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Mulheres de Abril: Testemunho de Domicília Costa

Em Fevereiro de 1953, dias após ter completado 7 anos, e meses depois de ter entrado para a escola, o meu pai despediu-se da fábrica onde trabalhava desde os 17 anos e fomos morar para Lisboa. Iniciávamos a preparação para a clandestinidade. Por Domicília Costa.
Domicília Costa (segunda a contar da esquerda na primeira fila) numa aula para estrangeiros da Alliance Francaise. Paris, 1970.

Este é o vigésimo testemunho de uma série de mais de 20 a ser publicada durante os meses de abril e maio pelo Esquerda.net. São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. Coordenação de Mariana Carneiro.


“Mergulhar” na clandestinidade

Nasci a 25 de Janeiro de 1946, na vila de Alhandra, freguesia de Vila Franca de Xira.

Alhandra é uma vila pequena, muito industrializada naquela época. Duas fábricas de cimento: Cimento Tejo (hoje CIMPOR) e Cimianto; de têxteis, lanifícios e telhais. Terra também de pescadores da beira-rio. Desde há décadas tornou-se numa vila-dormitório, pelo desaparecimento das grandes empresas (exceptuando a Cimpor) e pela sua proximidade com Lisboa.

Os meus pais trabalhavam, ambos, na “Fábrica da Figueira”. O meu pai como carpinteiro, e a minha mãe como operária de lanifícios.

Quando nasci o meu pai já deveria ser do PCP. Aquando das greves de 44, recém-chegado de Cabo Verde onde fizera dois anos de serviço militar, fugiu com outros pelos campos para escapar à GNR, e não acabar na praça de touros de Vila Franca, onde foram “encurralados” os demais grevistas, antes de serem levados para o Governo Civil ou o Aljube.

Era eu bebé de meses e já se realizavam no sótão reuniões (de “célula”) às escondidas do casal com quem partilhávamos a casa.

A partir dos meus 4 anos, passámos a viver sozinhos e a casa a ser frequentada por funcionários clandestinos, que dizíamos serem primos. Os meus pais ensinavam-me que eles não eram primos “de verdade” e não deveria falar deles aos nossos familiares.

Domicília Costa na creche da fábrica da Figueira.

Iniciávamos a preparação para a clandestinidade

Em Fevereiro de 1953, dias após ter completado 7 anos, e meses depois de ter entrado para a escola, o meu pai despediu-se da fábrica onde trabalhava desde os 17 anos e fomos morar para Lisboa. Iniciávamos a preparação para a clandestinidade. Os meus pais tiveram de cortar todo e qualquer contacto com os familiares.

Morávamos na Buraca quando encontrei a minha mãe a chorar. Perguntando-lhe o porquê, ela disse-me que lhe chegara a notícia da morte da avó que a criara desde os três anos, altura em que a mãe lhe morrera de parto. A minha mãe não pôde ir ao funeral da avó.

Em Maio do ano seguinte fomos para o Porto, “mergulhando” então na clandestinidade. Fui obrigada a abandonar definitivamente a escola.

Passaram a realizar-se em nossa casa reuniões entre membros do C.C.

Em Matosinhos acolhemos simultaneamente dois funcionários que se tinham evadido. Claro que os vizinhos nunca souberam da sua presença em nossa casa.

Desde que fôramos para o Porto que vivia connosco uma outra funcionária com uma criança de 2 anos. Aos domingos o meu pai levava-nos até ao parque infantil. Um dia a menina sofreu um pequeno acidente, felizmente sem consequências, mas foi o bastante para que não voltássemos ao parque infantil. Reclamámos, ambas, mas foi-nos dito que não podíamos ir por causa de “uns homens maus”. Como os meus pais nunca me tinham falado de homens “maus”, achei estranho, mas não insisti porque a experiência dos meus poucos anos já me ensinara que não valeria a pena…

Domicília Costa no Montijo, 1955.

