Está aqui

Mulheres de Abril: Testemunho de Helena Neves

Recupero a liberdade com a liberdade do nosso país graças ao Movimento das Forças Armadas na Revolução de Abril. E sempre me faltarão as palavras para dizer esta emoção de saborear um sonho há muito sonhado, de encetar o resto da minha vida num país liberto da cinza dos dias oprimidos. Por Helena Neves.
Entrevista a Álvaro Cunhal, 1974.

Este é o nono testemunho de uma série de mais de 20 a ser publicada durante os meses de abril e maio pelo Esquerda.net. São relatos, na primeira pessoa, de mulheres antifascistas sobre a sua história de resistência e de luta contra a ditadura.

À medida que os testemunhos forem publicados, poderá consultar toda a série em: Mulheres de Abril. O próximo testemunho, de Margarida Tengarrinha, será publicado no domingo, 23 de abril. Coordenação de Mariana Carneiro.


Percursos 

Nasci em 1945, o ano em que terminou a guerra, nos rostos a perplexidade perante o que se não sabia, a vergonha pelo que se não quis saber.

Nasci em Junho, já deportados e deportadas regressavam aos países de origem. Uma fotografia das primeiras sobreviventes dos campos de concentração, no hotel Lutécia em Paris, é uma ferida a preto e branco, muda. “Desde que chegámos que queríamos falar mas ninguém nos queria ouvir” diz Simone Veil.

Helena Neves, com 4 anos.

Foi o ano em que o Magazine American Atlantic, no número de Julho, proclamava, na capa, “desembaracemo-nos das mulheres!” e sucedia o regresso ao lar de milhões de mulheres trabalhadoras. Mas foi também o ano em que a Carta da ONU proclamava “a igualdade dos homens e das mulheres”. Criava-se a Federação Democrática Internacional das Mulheres, as mulheres conquistavam o direito ao voto na Hungria, na Indonésia, no Japão, na Itália, as francesas votavam e, pela primeira vez uma poetisa, Gabriela Mistral, recebia o Prémio Nobel.Nasci a 17 de Junho de 1945, o ano em que o desvendar do inimaginável foi imaginado e concretizado: a bomba atómica em Hiroschima e Nagasaki,  enfrentando-nos com a ausência da emoção, do humano, mais do que com “a morte da razão”.

Não se inventara ainda as ecografias. Fiquei incógnita até ao anúncio “ É uma menina” dito pela parteira Cremilde, que apararia os poucos partos da família e ajudaria alguns abortos. Era uma bebé gordinha porque a minha mãe e as minhas tias se revezavam nas filas de racionamento num país em que o governo fazia esvaziar os campos de gado e cereais para o envio às tropas nazis, populações revoltando-se contra a falta e carestia de géneros, bandeiras negras, mulheres em desespero e raiva. Nunca se vira tantas crianças a enterrar no Alto S. João, afirmava o meu avô, “morrem de pelagra, de fome”. E ele sabia o que dizia, dono e mestre de uma oficina de cantaria, onde se esculpia em placas de mármore, o nome dos mortos, duas datas e “ eterna saudade”.

Quando eu nasci respirava-se uma aragem de esperança. Uma expectativa de mudança amanhecia nos rostos e fazia estremecer o salazarismo. A população festejara nas ruas o fim da guerra, pouco aderira ao luto nacional pela morte de Hitler, decretado por Salazar, que, entretanto, havia de prometer eleições livres. Em combate, destacava-se, o Movimento de Unidade Democrática, MUD, no qual mulheres soltariam a voz: Maria Lamas, Manuela Porto, Cesina Bermudes, Elina Guimarães, Isabel Aboim Inglês e outras.

O campo desta esperança era muito vasto: ia desde liberdade, paz, uma vida melhor até ao desejo do regresso, a preço acessível, das meias de seda. A minha mãe e as minhas tias estavam cansadas de traçar nas pernas nuas, com lápis de carvão, o risco que simulava a costura da meia.

Em breve as ilusões se dissolviam. Interditos o MUD, o Conselho Nacional das Mulheres, a Associação Feminina Portuguesa para a Paz. A repressão mais aguda, longínquo o adiamento da queda do regime.

