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Mulheres de Abril: Testemunho de Carmelinda Pereira

Para mim, foi o tempo do medo e da sensação de que tudo se fechava. Foi o tempo em que acabei por fazer parte do grupo dos setenta que foram expulsos do ISPA. Até que veio outro tempo. Por Carmelinda Pereira.
Carmelinda Pereira, comício do Partido Socialista, 1975.

Este é o décimo nono testemunho de uma série de mais de 20 a ser publicada durante os meses de abril e maio pelo Esquerda.net. São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. O próximo testemunho será publicado quinta-feira, dia 18 de maio. Coordenação de Mariana Carneiro.


Introdução

Mulheres de Abril, quantas somos? Quantas gastaram as suas vidas e penalizaram a dos seus Filhos – antes e depois do 25 de Abril – para usufruirmos hoje as conquistas que, para muitos, são talvez uma banalidade, de tão normais se tornaram no nosso quotidiano?

As notícias atuais sobre as guerras, a fome, os refugiados e as prisões políticas, o medo de expressar o seu pensamento e de se manifestar, a negação do direito à escola e à saúde são, felizmente, para as jovens gerações do país pós-25 de Abril algo que apenas podem imaginar.

Pelo contrário, para quem viveu os anos da ditadura fascista, da guerra colonial e da PIDE, estas notícias fazem estremecer. Elas constituem um apelo, a muitos e muitas de nós, a não deixar cair os braços, para não deixar perder aquilo que conquistámos e ainda se tem.

As notícias dos horrores de hoje são um apelo para procurar compreender os sentimentos, as dúvidas e as formas de pensar, inevitavelmente diferentes, dos mais novos – encurralados entre a precariedade, o trabalho sem direitos, os salários baixos e a emigração (à procura de uma saída, sabe-se lá também a que preço).

A minha geração precisa de compreender as reações das gerações mais novas para lhes passar o fio da continuidade, já que são elas que terão de tomar tudo nas suas mãos, perante um futuro carregado de incertezas.

Alguns elementos sobre a minha vida, antes do 25 de Abril

O Esquerda.net propôs-me que falasse da minha experiência de resistência ao regime fascista. Aqui vai o meu depoimento.

Mesmo sem fazer parte das pessoas que comeram o pão que o diabo amassou – nomeadamente aquelas que passaram pelas prisões e pela tortura, e quase todas por bem difíceis condições de vida – terei tanto para dizer… Tanto do que foi a circunstância que fez de mim uma jovem militante, a querer agarrar a vida, como é próprio da generalidade dos jovens, a querer abrir todas as portas, para a razão de ser das coisas, para intervir sobre elas, para mudar a vida.

Nascida de uma família com fracos meios económicos, mas apesar de tudo com pão sempre na mesa e com os pés calçados, numa aldeia de pobreza imensa, onde as meninas que se sentavam na carteira ao meu lado tinham os pés roxos do frio da sua nudez, foi muito fácil tomar consciência – de forma bem precoce – do que era a injustiça e o sofrimento. Lembro-me de ter uma sensação de arrepio, ao olhar para aqueles pés descalços, no pino do Inverno, e de perguntar à minha Mãe: porquê?

Pensamentos sobre esta realidade eram facilmente submergidos pelas outras vivências normais de uma criança dessa idade. Mas, à medida que se cresce, as brincadeiras tão livres como absorventes, vão dando lugar a uma maior atenção à vida que nos rodeia, sobretudo quando as dificuldades económicas no seio da minha família – onde sou a mais velha de cinco irmãos – eram uma constante.

O meu primeiro Curso foi o do antigo Magistério do Ensino Primário para começar a ganhar um salário e ajudar os meus irmãos na continuação dos seus estudos.

Apoiando-nos uns nos outros, conseguimos as qualificações que nos fizeram sair da situação de exploração e atraso que existia na minha aldeia, há cinquenta anos, o que é mais um exemplo comprovativo de como a Escola é um elevador social.

As minhas condições de vida e de estudo, a vida dos outros à minha volta e a minha educação cristã – conjugadas com a leitura dos livros que, semana a semana, ia buscar à Biblioteca de Torres Novas – amadureceram em mim o profundo desejo de intervir na sociedade. Na minha cabeça fervilhavam múltiplas ideias, conceitos de liberdade adquiridos no texto literário, sentimentos de revolta e de impotência, e uma grande necessidade de saber mais.

