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A maior ameaça à paz mundial, por Noam Chomsky

Recentemente, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 174 votos a seis, uma resolução na qual convida Israel a aderir ao Tratado de Não Proliferação Nuclear. Os Estados Unidos votaram contra. Washington, que tanto fala da ameaça de um Irão nuclear, nada faz para estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente. Por Noam Chomsky, La Jornada
A Assembleia Geral da ONU aprovou, por 174 votos a seis, uma resolução na qual convida Israel a aderir ao TNP. Pelo não, votou o contingente habitual: Israel, Estados Unidos, Canadá, as Ilhas Marshall, Micronésia e Palau. Foto de nickjeffery

Há alguns meses, ao informar sobre o debate final da campanha presidencial nos Estados Unidos, o The Wall Street Journal observou que “o único país mais mencionado (que Israel) foi o Irão, que é visto pela maioria das nações do Médio Oriente como a principal ameaça à segurança da região”.

Os dois candidatos estiveram de acordo em que um Irão nuclear é a maior ameaça à região, se não ao mundo, como Romney sustentou explicitamente, reiterando uma opinião convencional.

Sobre Israel, os candidatos rivalizaram nas declarações de devoção, mas nem assim as autoridades israelitas se deram por satisfeitas. Esperavam “uma linguagem mais ‘agressiva’ de Romney”, segundo os repórteres. Não foi suficiente que o candidato republicano exigisse que não fosse permitido ao Irão “alcançar um ponto de capacidade nuclear”.

Também os árabes estavam insatisfeitos, porque os temores árabes sobre o Irão foram debatidos “sob a ótica da segurança israelita, não da região”, e as preocupações dos árabes não foram contempladas: uma vez mais, o tratamento convencional.

O artigo do Journal, como tantos outros sobre o Irão, deixa sem resposta perguntas essenciais, entre elas: Quem exatamente vê o Irão como a ameaça mais grave à segurança? O que os árabes (e a maior parte do mundo) acham que se pode fazer diante dessa ameaça, existindo ela ou não?

A primeira pergunta é fácil de responder. A ameaça iraniana é uma obsessão totalmente do Ocidente, compartilhada por ditadores árabes, embora não pelas populações árabes.

Como mostraram numerosas sondagens, mesmo que os cidadãos dos países árabes em geral não simpatizem com o Irão, não o consideram uma ameaça muito grave. Na verdade, percebem que a ameaça são Israel e Estados Unidos, e vários, muitas vezes maiorias consideráveis, veem nas armas nucleares iranianas um contrapeso a essas ameaças.

Em altas esferas dos Estados Unidos, alguns estão de acordo com a perceção das populações árabes, entre eles o general Lee Butler, ex-chefe do Comando Estratégico. Em 1998 ele disse: “É extremamente perigoso que, no caldeirão de animosidades a que chamamos Médio Oriente”, uma nação, Israel, deva contar com um poderoso arsenal de armas nucleares, “que inspira outras nações a tê-lo também”.

Ainda mais perigosa é a estratégia de contenção nuclear da qual Butler foi o principal formulador durante muitos anos. Tal estratégia, escreveu em 2002, é “a fórmula para uma catástrofe sem remédio”, convidando os Estados Unidos e outras potências atómicas a aceitar os compromissos contraídos dentro do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e fazer esforços de “boa fé” para eliminar a praga das armas atómicas.

As nações têm a obrigação legal de levar a sério esses esforços, decretou o Tribunal Mundial em 1996: “Existe a obrigação de avançar de boa fé e levar a termo as negociações orientadas para o desarmamento nuclear em todos os seus aspetos, conforme um controlo internacional estrito e efetivo”. Em 2002, o governo de George W. Bush declarou que os Estados Unidos não estão comprometidos com essa obrigação.