O inesperado espreita nos territórios mais insuspeitos

Helena Neves, aos 13 anos, com a professora de piano Alice Falcão.

Na minha família cruzavam-se raízes proletárias e a nostalgia materna de uma família burguesa arruinada, as três meninas saindo de chapéu e com criada. O meu avó paterno, anarquista, ainda eu não sabia ler e já conhecia o logotipo do jornal da Voz do Operário, ateu, dizia “Pára raios nas Igrejas á para mostrar aos ateus que os crentes que mais que o sejam não acreditam em Deus”. O meu pai funcionário da Fundação para a Alegria no Trabalho, FNAT, de índole fascizante, admirava Salazar que “só não fazia melhor porque o não deixavam”. Assim que se entrava na minha casa deparava-se com um busto de Salazar de um material icterício. Apesar de certa rebeldia da minha mãe, o meu pai decidiu que deixasse de ser professora primária para assumir a sua natural função, “esposa e mãe”. A única prática religiosa da minha mãe consistia em irmos as duas, na Páscoa, ver filmes bíblicos ao Max, Imperial, Lis, e visitar igrejas, o Senhor sofredor, de roxo vestido. Aos dez anos, no Natal, o “Menino Jesus” deu-me “As Minas de Salomão”, que nem li e “A Cidade e as Serras” do Eça, de que só li os diálogos. Eu gostava, sim, do Cavaleiro Andante, do Mundo de Aventuras, da Condessa de Ségur, da colecção Manecas e, às escondidas, Rocambole, Arséne Lupin e policiais e a fascinante literatura fantástica, que comprava com a semanada, cedo instituída pelo meu pai, cuja biblioteca, fechada à chave, eu cobiçava. Aos onze anos, comecei, feliz, a ir com o meu pai, aos fins de semana, no seu primeiro carro, um DKV, visitar museus por todo o país.

No 2º ano, no Liceu Filipa de Lencastre, a professora de Moral, preparando as alunas para a comunhão solene, descobre que não fiz a primeira comunhão. Diz que os meus pais, porque não casados pela igreja, são “amancebados”, palavra desconhecida, assustadora. O meu recreio do almoço fica reduzido à catequese na Igreja, o manual terrífico: desenhos do Senhor zangado e os pecadores, muito magrinhos, a arder. Faço solenemente a comunhão, o meu pai acompanha-me, mas não entendo porque razão há duas salas de lanche na Igreja: “ uma para os pobrezinhos” onde não falta o pão, outra para “ as meninas do liceu” onde abundam bolos, rebuçados, sumo. Apesar da comunhão feita convictamente, sou a única da turma e, provavelmente do liceu, que não pertencerei à Mocidade Portuguesa Feminina, porque não gostava de fardas, de regras, o que me valerá a raiva das professoras chefes, particularmente da sinistra Virgínia Paraíso. Várias vezes somos levadas em camionetas a manifestações, célebre aquela no Campo Santana, em que eu e poucas outras, não gritaremos “Angola é nossa”. Mas neste Liceu do regime, tive, afortunadamente, durante anos, como professora de português, Letícia Dionísio. Na entrega de testes, o meu era deixado para o fim com a minha composição lida na aula. Assim o fez, também, quando me deu a única negativa, pelo texto tolo, sem nexo, pretensioso, em estilo “pseudo kafkaniano.”

Helena Neves na adolescência.