Alguns episódios marcantes

Diferença entre as palavras solidariedade e caridade

A minha família foi viver para Torres Novas, para eu e os meus irmãos podermos continuar os estudos. Nessa altura eu tinha treze anos. Os nossos vizinhos eram um casal (o Sr. Patrício e a Dona Liberdade), com uma filha adotiva que era minha colega do colégio. Eram pessoas endinheiradas, ao contrário da situação da minha casa, e com uma cultura que não escondia o lado anticlerical. As suas ações e atitudes surpreendiam-me, pois entravam em contradição com a minha educação cristã, a qual preconizava que, para ganhar o céu, era preciso praticar o bem. Lembro-me de perguntar: “Se eles não são religiosos, não acreditam em Deus, porque é que agem muito melhor que os católicos?”

Um sábado, o Sr. Patrício convidou-me a mim e à minha irmã Rosa para irmos, com ele e a filha, a um lugar que não conhecíamos.

Após termos percorrido meia dúzia de quilómetros nas imediações de Torres Novas, ele parou a carrinha e levou-nos a um casebre no meio do campo. A casa era de telha vã, chão de terra batida. A porta esburacada estava encostada. Entrámos e encontrámos duas senhoras idosas, com grande dificuldade em se movimentar. O Sr. Patrício entregou-lhes um cesto cheio de alimentos e algum dinheiro.

Quando saímos disse-nos: «Estas senhoras têm direito a viver numa habitação com conforto e com todos os cuidados de que precisam. Deveria ser o Estado a garantir estas condições. Mas o Estado que temos não faz isso. Então temos de ser nós a fazer alguma coisa. Isto não é caridade; isto que fizemos chama-se solidariedade».

Desertar ou morrer

Era uma tarde morna de Agosto. Estávamos sentados, à beira-mar, na Praia da Nazaré, eu e o Cláudio. Ele atirava seixos para os fazer saltar na água, ao mesmo tempo que falava da sua situação na tropa. A sua angústia era contagiante. O Cláudio era um jovem com corpo de atleta, robusto e alto. Os soldados com um tal físico eram os que reuniam as melhores condições para serem integrados no corpo de tropas especiais do Exército – os Comandos. E foi o seu caso.

Naquela altura ele já tinha passado, nos treinos militares em Lamego, por situações inauditas. Experiências que me contava, deixando-me horrorizada, e que eu associava ao que tinha lido num livro sobre os rangers americanos, passado na guerra do Vietname: “Boinas Verdes”.

Aproximava-se o dia da sua partida para Angola, para onde tinha sido mobilizado. O Cláudio não queria morrer, nem queria entrar numa aldeia e matar à faca, sentinelas, mulheres e crianças, tudo o que apanhasse. E desabafava: “Fui preparado para matar de surpresa e sem barulho.”

Eu disse-lhe: “Não vás. Foge, de qualquer maneira. Não vás.”

O Cláudio acabou por ir, a pensar que se desertasse teria muita dificuldade em voltar a ver a Mãe e os amigos.

Passados poucos meses, recebo um telefonema de uma amiga comum para me comunicar que o Cláudio tinha morrido. Uma semana depois chegou uma carta dele, onde dizia: «Não sei se conseguirei sobreviver. Estou muito mal, fui ferido em combate».

O seu nome faz parte dos milhares de nomes gravados no muro do monumento, erguido junto à Torre de Belém, “em homenagem” aos soldados portugueses mortos na guerra colonial.

Propaganda subversiva em vez de ensinar a escrever

Procurando pôr em prática os ensinamentos que ia recebendo nas reuniões do Movimento da Escola Moderna (MEM), incentivava os meus alunos – uma turma de meninos da então chamada “quarta classe” – a escrever por gosto, quando se sentissem inspirados para o fazer. Tratava-se de “texto livre”, que cada um poderia escrever no seu caderno de textos, mostrando-me apenas aqueles escritos que quisesse partilhar. Esses eram corrigidos, enquanto os outros ficavam pertença exclusiva do autor.

Carmelinda Pereira, 1972.

Ao dar a volta à mala da Joana (nome fictício) – uma das meninas da minha classe – o pai abriu o seu caderno dos textos.

O pai da Joana ficou estupefacto. No caderno da filha havia textos sem qualquer correção, inclusive dos erros de ortografia. Entre estes havia um em que a menina falava da guerra de Angola, onde ela estivera a viver com os pais.