No início de 1955 viemos viver para o Montijo e o meu pai aprendeu a sua nova “profissão”: tipógrafo. A minha mãe, além da lida da casa, ajudava-o no que podia.

Em meados do mesmo ano mudámos para Vila Nova de Caparica, onde ficamos até início de 1957. Naturalmente que os vizinhos estranhavam que eu não frequentasse a escola. Os meus pais “explicavam” que era perigoso percorrer a distância por uma estrada sem passeios e muito movimentada por carros, por vezes em excesso de velocidade (já então!). Os vizinhos insistiam que havia outras crianças a fazerem o mesmo percurso, mas os meus pais mostravam-se irredutíveis, e os vizinhos “cansaram-se”… Perto do final do ano lectivo de 56 “desapareci” (dentro de casa) dos olhares dos vizinhos, dizendo-se que estava em casa de uma professora em Lisboa que me ia preparar para o exame da 4.ª classe. Eu só podia aparecer “à luz do dia” aos domingos. Tal como o meu pai, “fechado” na tipografia toda a semana, durante todo o ano, para que os vizinhos pensassem que ele trabalhava fora.

Numa noite de verão, em conversa, o senhorio (morador em Alfama) pergunta ao meu pai, que dissera (e era verdade!) ter nascido em Alfama, se não conhecia um homem que estava preso por ter “ideias avançadas”. O meu pai respondeu que não conhecia porque saíra de Alfama ainda criança (o que também era verdade). Já em casa, perguntei ao meu pai o que era ter “ideias avançadas” e ele explicou-me o significado.

“Agentes da GNR, vós sois filhos do Povo!”

No início de 1957 fomos morar para a Cova da Piedade. Foi aí que comecei a prestar maior ajuda na tipografia ao trabalho dos meus pais, compondo e imprimindo. E comecei a ler e, de seguida, a colaborar no jornal “A Voz das Camaradas”, um jornal destinado às mulheres clandestinas e escrito por elas.

Entretanto demos refúgio, separadamente, a dois camaradas que se tinham evadido. Um deles era o das “ideias avançadas”!…

Foi nesta casa que da janela assisti a uma cena que me marcou profundamente: uma mulher a correr rua acima com uma canastra à cabeça, perseguida por um GNR. A canastra caiu e as laranjas espalharam-se. Cansado de a perseguir, o agente pisou raivosamente cada laranja! Tive ganas de lhe gritar o que várias vezes já compuséramos e imprimíramos: “Agentes da GNR, vós sois filhos do Povo!”

De outra vez, no verão, os meus pais e eu saímos à noite para “dar uma volta” e os vizinhos verem-nos sair a passear. Fomos ter junto ao Mercado da vila, onde alguns homens cantavam. Era a primeira vez que ouvia “ao vivo” cantares alentejanos e estava deslumbrada! Vieram uns agentes da GNR e mandaram-nos calar e “dispersar”!

Passei a ser considerada membro e funcionária do PCP

Em Maio de 1959 fomos morar para perto do seminário de Almada. Foi nessa casa que passei a ser considerada membro e funcionária do PCP, ganhando o mesmo salário e pagando a mesma cota dos funcionários adultos. Poucos meses lá vivemos porque a minha mãe se apercebeu de que as ruas próximas estavam a ser vigiadas por um indivíduo à paisana, que se deslocava de carro de uma rua para a outra.

Ainda em meados do mesmo ano viemos para Lisboa. Deixámos a tipografia. Connosco veio viver outra funcionária. Com regularidade, voltaram a reunir em nossa casa membros do C.C. Para ajudar a camarada aprendi a escrever à máquina. E, porque se lhe pediu, ela ensinou-me um pouco de francês.

A 3 de Janeiro de 1960, 10 camaradas fugiram de Peniche. Um deles veio, posteriormente, viver connosco cerca de 3 meses. E as reuniões do C.C. continuaram até que a minha mãe descobriu que um vizinho do rés-do-chão era agente da PIDE!