Filha única, cresci mimada. Tudo me fadava para ser “uma menina bem comportada”, sabendo bordar (odiava!) e culta q. b. Mas o inesperado espreita nos territórios mais insuspeitos. Aos 13 anos, em casa da minha professora de piano, vislumbrei dois livros: Na Cova dos Leões e Sermões da Montanha de Tomás da Fonseca, que ela considera “inconvenientes.” (aliás eram proibidos). Leio-os espantadamente. Devo-lhes a primeira ruptura num percurso mais ou menos anunciado. Torno-me ateia, rompendo com o hábito mais do que fé, instituído pela minha tão querida bisavó Maria, que viúva passava muito tempo em nossa casa, de rezarmos, a todos os santos e mais algum, entre eles ao Santo Expedito bem bonito. Nunca lho direi. Aos 14 anos, escrevo uns medíocres textos sombrios que a Emissora Nacional II transmite e faço com Dinis de Abreu, um programa juvenil, patrocinado pelas Tintas e Cola Cisne, nos Parodiantes de Lisboa: recebemos montes de bisnagas de cola! Entretanto, leio numa grande miscelânea, algo prematura, Júlio Dinis, Camilo, Papini, Dostoievski, Goethe, Mary Shelley, Wilde, Allan Poe, Steinbeck, o teatro de Sartre, Huxley, Romain Rolland (apaixono-me pelo Jean Christophe!), Jorge Amado, Henry James, Jack London, Goethe, Jorge Amado, S. Zweig, E.M. Remarque, Melville, Turguénev. “A Eva Futura” de Villiers de l´ Isle-Adam e “O Homem de Areia” de Hoffman insinuam em mim uma perturbação feminista inconsciente pois eu nem sequer ouvira falar de feminismo. Mais tarde releio alguns e descubro outros, entre os mais amados, Borges, T. Mann,  Brecht, Joseph Roth, J. Rulfo, Clarice Lispector, Ramon Llull, G. Marquez, Thomas Bernhard, que trabalhava num jardim em Traunstein, quando nasci. Mestres da minha inquietação, aos quais Maria Manuela Palma Carlos, que será minha professora no D. João de Castro, acrescentará um vasto desvendar de literatura portuguesa, tornada amiga para sempre. Essencial na minha formação, no meu sétimo ano, confia-me o primeiro trabalho remunerado: explicações de latim. Mais tarde na Faculdade será Vitorino Nemésio, injustamente tão pouco recordado, abrindo para a extraordinária literatura brasileira, prosa e poesia, que eu lia num deslumbramento, muitas vezes ferido, em aulas fascinantemente “ anárquicas”- começava com os relógios da Suiça, passava por diversos atalhos, como “ Sete Palmos de Terra e um Caixão” de Josué de Castro, Carlos Drumond de Andrade e outros. Já então, aos 16 anos, lera “ A Mãe “de Gorki e sucede o que sucedera a tantos outros. Como dizia Lenine, esta obra de Gorki fez mais pela Revolução do que muitos tratados políticos.

O meu pai, mais pragmático e ajuizado, quer que eu tire Românicas mas basta eu chorar para seguir Filosofia. Por esta escolha vou para o Liceu D. João de Castro, liceu masculino com menos de vinte raparigas, (na minha turma seriamos umas onze?), rigidíssimo, recreios e compra da bola de Berlim separados, ameaça de suspensão se alunas e alunos estivessem na paragem de autocarro próxima do liceu, vigiada pelos contínuos, a que chamávamos “os gorilas do Reitor”. Porque estive sempre no quadro de honra, (por competição política, com o chefe de turma, miúdo vaidoso, queixinhas, fascista) farei parte do momento único em que alunas e alunos podiam juntar-se fora de aula, a preparação da festa do sétimo ano, todos os anos, com a peça de Gil Vicente “O Auto da Alma”, em ensaios a que o reitor amiudadamente ia, anunciado pelo assobio do colega, vigiando à porta. Na realidade, ensaiávamos uma peça que eu escrevera, em que um antigo aluno recorda a passagem pelo liceu, revivendo os absurdos interditos e um amor oculto, exibidos em cenas no palco. Escândalo inaudito, traição ao programa anunciado e impresso. Reitor e professores deixam a festa, excepto Maria Manuela Palma Carlos. É ela que me salva da expulsão a par, espantosamente, do padre de Religião e Moral que eu, numa aula, coradíssima, criticara asperamente, quando ele contou que, numa noite de chuva, com gabardine, abordado por uma prostituta, na Av da Liberdade, respondera: “Sou pastor mas não de cabras como você”.

Aos 17 anos, entro para o Partido Comunista Português

Helena Neves, aos 18 anos.