O pai da Joana considerou que aquele texto era fruto da ação da professora sobre a filha. Uma professora que “em vez de ensinar os meninos a ler e a escrever corretamente, os punha a escrever sobre a guerra no Ultramar”.

E, assim, eis quando menos esperava recebo a visita de homens à paisana – a PIDE dentro da minha sala de aula – acompanhados pela Diretora do colégio, que dificilmente disfarçava o seu susto.

Era o mês de Maio de 1973. Nas paredes da sala de aula estavam expostos os cartazes sobre as profissões, organizados a partir da forma com as crianças as tinham apreendido – procurando enumerar os diferentes tipos de trabalho necessário para construir todo o tipo de utensílios por elas usados, do livro à cadeira.

Daquela exposição concluía-se também a ideia que todo o tipo de trabalho era importante e, mesmo, imprescindível: do lenhador e do mineiro, ao engenheiro e ao livreiro.

Os Pides consideraram que a exposição confirmava a suspeita de que a professora era alguém contra o Regime.

Daquela vez, valeu-me estarmos perto da época de exame da quarta classe daquelas crianças. Valeu-me, certamente, a influência da Direção do colégio e de alguns pais que – embora sendo do Regime – não queriam que os filhos ficassem sem a sua professora de há quatro anos. Foi assim que escapei à prisão. A mesma sorte não teve uma minha amiga, que era educadora no mesmo colégio.

Desorientação e desconfiança na luta política estudantil

Ao lado dos relatos ilustrativos de um país da caridade, da guerra e da ausência de liberdade poderia citar muitos outros. Entre eles escolho o meu mergulho na luta política no Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) – Instituto que frequentei como trabalhadora-estudante, a partir do ano letivo de 1971-1972.

Foi nesta Escola que me confrontei, pela primeira vez, por um lado com as práticas de “concertação” daqueles que dirigiam a Direção da Associação de Estudantes (ligados ao MDP-CDE, isto é, ao PCP), e, por outro lado, com as práticas de divisão e de desmascaramento por parte dos meus colegas maoístas do MRPP.

Não podia compreender nem aceitar que, havendo da parte da Direção do ISPA uma identificação com o Regime fascista, aos olhos da generalidade dos estudantes, a Direção da AE se sentasse, ao lado desses senhores, no Conselho Diretivo da Escola. Também não podia aceitar as intervenções dos colegas do MRPP, quando se dirigiam nas Assembleias de estudantes à Direção da AE, tendo como eixo central a divisão entre os estudantes e a consequente desmobilização.

Não podia compreender nem aceitar que as Direções das diversas Associações de Estudantes, das instituições do Ensino Superior existentes em Lisboa, não organizassem a mobilização geral de todos os estudantes contra a ofensiva do Regime e das suas Polícias. Por que razão teria de haver greve de uma semana só no Técnico, quando a Polícia atacava os seus estudantes? E, em seguida, havia o ataque em Letras e havia uma outra semana de greve só nesta Faculdade? E assim sucessivamente, numa situação que exigia a unidade de todos.

Só em 1973 – quando a PIDE assassinou Ribeiro dos Santos, estudante do MRPP, em Economia – aconteceu esta resposta geral e espontânea, sem a convocatória das Direções das AEs. Uma resposta que fez tremer o Regime.

Para mim, foi o tempo do medo e da sensação de que tudo se fechava. Foi o tempo em que acabei por fazer parte do grupo dos setenta que foram expulsos do ISPA. Até que veio outro tempo. A Páscoa de 1974, em que amigos meus, militares do Quartel de Santarém, me contaram que estava por poucas semanas um golpe de Estado, a valer. Eles falavam nos levantamentos de rancho dos soldados daquele quartel. Eles contavam que o seu Comandante tinha ousado esbofetear, diante das outras tropas, os oficiais que estavam na Messe, quando se tinha dado o levantamento dos soldados.

Era um período em que se pressentia o cataclismo, um período de múltiplas greves em várias fábricas, de que os estudantes iam tendo conhecimento nas suas reuniões clandestinas.

Foi assim que, numa madrugada, acordo em sobressalto com o toque do telefone. “Quem foi preso, desta vez?” – foi o que pensámos, eu e a minha irmã Rosa, já que o lugar onde vivíamos e onde viviam também outros amigos nossos – a Cruz Quebrada – era vigiado, em cada noite, por dois Pides. Mas a voz, do outro lado do telefone, o que me disse foi isto: “Liga o rádio. Houve um golpe de Estado.”

