seu trabalho artístico nas questões sobre os direitos das mulheres, no contexto do Médio Oriente. Porém, o lastro de sentido das suas fotografias estende-se numa abordagem que persiste numa genuína aproximação a quem habita, à força, as margens da sociedade.

Com mais de 30 exposições individuais e coletivas, ao redor do mundo e com diferentes ecos na imprensa, Samar Hazboun tem procurado dar visibilidade a histórias que desesperadamente necessitam de ser contadas e ouvidas. A sua relação pessoal com a causa da Palestina está presente na maioria dos seus trabalhos, como esse corpo do qual não nos podemos separar, sob pena de perdermos a vital ligação com mundo.

Atualmente, Hazboun trabalha como editora de fotografia para a Agence France Presse (AFP), para o Médio Oriente e Norte de África, e integra o conjunto de artistas do Arab Documentary Photography Program [Programa de Fotografia e documentário Árabe].


  •  Na série de fotografias intitulada Beyond Checkpoints [Além dos postos de controlo], os rostos e os objetos contam histórias trágicas sobre o que é ser mulher e querer ser mãe, num território ocupado e militarizado. Muitas vezes, tantas vezes, a vida é mesmo impossível.

No portfólio de Samar Hazboun encontramos ainda outros trabalhos fotográficos politicamente relevantes e comprometidos, que merecem um olhar atento e desassombrado, como a série sobre a realidade da violência de género ou a que documenta o estatuto e a diversidade das mulheres palestinianas, ou ainda a série sobre a última geração que nasceu antes da finalização do muro mandado construir por Israel.

É preciso autorização para nascer?

O contexto cruzado no espaço e o tempo, e que é o suporte do trabalho fotográfico Beyond Checkpoints, é indicado na sua apresentação: “Mais de 67 mulheres palestinianas foram forçadas a dar à luz em checkpoints [postos de controlo], entre 2000 e 2005. Os encerramentos abrangentes, aquando da Segunda Intifada (2001), resultaram em completas proibições à mobilidade palestiniana, para Israel e no território entre a Cisjordânia e a Faixa de Gaza. Estas restrições permanecem até hoje e Israel mantém esta política, alegando que esta é necessária para proteger os seus cidadãos”.

Samar Hazboun
Foto de arabdocphotography.org.

Este projeto, explica Samar Hazboun, “explora uma série de partos que tiveram lugar em checkpoints, a par de retratos com significativos pertences dos sujeitos envolvidos”. Seja um certificado de morte prematura ou roupas preparadas para a criança que nunca chegou a nascer, “estes elementos foram testemunhas de um evento que, de outra forma, permaneceria indocumentado”, afirma Hazboun.

As fotografias e as suas legendas são como um só objeto. O propósito da fotógrafa foi “introduzir narrativas pessoais” e conduzir-nos através de imagens que não são comuns, convidando-nos também a conhecer as histórias que envolvem direta e indiretamente as várias personagens, entre presenças e ausências. Conjugando “uma intersecção de memória, perda e luto”, estas fotografias revelam a “triste verdade” de que tudo o que resta daqueles eventos trágicos são meros objetos que, afinal, prestam testemunho a acontecimentos que vão sendo apagados lentamente, na sua e na nossa história.

Escolhemos quatro das dezoito fotografias que compõem a série de Beyond Checkpoints, traduzindo aqui as suas legendas. Porque sem memória não haverá justiça, nem futuro.

Laith. Quando a mãe de Laith foi levada apressadamente para o hospital, para o dar à luz, pelo seu marido e tia, o carro foi mandado parar num checkpoint que bloqueava a estrada. Os carros estavam impedidos de passar e a única maneira era fazê-lo a pé, porém, devido às intensas dores, Umm Laith não conseguia andar e tiveram então de conduzi-la por outra estrada. Durante o caminho, a sua mãe não podia suportar mais a dor e entrou em trabalho de parto, no carro. Nessa altura, tinham chegado até outro checkpoint e aguardavam na fila para poderem passar. Laith nasceu no interior do carro, com a ajuda da tia. O cordão umbilical estava enrolado no seu pescoço e foi a tia que o retirou cuidadosamente. Trinta minutos depois, chegou uma equipa médica que cortou o cordão umbilical e cuida da criança e da mãe. Ainda hoje, Laith sofre de problemas respiratórios. Fotografia e legenda originais aqui.

Shuhada street checkpoint. O checkpoint da Rua Al-Shuhada. Pelo menos três nascimentos foram registados neste checkpoint. Fotografia e legenda originais aqui.

Amnah. Amnah tinha 19 anos quando foi forçada a realizar o parto do seu primeiro filho, num checkpoint militarizado. Às 6h da manhã, acordou com dores de parto e deixou a sua casa para ir para o hospital, na companhia da sua mãe. Quando chegaram ao checkpoint, elas tiveram de esperar cinco horas, detidas por soldados israelitas. A sua mãe tentou explicar a situação da sua filha, dado que esta sangrava abundantemente, mas eles recusaram-se a deixá-la passar. Quando elas puderam seguir por outra estrada, para chegar ao hospital, o bebé acabou por morrer dentro da sua barriga. Fotografia e legenda originais aqui.

Death certificate. As certidões de morte são pedidas pelas famílias como prova da morte da criança. A maioria das certidões acabam por ficar desgastadas e despedaçadas, tal como as esperanças destas mulheres de alguma vez conseguirem fazer justiça. Fotografia e legenda originais aqui.


Por Sofia Roque.


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