No Liceu, aos 17 anos, entro para o Partido Comunista Português, cuja existência eu ignorara até então. Saio várias noites, para reuniões e distribuições, graças ao meu primo Zé Miguel, que me vai buscar e levar a casa, como se fossemos a uma discoteca juvenil na Av. dos Estados Unidos. Na Faculdade de Letras, faço parte do Secretariado do Partido, e estou na Comissão de Apoio, destinada a traçar a estratégia das greves e manifestações, trabalho pleno de inexperiência. Num fim de tarde, apareço ao meu pai, amparada por dois colegas, a sangrar da cabeça, golpeada com coronha de uma pistola por um pide, numa manifestação, nós estudantes descendo as escadas de Santa Justa, violentamente agredidos. Sou literalmente salva por empregadas de uma sapataria e pela discrição dos enfermeiros bombeiros a que o meu pai, perplexo e amargurado, recorreu. Entretanto, sou suspensa da Faculdade, durante 40 dias e é-me anulada a Bolsa de Estudos. A repressão sobre os organismos estudantis deixa-me sem contactos partidários. Vou, então, dar aulas a operários e outros trabalhadores na Academia de Santo Amaro. Vários estudantes e trabalhadores, desenvolvemos uma intensa actividade cultural, nas colectividades de cultura e recreio, chegando a constituir-se um organismo inter-colectividades. Aqui conhecerei aquele que será o pai das minhas filhas, Joaquim Fernando Gorjão Duarte, com quem partilharei durante mais de vinte anos, amor, ternura, acordos e desacordos, cumplicidades, amuos, alegrias profundas. Abrupta a impossibilidade de envelhecermos juntos. Presente a sua eternidade enquanto eu viver, nas memórias, nostalgicamente, revisitadas.

Helena Neves e Joaquim Fernando Gorjão Duarte, Torres Novas, 1982.

Foi o fruto proibido que me levou à problemática feminina

Foi o fruto proibido que me levou à problemática feminina. No discurso teológico, no qual me iniciara a bisavó Maria, o facto de Eva ter comido a maçã lançara o mal no mundo. Aos 15 anos, no primeiro livro de filosofia que li, Will Durand escreve que, segundo Leibniz, como, aliás, mais tarde Sartre, o acto de Adão comer a maça constitui uma afirmação da liberdade humana. Interrogo-me “ afinal, quem comeu a maçã?”, título do trabalho final, no Curso de Filosofia da Faculdade de Letras. Abro uma caixa de busca das esquecidas Pandoras que aprisionaram a esperança, na qual se inscreve, mais tarde, o meu mestrado na Universidade Nova. Como élan maior do meu envolvimento progressivo no feminismo destacam-se “As Mulheres do meu País” de Maria Lamas, “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir, obras de muitas outras obras de escritoras e militantes feministas francesas e americanas e esse fantástico, belíssimo manifesto “Novas Cartas Portuguesas”,obra das três Marias: Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da CostaPor isso, no MDM, no PCP, na revista Mulheres, no Bloco de Esquerda, na UMAR e não só, tentei romper silêncios sobre a história e as estórias das mulheres. O mais que projectei e tanto desejei foi suspenso na voragem dos dias, nos imprevistos abruptos na esquina do tempo que corre.

Helena Neves com Luísa Amorim e Helena Bastos numa manifestação do MDM.

Em 1968, o partido dá-me como tarefa ir a uma reunião de mulheres da oposição em casa da Sophia de Mello Breyner, lançar a proposta de criação de um movimento de mulheres, proposta “encomendada” também a outras mulheres. Da Sofia eu só conhecia a palavra, as palavras e amava-as. A casa grande, confortável, uma média luz acendia zonas de sombra nos rostos de mulheres de todas as idades. Não nos conhecíamos mas estávamos contentes por estamos juntas e sermos tantas. Nasceu, nessa noite de vozes e aspirações entrecruzadas, a minha ligação aos movimentos de mulheres, à sua história, ao seu pulsar. Integrarei a primeira direcção da Comissão Eleitoral de Mulheres, com Eugénia Pereira de Moura e Helena Pato, (ambas representantes do movimento de mulheres na Comissão Política da CDE de Lisboa), Dulce Rebelo, Luísa Amorim. Essencial a experiência de luta de tantas mulheres no impulso e vida do M.D.M., Maria Lamas, Laura Lopes, Cecília Areosa Feio, Luísa Tito Morais, Vitória Galacho, Isabel da Nóbrega, Joaquina Silvério, Chica Velez, Lígia Veloso, Marília Vilaverde, Lília da Fonseca, Matilde Rosa Araújo, Elina Guimarães e tantas outras, rostos e nomes anónimos numa multidão sem a qual a liberdade não passaria de utopia. Nesse impulso, assino com Helena Pato e Lídia Pessoa Fernandes, o documento de fundação do Movimento Democrático Eleitoral de Mulheres do distrito de Lisboa, que depois do período eleitoral, se constituí como Movimento Democrático de Mulheres, M.D.M., evidentemente semi clandestino.