Tratava-se do Golpe dos militares, o golpe que nos trouxe a todos para a rua, ao som da Grândola Vila Morena, iniciando a Revolução.

Carmelinda Pereira

15 de Maio de 2017


* Carmelinda Maria dos Santos Pereira

Nasci em 1948, no lugar de Outeiro Grande, freguesia de Assentiz – Torres Novas.

Após ter frequentado o Ensino primário na escola da aldeia, fiz os anos de liceu no Colégio de S. Maria (em Torres Novas), tendo tirado a seguir o Curso do Magistério Primário, também em Torres Novas. Não estava em discussão o percurso profissional que quereria seguir. Estava sim em questão como tirar o Curso mais rápido, para poder começar a trabalhar e, assim, ajudar a suportar a educação dos meus irmãos mais novos.

Iniciei a minha vida profissional numa aldeia, perto de Santarém – 48 meninos, repartidos pelas quatro classes do Ensino Primário. Consegui, em simultâneo, concluir os estudos do Ensino Secundário – sétimo ano do liceu – e vim trabalhar para o Colégio da Cidadela, em Cascais, enquanto a irmã imediatamente a seguir a mim entrou no Instituto Nacional de Educação Física, atualmente denominado Faculdade de Motricidade Humana.

Frequentei o Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), até ao terceiro ano. A permanência no ISPA foi interrompida, no ano letivo de 1973/74, pela minha expulsão, devida a ter-me envolvido nas lutas académicas. Voltei a ingressar no ISPA após o 25 de Abril, mas nunca completei esta Licenciatura, por ter colocado à frente a atividade política.

Fiz parte da grande massa de trabalhadores e jovens que integraram o PS, logo a seguir ao 25 de Abril.

Neste Partido acabei por ser convidada para assumir a Coordenação dos núcleos de trabalhadores socialistas das empresas da região de Lisboa.

Empenhei-me, a tempo inteiro, neste processo de organização e mobilização dos trabalhadores socialistas, trabalhadores que se voltavam para o PS colocando a questão do Poder, ao mesmo tempo que, nas empresas – lado a lado com os trabalhadores dos outros quadrantes políticos – tomavam em mãos o seu controlo e, muitas das vezes, assumiam mesmo a sua Direção para salvar os postos de trabalho e impedir a sua falência.

Fui eleita deputada à Assembleia Constituinte e à primeira Legislatura da Assembleia da República.

O movimento de mobilização das classes trabalhadoras para preservar e alargar as conquistas realizadas, chocou-se com a política do Governo do PS – o qual procurava pôr em prática os requisitos estabelecidos pelo FMI e pela CEE, para que Portugal pudesse ser aceite como membro desta última.

Este movimento atravessou o PS, traduzindo-se no choque com a vanguarda dos seus militantes, quadros sindicais e membros das comissões de trabalhadores. Entre estes militantes, cinco tiveram especial destaque, nomeadamente eu e o meu colega deputado Aires Rodrigues, por termos votado contra o Orçamento do Estado subordinado às imposições do FMI. Todos estes militantes foram expulsos do PS, tendo eu e o Aires Rodrigues continuado na Assembleia da República como deputados independentes, até ao final da Legislatura (Outubro de 1979).

Seguiu-se uma forte campanha política de muitos militantes socialistas, no sentido de que a Direção do PS mudasse de orientação e formasse um governo do PS apoiado no PCP. Uma batalha que passou pela constituição de um Movimento para a Unidade Socialista e que terminou na fundação do POUS, em 1979, feita em conjunto com a Organização Socialista dos Trabalhadores (OST), Seção portuguesa da IVª Internacional.

Continuo organizada neste Partido que, em 1980, adotou o Programa da IVª Internacional. É com base neste Programa que tenho realizado a minha intervenção em vários combates políticos, sabendo que a questão central que se coloca à Humanidade é a resolução do problema da Direção da classe operária.

Depois de ter saído da Assembleia da República, organizei a minha intervenção militante em conjunção com a minha atividade profissional e a vida familiar.

Exerci a função docente em várias escolas, sendo a última a Escola Básica Sofia de Carvalho – em Algés, onde liderei o processo de concretização de um projeto educativo, no quadro de uma equipa que envolveu todos os professores, auxiliares de educação e artistas a trabalhar nessa Escola – o Projeto MUS-E, patrocinado pelo violinista Yehudi Menuhin.

Embora já aposentada, continuo ainda a minha ação militante, centrada sobretudo na defesa da Escola Pública e na intervenção sindical.

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