No final de 1960 a direcção decide que voltamos para o Norte. O meu pai vai para o Porto procurar casa enquanto eu e a minha mãe aguardamos num quarto em Campo de Ourique. Conversando com a dona da casa ficamos a saber que o quarto fora anteriormente ocupado por um agente da PIDE!

Saí da companhia dos meus pais para “formar uma nova instalação”

No início de 1961 voltámos ao Porto. Continuei a escrever à máquina e a fazer outros trabalhos de “assessoria” aos sucessivos camaradas. Aos 17 anos a direcção do PCP propõe que procure um trabalho “fora de casa”, para que “sinta na carne o mundo do trabalho e a exploração patronal”. Trabalhei até que, aos 20 anos, me propõe sair da companhia dos meus pais para “formar uma nova instalação”, ou seja, ir viver com outro clandestino para uma casa fingindo que éramos marido e mulher, para dar a esse camarada as condições de que carecia para desenvolver o chamado “trabalho de organização”.

Fomos viver para a Baixa da Banheira. Ele fez um copiógrafo em madeira para o “Boletim dos Trabalhadores da CUF”, cuja célula de empresa creio que controlava. Eu, para além do trabalho habitual de uma “dona de casa”, ajudava-o.

Porque esse funcionário já estivera preso e se evadira, era conhecido da polícia. E a região que abrangia praticamente toda a “margem sul” era activamente vigiada pela PIDE, com a colaboração das restantes autoridades e dos “bufos”, na repressão às lutas operárias.

Ao fim de alguns meses, o funcionário sentiu-se “encurralado” e tivemos de mudar rapidamente de casa.

Fomos para Paio Pires, de onde tivemos de sair, de novo ao fim de poucos meses, pelos mesmos motivos.

O funcionário recebeu indicação para procurar casa noutra região. Entretanto, fiquei aguardando num quarto alugado na Avenida Duque de Loulé, junto ao Marquês.

As refeições eram-me fornecidas pela dona da casa, uma senhora “de posição”, com quem me sentava à mesa, comendo e conversando. E foi numa das nossas conversas que me disse que o “cavalheiro” que anteriormente ocupara o meu quarto era um… agente da PIDE!

Em 1970 despedi-me dos meus pais e fui para França

Domicília Costa a trabalhar numa cozinha. Exílio em França, início dos anos 70.

Em 1970 despedi-me dos meus pais, com quem trocava regularmente correspondência desde que deixara a companhia deles, e fui para França, solidarizando-me com o funcionário que, simultaneamente, se demitira e fora expulso.

Em Paris, o antigo funcionário e outros exilados em França ajudaram-me no imediato a procurar trabalho e alojamento. E também a assegurar a continuidade da troca de correspondência com os meus pais.

O trabalho ocupava-me das 6:30 da manhã às 14:30, mais ou menos. Sobrava-me tempo para descansar, estudar e ir às aulas na Aliança Francesa, ao final da tarde.

Fui tendo diversos empregos, até estabilizar numa pequena empresa, onde permaneci até Janeiro de 1975, quando regressei definitivamente a Portugal.

Entretanto casara-me no final de 1971 com um português, exilado porque fora preso e expulso da função pública por “actividades subversivas”.

Em Julho de 1973 nasceu o nosso primeiro filho. Só então voltei a estar com os meus pais, de passagem por Paris, “em férias” para a União Soviética, e na volta deles a Portugal, sempre como clandestinos.

Algo de “muito grave” se estaria a passar em Lisboa

Na manhã de 25 de Abril de 1974, como habitualmente, levantei-me pelas 5:30 da manhã, para tratar do nosso filho e preparar-me para o levar à creche e irmos trabalhar. Quando ligámos a rádio para ouvimos as notícias, soubemos que algo de “muito grave” se estaria a passar em Lisboa.

Nada se sabia em concreto: apenas que havia tropas nas ruas, um “estado de sítio” que não se sabia quem o provocara, ao que nos levaria. Da “extrema-direita” ou da “esquerda”? Não era claro, só esperança, misturada de angústia. Estariam os meus pais em segurança? E os “camaradas” presos, sujeitos a sofrerem as represálias? Essa incerteza ainda durou alguns dias. Depois foi a euforia! O meu marido queria vir imediatamente para Portugal! Eu também!… mas o dinheiro?