Em 1970, encontro Maria Lamas, chegada de um exílio de cerca de oito anos, em Paris, uma referência quase mítica da luta das mulheres contra o fascismo, pela democracia e a paz mundiais. Conhecemo-nos numa capela, na Rua de Santa Marta, que um padre corajoso, abre clandestinamente, na noite 8 do Março. Neste encontro abre-se um tempo que será de afecto profundo, ternura construindo-se através da troca de palavras, aspirações, risos, confidências únicas, - ela contando-me da sua paixão maior, escritor determinante na sua evolução política - em muitas tardes em que bebíamos chá, sem notar a passagem do tempo, tardes que hoje me parecem tão poucas.

Helena Neves com Maria Lamas.

Impedida de leccionar por “não garantir a Segurança do Estado

Detida com o meu marido, antes da abertura da primeira campanha eleitoral da CDE, na qual estava prevista a minha candidatura por Santarém, o choque dos meus pais é enorme, sobretudo, quando na visita semanal, veem o meu rosto marcado pelo anel de Madalena Paes de Lemos, “a Leninha da PIDE”, a única mulher que chegará a inspectora, que apostara que, ao fim de meia hora de bofetadas, me lembraria daquilo que eu decidira nunca lembrar. O meu pai passou a ouvir a Rádio Portugal Livre, com um copo de água em cima da telefonia para não se detectar (julgo que ilusão). Mas o icterício busto de Salazar permaneceu lá em casa até que, às primeiras notícias do movimento do 25 de Abril, a minha mãe o atirou ao chão, várias vezes, até ficar bem desfeito. Liberta três meses depois (prazo que só podia ser ultrapassado em caso de o preso ir a julgamento, o que sucederá ao meu marido que seria condenado com base numa “prova” caligráfica), com a nossa primeira filha, Vanda, então, com cinco meses, fui impedida de leccionar por, segundo a PIDE /DGS, “não garantir a Segurança do Estado”.

O jornalismo foi uma grande escola de vida

Helena Neves a conduzir uma entrevista sobre a Reforma Agrária para o jornal Avante!

Encontro então como terreno de sobrevivência o jornalismo, várias as passagens e paragens entre 1970 e 1974. Diário Feminino, que a PIDE proíbe de sair enquanto me mantiverem lá, o Diário de Lisboa. Modas e Bordados, vivência cúmplice, sob a chefia de Maria José Trigoso, República, onde coordenei o suplemento Presença da Mulher, criado pela jornalista Antónia de Sousa, Actividades Económicas, projecto do arquitecto Conceição e Silva, proibido antes da saída do primeiro número em 1973. Determinante O Diário de Lisboa. Entrada num universo masculino machista, o espanto perante as contradições humanas, o reconforto das amizades tecidas, o deslumbramento de outras aprendizagens. O meu grande amigo José João Louro brilhante, excessivo e intempestivo; os irmãos Souto, administradores, nunca me inscrevem na Segurança Social; o Cardoso Pires, escritor notável, homem detestavelmente engatão; o humor de Mário Zambujal; a ironia cáustica de Mário Castrim; as tardes encantatórias, na Luz Soriano, com o Urbano Tavares Rodrigues a contar estórias e a fazer o pino nas secretárias vazias; o Manuel de Azevedo falando sobre filmes, a censura, os cineclubes e eu escutando avidamente.

