Está aqui

Maus resultados na leitura confirmam críticas às metas de Crato

Os alunos abrangidos pelas metas curriculares introduzidas por Nuno Crato no 1º ano de escolaridade foram avaliados no 4º ano quanto à literacia. Só o Irão caiu mais que Portugal nos resultados deste relatório internacional.
Foto Paulete Matos.

O relatório Progress in International Reading Literacy Study (PIRLS), realizado em 50 países com base em avaliações feitas no ínicio de 2016, concluiu que os alunos portugueses do 4º ano de escolaridade pioraram o desempenho na compreensão da leitura entre 2011 e 2016. Portugal teve a segunda maior queda, passando de 541 para 528 pontos e caindo da 19ª para a 30ª posição.

Estes alunos são os primeiros a cumprir os quatro primeiros anos de escolaridade com as metas curriculares definidas pelo governo PSD/CDS. A apresentação das metas curriculares pelo ministro Nuno Crato em 2012 suscitou duras críticas dos professores e especialistas em aprendizagem. A então coordenadora do projeto Investigação das Dificuldades para a Evolução da Aprendizagem da Universidade de Lisboa dizia ao Público que seria “impossível” aos alunos cumpri-las e que, pelo contrário, só trariam "novas dificuldades de aprendizagem”.

Também a Associação de Professores de Português, no parecer enviado em 2012, alertava para o completo desfasamento entre as metas propostas e o programa então em vigor, criticando aspetos das metas de Nuno Crato por serem “um retrocesso de mais de uma dezena de anos” no ensino do português, “o retorno a um estudo tantas vezes árido e  improdutivo”. Três anos depois, noutro parecer sobre as metas e um novo programa de português em abril de 2015, a Associação era taxativa sobre o modelo proposto pelo governo PSD/CDS: “exige-se que todos cumpram ao mesmo tempo, no mesmo ano, os mesmos objetivos e conteúdos, que todos leiam o mesmo, o que só é possível se os alunos permanecerem passivos e acríticos a ouvir o professor debitar a matéria para os exames. Parece procurar-se garantir que tudo volte a ser como era dantes”.

Outro dos resultados mais relevantes deste estudo foi o da queda acentuada da pontuação das raparigas: menos 19 pontos que em 2011, quando os rapazes baixaram 7 pontos. Essa queda acentuada fez desaparecer a diferença entre géneros dos resultados deste estudo, passando Portugal a ser o único país onde o desempenho médio das raparigas na leitura não é claramente superior ao dos rapazes, tanto na leitura em papel como na leitura online. O estudo ePIRLS, que avaliou o desempenho na leitura online em apenas catorze países e duas regiões, coloca Portugal no 12º lugar e com resultados abaixo dos do PIRLS (522 contra 528). A tendência internacional vai no sentido contrário, com dez dos dezasseis participantes a conseguirem melhores resultados na leitura online do que em papel.

Em reação ao anúncio destes resultados, o Secretário de Estado da Educação João Costa disse ao Expresso que eles “não nos surpreendem”, pelos testemunhos recebidos da parte de “diretores, professores e associações profissionais preocupados com o que se estava a passar no 1.º ciclo”. Em declarações ao Público, o ex-ministro Nuno Crato reagiu aos resultados apontando as culpas ao "ambiente de facilitismo" criado pelo anúncio do fim dos exames finais do 4º ano nas vésperas da avaliação portuguesa do PIRLS, apenas dois meses após a tomada de posse do governo do PS.

Termos relacionados Sociedade

Comentários

Este grave problema é bastante antigo e de modo nenhum começou com Crato!
O problema está nos professores do ensino básico que devem ser criteriosamente seleccionados e terem formação e auditorias contínuas!
Muito grave também são as contantes mexidas nos programas que se reflectem na destabilização do ensino!
Os professores devem ter vencimentos que aos motivem e incentivem!

Adicionar novo comentário