Em Janeiro de 1975 o meu marido foi readmitido na função pública, o que possibilitou o nosso regresso.

Assim hei-de continuar enquanto a saúde mo permitir!

O nosso filho tinha então ano e meio. Eu precisava de trabalhar, mas não tinha a 4.ª classe (em França consegui sempre, e sem dificuldade, tornear o problema) e as creches eram quase inexistentes. Fiquei em casa, desempregada.

Fiz o exame e de seguida matriculei-me no ciclo. Depois, fiz o actual 7.º ano. Entretanto, pelas férias da Páscoa desse ano (1977) nasceu o nosso segundo filho. Com duas crianças tão pequenas e a minha mãe em Lisboa, sem poder ajudar-me, parei de estudar.

Há medida que os anos foram passando, voltei a envolver-me gradualmente na política.

Domicília Costa, 2017.

Entre muitas outras coisas, participei nas três marchas que se fizeram até hoje do Porto para Lisboa. A primeira foi em 1982, organizada pela CGTP. Acompanhei o meu marido, que era delegado sindical. A segunda, organizada pelo Bloco de Esquerda. A terceira, de novo pela CGTP. Nas duas últimas “apresentei-me” sozinha, porque o meu marido já falecera e eu não pertencia a nenhum dos partidos mas queria participar.

Mas também vim manifestar-me à Assembleia da República duas vezes. A primeira frente à escadaria, já não sei em que ano, contra a carestia da vida. A polícia colocada ao cimo, a empurrar-nos e impedir-nos de subirmos, e eu dei comigo a gritar, furiosa: “Fascismo, nunca mais!” A segunda nas galerias, a favor da despenalização do aborto, dizendo com as outras que também tinha abortado!

Porque quero participar em tudo o que posso, desde sempre que vou para as mesas de voto e colaboro nas campanhas eleitorais.

E porque nos últimos anos de vida do meu pai ele sofreu de Alzheimer, após a sua morte fui vários anos voluntária da APFADA, enquanto a secção Norte esteve sediada no Porto e em Vila Nova de Gaia.

E assim hei-de continuar enquanto a saúde mo permitir!


* Domicília Maria Correia da Costa - Nascida a 25 de Janeiro de 1946, na vila de Alhandra, freguesia de Vila Franca de Xira. Filha de pais operários, entrou para a clandestinidade em 1953, com apenas 7 anos. Em 1959, com 13 anos, foi promovida a membro do PCP e funcionária com salário. Viveu clandestina em Portugal até aos 24 anos de idade, pelo que teve de abandonar a escola precocemente. Mais tarde, chegou a completar o actual 7º ano.

Rompeu com a clandestinidade, mas também com o PCP, em solidariedade com o funcionário clandestino Silva Marques, com quem vivia.

Esteve exilada em Paris, a partir de Abril de 1970, só regressando a Portugal em Janeiro de 1975. Foi em França que conheceu o marido, Joaquim Soares Santos Júnior, e nasceu o primeiro filho. O segundo filho nasceu já em Portugal, em 1977.

De regresso ao Porto, inscreveu-se como membro do entretanto legalizado PCP, chegando a integrar, nos anos de 1980, as listas do PCP para a Assembleia de Freguesia de Oliveira do Douro. Fez parte do Movimento Democrático de Mulheres.

Em 1991 rompeu com o PCP devido à reacção da direcção comunista ao golpe de Estado na URSS e em solidariedade com os camaradas então expulsos - Barros Moura, Raimundo Narciso e Mário Lino.

Após o 25 de Abril manteve sempre actividade cívica e política, participando, nomeadamente, nas campanhas pela despenalização do aborto. E foi voluntária da APFADA durante vários anos.

Aos 69 anos foi eleita deputada pelo Bloco de Esquerda à Assembleia da República.

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