E ainda o encontro decisivo com os homens e as mulheres concretas deste país, nas searas de Vila Franca, nos baldios do centro, nas planícies alentejanas, nas fábricas da cintura industrial de Lisboa, em meios intelectuais onde teimosamente persistia a tentativa de denúncia, o anseio de mudança em crescendo, as mulheres, chamadas pela guerra colonial a maior participação profissional e social, sacudindo fatalismos, envolvendo-se mais e mais em lutas. Ainda no jornalismo, de 1971 a 1972, dirigi o Gabinete de Imprensa do Sindicato dos Profissionais de Escritório, sendo despedida em consequência da eleição de uma direcção sindical afecta ao regime. Em “semi clandestinidade”, com o Caiano Pereira, o Manuel Lopes e o Louro, encontro-me no grupo do qual emerge a Intersindical Nacional.

Reportagem na URSS - Helena Neves com os jornalistas António Melo, Mario Castrim, José Goulão, Rui Lima Jorge e Carlos Pinhão, que tirou a foto.

Tal como Maria Lamas dissera falando de si, também para mim o jornalismo foi uma grande escola de vida. Antes e depois do 25 de Abril, além dos jornais e revistas a cuja redacção pertenci, fui responsável pelo Boletim da Associação dos Inquilinos Lisbonenses, ainda em vida de Emílio Costa, colaborei nas revistas EP, Economia Política, Prelo, Marketing, Seara Nova, Eva, dirigida pela magnífica escritora Judite Carvalho, Mulheres do Mundo Inteiro da Federação Democrática Internacional das Mulheres, Ler do Círculo de Leitores, nos jornais Opinião, Notícias da Amadora, Independência de Águeda, Diário, Expresso e Jornal de Letras, entre outros. Soma-se a realização do programa Trabalho e Sindicalismo na RDP, anulado em Novembro de 1975, e, nos anos noventa, durante dois anos, uma crónica semanal na RDP 2., suspensa após uma abordagem pela legalização do aborto, apesar do protesto solidário da UMAR.

Multiplicávamo-nos nas múltiplas frentes

Helena Neves no Congresso da CDE, em Belas Artes.

Todas e todos nós os que navegávamos nas rotas da oposição, multiplicávamo-nos nas múltiplas frentes. Assim, de 1971 a 1974, pertenço, com o José Tengarrinha, o Carlos Carvalhas e outros, ao Conselho Português para a Cooperação e Segurança Europeia, à Assembleia de Representantes da Opinião Pública para a Cooperação e Segurança Europeia, participo em reuniões internacionais, uma delas, com a Ana Maria Alves, clandestinamente, na RDA, no Conselho Mundial da Paz. Nesta frente conheço Raymond Goor, cónego belga do movimento Pax Christi, de oitenta anos, com um passado denso de luta contra o nazismo. Uma grande amizade nos unirá. Juntos, ele com um novo vigor, “recorda-me o tempo da Resistência! ”, viveremos aventuras “rocambolescas”, quando da sua visita Portugal, com a polícia política, “acompanhando-nos” no avião e nas ruas do Porto e de Lisboa, tentando impedir os nossos encontros com o Bispo do Porto, António Ferreira Gomes, e a missa conjunta que realizam. 

Recupero a liberdade com a liberdade do nosso país

Em 1973, faço parte da Comissão Nacional do III Congresso da Oposição Democrática, realizado em Aveiro, em Abril. São dias de apaixonada esperança, de cansaço que quase se não sente. Oriento com Caiano Pereira e Marcelo Curto, a Mesa Estrutura e Transformações das Relações de Trabalho e a Comissão de Imprensa com o Louro, o João Paulo Guerra, o Armando da Silva e outros. É um tempo em que intuímos o acelerar da agonia do regime.

Em 1973, candidata pelo distrito de Lisboa na lista CDE / CEUD, sou detida numa distribuição de manifestos. Tal como alguns candidatos, transferem-me para Caxias, de onde a DGS nos liberta na véspera da campanha eleitoral. Em 1974, nas últimas semanas de Março, dois representantes das Forças Armadas, um deles o capitão Jaime Fernandes da Escola de Cavalaria, visitam-me, inesperadamente, em minha casa. Vêm comunicar-me a eminência do golpe.

