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"Marisa Matias", por Abel Neves

Texto de apoio do dramaturgo Abel Neves à candidatura de Marisa Matias a Presidente da República.

 O narrador de um dos contos breves de Adélia Prado no livro “Solte os cachorros”, diz: Eu, se fosse governo, (...) escolhia pra meus ajudantes só gente que tivesse duas coisinhas à-toa: honestidade e competência”. Sabemos que não se trata de pensar em governo, mas, sim, de Presidência, o que, rimando com a tal qualidade, e esta com a outra, faz com que o desígnio de Marisa Matias tenha o melhor dos horizontes porque sabemos que a sua arte na Política é a de servir os interesses da República e fazê-lo, precisamente, com honestidade e competência, predicados que trazem o melhor dos benefícios à vida social, à democracia.

Nos anos mais recentes, e não foram poucos – contam-se dez penosos Invernos mais outros tantos Outonos, Primaveras e Verões - tivemos de nos acostumar a uma sorumbática presença em Belém, uma espécie de “querido líder” em versão lusitana, ensarilhado em ambiente soturno, a personificação de um “órgão de soberania” – quando o Presidente aparecia, o fenómeno nunca era o imperfeito homem eleito, mas o “órgão de soberania” - amigo de falas tristonhas, um verbo-de-encher quase sempre dizendo sobre assuntos politicamente relevantes que quase nada podia dizer, e, pior, cúmplice, na sombra, de uma galeria de jogadores fazendo contorcionismos perigosos na roda da economia e, claro, da política, alimentando o secretismo de comportamentos viciosos e o jogo de influências de família partidária.

Marisa Matias na Presidência da República dará um novo ânimo às práticas da Política e do seu discurso - que devem aproximar os cidadãos da necessidade de estarem cada dia mais capazes de ser informados e de bem agir - e adivinham-se descomplexadas dinâmicas no relacionamento institucional, dando voz aos mais urgentes problemas sociais, potenciando os direitos de cidadania, possibilitando a incineração de injustiças, renovando as tão necessárias lavouras da cultura na vida de todos nós.

Marisa Matias - e não apenas pelo seu excelente trabalho demonstrado e reconhecido no Parlamento Europeu, mas também pelo seu constante e sério empenho na vida social e académica – tem a virtude, o talento, que autoriza as boas possibilidades e garante que possam, de facto, acontecer.

Deitando o olho à poesia, lembramo-nos dessa inscrição de Rimbaud que proclama mudar a vida e quase cremos que a Política o pode fazer. Se não andar distante da natureza que somos, que devemos aperfeiçoar, e não se destinar aos negócios de uns quantos, pode ser que a Política honre esse nobre propósito, e já agora poético, que é o de mudar a vida. É que estamos a precisar de uma humanidade menos apta à ganância e mais capaz de actos sublimes.

Eu cá apoio os desígnios de Marisa Matias.

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