Morreu na sexta-feira Óscar Lopes, um nome central da cultura portuguesa do Século XX e um dos intelectuais mais ativos e comprometidos da nossa democracia e também da oposição à ditadura fascista.
Óscar Lopes foi ensaísta, crítico literário, linguista, escritor e jornalista. Co-autorou, com António José Saraiva, a História da Literatura Portuguesa, que atualizou mais tarde, e é obra de referência até hoje, na sua 17ª edição. Foi também autor de “Entre Fialho e Nemésio” e de vários trabalhos na área da linguística sobre o português.
Óscar Lopes foi um intelectual absolutamente comprometido, durante toda a sua vida. Militante do PCP desde 1944, foi preso duas vezes durante o fascismo e expulso e proibido de ensinar quer na escola pública, quer na privada. Após o 25 de Abril, foi membro do comité central e deputado pelo PCP, na Assembleia da República e na Assembleia Municipal do Porto. A vida de Óscar Lopes é um percurso ímpar, em que a produção intelectual e a militância política são inseparáveis.
Viveu sempre à frente do seu tempo
“Conheci bem Óscar Lopes, foram muitas horas de conversa, de convivência, em sua casa ou a caminho das mais variadas reuniões”, recorda o coordenador do Bloco João Semedo a quem a notícia da sua morte deixou muito triste. “A sua inteligência crítica tanto se revelava nas inovadoras e complexas de linguística que desenvolveu – e que paciente e entusiasticamente se esforçava em “traduzir” para leigos – como na forma de observar e comentar os factos, as situações, as histórias mais simples do dia a dia, surpreendendo-nos quer pelo que lhe despertava a atenção quer pelos caminhos que o seu pensamento seguia”.
Para João Semedo, o brilho intelectual de Óscar Lopes iluminava a sua simplicidade como pessoa. “Marxista de pensamento, comunista de militância, Óscar Lopes viveu sempre à frente do seu tempo. Por isso, o fascismo não o silenciou por muito que o tenha perseguido e discriminado. E, também por isso, a sua obra literária, académica e científica continuará uma referência na história da cultura portuguesa”.
Alteração ao nível da Europa ou da Península Ibérica
Numa entrevista ao Público, em 1999, Óscar Lopes deu a seguinte resposta quando lhe perguntaram se ainda acreditava numa revolução comunista: “Acredito. Bem, em primeiro lugar uma revolução comunista não é necessariamente uma coisa violenta. E já não acredito numa revolução portuguesa, mas sim numa alteração ao nível da Europa ou da Península Ibérica. A qualquer momento pode dar-se, porque não acredito no capitalismo. Talvez só nos EUA e em condições muito especiais...”
O corpo de Óscar Lopes estará até este sábado na Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, frente ao Café Garça Real, na Praça de D. João I. Às 15h haverá uma breve cerimónia, após a qual o corpo seguirá para o Cemitério de Matosinhos, onde será cremado às 16h30.
Para saber mais:Óscar Lopes - Comunista e «homem culto», de Manuel Gusmão.