Presa, quase de imediato, na vaga repressiva dos primeiros dias de Abril de 1974, recupero a liberdade com a liberdade do nosso país graças ao Movimento das Forças Armadas na Revolução de Abril.

Helena Neves - Ficha da PIDE.

E sempre me faltarão as palavras para dizer esta emoção de saborear um sonho há muito sonhado, de encetar o resto da minha vida num país liberto da cinza dos dias oprimidos. E sempre me faltarão as palavras para dizer da alegria tão grande que até doía, do esplendor desses dias, do primeiro 1º de Maio, da enormidade das esperanças, da ingenuidade de muitos os que julgávamos possível o impossível. Há projectos mesmo delirantes, belos exactamente pelo seu irrealismo: Os Fuzileiros informam-me que serei ministra da Educação no governo que propõem, Tengarrinha ocupará a pasta da Cultura, Vitor Dias os Negócios Estrangeiros, creio, Louro, a Comunicação, o José António Tavares, a pasta da Economia.

O maior envolvimento sucedeu, naturalmente, no MDM

Logo, depois do 25 de Abril, trabalho na redacção do jornal Avante, órgão central do Partido Comunista Português, dirigido por Dias Lourenço de que guardo tanta saudade, ocupo-me, sobretudo, da luta das mulheres e da Reforma Agrária. Faço parte da Comissão da Reforma Agrária junto do Comité Central e do Secretariado dos Jornalistas Comunistas, com Mário de Carvalho. Serei conselheira, pelo PCP, no Conselho de Informação para a RDP, e no Conselho de Informação para a RTP na Assembleia da República nos anos 1975/77. É no quadro da luta das mulheres que maior será a polémica no interior do partido. Integro o Núcleo das Mulheres Comunistas e a Comissão de Mulheres Comunistas junto do Comité Central. Desta frente saliento o apaixonante debate interno do Partido para avançar com uma proposta legislativa sobre a legalização do aborto. Anos antes, eu não assinara o apoio a Conceição Massano, julgada por ter abortado. O partido não considerara tal oportuno, eu discutira mas, na realidade, submeti-me, literalmente cobarde, dilacerada. Dilaceramento positivo, pois, através dele, fortaleci a exigência de coerência pessoal.


Helena Neves - Antigos presos políticos regressam a Caxias ao fim de 40 anos.
 

O maior envolvimento sucedeu, naturalmente, no Movimento Democrático de Mulheres, a cujo Secretariado e Conselho Nacional pertenci, antes e pós 25 de Abril até 1991, e que representei no Conselho da Comissão da Condição Feminina, nos anos setenta. Em 1979, inicio-me como sub directora na Revista Mulheres, apoiada pelo MDM, dirigida por Maria Lamas, a redacção chefiada pela Teresa Horta, feminista, notável escritora,  e assumo a direcção, em 1984, depois da morte de Maria Lamas. Hierarquias  formais, pois a revista é construída através de uma partilha, por vezes polémica e sempre fértil, uma cumplicidade feminista extremamente enriquecedora. Serei uma das 24 mulheres portuguesas profissionais de diversos sectores profissionais e culturais, convidadas a visitar países europeus pela Direcção Geral de Informação, Comunicação e Cultura, do Serviço Informação Mulheres da C.E.E. (Bruxelas), no âmbito da viagem de "Boas Vindas às Mulheres Portuguesas e Espanholas" no ano de entrada dos dois países na C.E.E. Capítulos fundamentais subjectiva e objectivamente , serão  as viagens internacionais, em representação, quer do PCP, quer, sobretudo, do M.D.M, da revista Mulheres, a vários congressos e movimentos femininos, nomeadamente de países socialistas, e feministas como o Partido Feminista Espanhol de Lidia Falcon e as organizações feministas francesas, o encontro com a Federação Democrática Internacional de Mulheres,  o encontro em Cuba e  no Panamá com guerrilheiras e com a comunidade índia.

Helena Neves com Fidel Castro, delegação da Assembleia da República, 1999.

Eleita para o Comité Central do PCP, no Congresso do Porto, em 1989, demito-me, em Março de 1991, abandono a militância no PCP e, posteriormente, no Movimento Democrático de Mulheres. Gesto doloroso de coerência, este exílio de uma geografia de luta, na qual reconhecerei sempre pertenças. Adiro como independente, ao Bloco de Esquerda, pertencerei ao Secretariado. É-me particularmente grato, ter sido a primeira deputada, entre 2001/02, à Assembleia da República, onde como “minhas” batalhas incluo a legalização da contracepção de emergência, da união de facto dos homossexuais, a criminalização da violência doméstica, a alteração da lei do divórcio, a questão do aborto. Conheço no Bloco uma atmosfera única de unidade nas diferenças, de solidariedades no essencial. Na UMAR, União de Mulheres Alternativa e Resposta, em cuja direcção serei incluída, vivo a profundidade de debate e combate feministas e de combate pelos direitos, o inconformismo, a constância face aos obstáculos e a solidariedade feminina e feminista.

Iniciativa de apoio ao povo timorense.

É o encontro com as mulheres que mais me faz o que sou e vou sendo

Se nesta viagem encetada no ano em que nasci, guardo tantos momentos únicos que me formaram como mulher, militante de varias frentes através dos territórios percorridos, é o encontro com as mulheres que mais me faz o que sou e vou sendo. A minha mãe, a tia Gerti, a bisavó Maria, Manuela Palma Carlos, Maria Lamas, Lucília Estanco, as mulheres que singularizo no meu caminho, Luísa Amorim, amiga, quase irmã, Lena Pato, Alda Nogueira, Teresa Horta, Manuela Tavares e outras e outras –, aquelas que conhecerei e amarei apenas através das obras, das palavras e dos gestos que ousaram, as com quem, em encontros mais ou menos breves ou mais ou menos longos, partilhei resistências e partilho a defesa da democracia, outras, muitas alunas, com as quais, incessantemente aprendo.

Helena Neves, com as minhas filhas Vanda, 15 anos, e Sónia, 13 anos, 1985.

É, fundamentalmente, às mulheres, ao seu movimento, que devo as cintilações de tantas descobertas, as maiores cumplicidades. E às mulheres que mais amo, as minhas filhas, a Vanda e a Sónia, a minha neta Leonor e aos meus netos Francisco e Daniel, os meninos que vieram quebrar gerações de filiação feminina, devo os maiores risos, as felicidades maiores, esta teimosia em saborear a efemeridade como se esta o não fosse.

Homenagem da UMAR com Manuela Tavares e Maria José Magalhães.

 


*Maria Helena Augusto das Neves Gorjão É professora de Pensamento Contemporâneo na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, tendo pertencido ao Conselho Universitário, e colaboradora do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX, da Universidade de Coimbra, do qual foi investigadora de 2001 a 2008.
Antes do 25 de Abril, publicou o livro Raízes da nossa Força, textos sobre fotografias de crianças de bairros de lata da região de Lisboa, da autoria de Alfredo Cunha. Livro apreendido pela PIDE /DGS e objecto de um processo por conter “ incitamento ao levantamento das populações” Em 1974, outro livro Mulheres de um Tempo ainda presente foi apreendido pela polícia política na tipografia da Editora Notícias da Amadora, tendo vindo a ser publicado logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. Deste livro foi extraído o conto Deolinda, a da beira-mar, publicado em An Anthology of the Best Contemporary Portuguese Writing Prose, Cambrigde: Eastern Arts, 1994, com a colaboração do Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Lisboa, Instituto Camões Lisboa e de The Arts Council London.
Os seus estudos incidem, parricularmente, sobre a temática do Género e sobre os movimentos de mulheres e sobre a obra de Bento de Jesus Caraça. Estudo, reflexão e crítica sobre a história, pensamento filosófico e sociológico na produção das representações socio-culturais conceptuais sobre o masculino e o feminino e sua evolução. Estudo sobre a temática do Género e sobre os movimentos de mulheres.

Termos relacionados Mulheres de Abril, Sociedade

Adicionar novo comentário