Uma grande maioria do mundo parece compartilhar a opinião dos árabes sobre a ameaça iraniana. O Movimento de Países Não Alinhados (MNA) apoiou com vigor o direito do Irão de enriquecer urânio; a sua declaração mais recente aconteceu na cimeira de Teerão, em agosto passado.

A Índia, o membro mais populoso do MNA, encontrou forma de evitar as onerosas sanções financeiras dos Estados Unidos ao Irão. Executam planos para vincular o porto iraniano de Chabahar, recondicionado com assistência indiana, à Ásia Central, através do Afeganistão. Também se informa que as relações comerciais aumentam. Se não fossem as fortes pressões de Washington, é provável que estes vínculos naturais tivessem uma melhoria substancial.

A China, que tem estatuto de observadora no MNA, faz o mesmo, em boa medida. Expande os seus projetos de desenvolvimento para o Ocidente, entre eles iniciativas para reconstituir a antiga Rota da Seda para a Europa. Uma linha ferroviária de alta velocidade conecta a China com o Cazaquistão e além. É provável que chegue ao Turcomenistão, com os seus ricos recursos energéticos, e que se conecte com o Irão e se estenda até a Turquia e a Europa.

A China também tomou o controlo do importante porto de Gwadar, no Paquistão, que lhe permite obter petróleo do Médio Oriente, evitando os estreitos de Ormuz e Malaca, saturados de tráfico e controlados pelos Estados Unidos. A imprensa paquistanesa informa que “as importações de crude do Irão, dos estados árabes do Golfo e da África poderiam ser transportadas por terra até o noroeste da China, através deste porto”.

Na sua reunião de agosto, em Teerão, o MNA reiterou a sua velha proposta de mitigar ou pôr fim à ameaça das armas nucleares no Médio Oriente estabelecendo uma zona livre de armas de destruição em massa. Os passos nessa direção são, sem dúvida, a maneira mais direta e menos onerosa de superar essas ameaças, o que é apoiado por quase o mundo inteiro.

Surgiu recentemente uma excelente oportunidade de aplicar essas medidas, quando se planeou uma conferência internacional sobre o tema em Helsinki.

Realizou-se uma conferência, mas não a que estava prevista. Só organizações não governamentais participaram da reunião alternativa, organizada pela União pela Paz, da Finlândia. A conferência internacional planeada foi cancelada por Washington em novembro, pouco depois de o Irão ter concordado em comparecer.

A razão oficial do governo Obama foi “a turbulência política na região e a postura desafiante do Irão sobre a não proliferação” segundo a agência Associated Press, junto a uma falta de consenso sobre como abordar a conferência. Essa razão é a referência ao facto de que a única potência nuclear da região, Israel, se recusou a comparecer, alegando que a solicitação para fazê-lo era “coerção”.

Aparentemente, o governo Obama mantém a sua posição anterior de que “as condições não são apropriadas, a menos que todos os membros da região participem”. Os Estados Unidos não permitirão medidas para submeter as instalações nucleares de Israel a inspeção internacional. Também não revelará informação sobre “a natureza e alcance das instalações e atividades nucleares israelitas”.

A agência de notícias do Kuwait informou imediatamente que “o grupo árabe de Estados e os estados membros do MNA concordaram em continuar a negociar uma conferência para o estabelecimento de uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente, assim como de outras armas de destruição em massa”.

Recentemente, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 174 votos a seis, uma resolução na qual convida Israel a aderir ao TNP. Pelo não, votou o contingente habitual: Israel, Estados Unidos, Canadá, as Ilhas Marshall, Micronésia e Palau.

Dias depois, em dezembro, os Estados Unidos realizaram um teste nuclear impedindo, uma vez mais, o acesso dos inspetores internacionais ao local do teste, em Nevada. O Irão protestou, assim como o presidente da câmara de Hiroshima e alguns grupos pacifistas japoneses.

Claro que, para estabelecer uma zona livre de armas atómicas, se requer a cooperação das potências nucleares: no Médio Oriente, isso incluiria os Estados Unidos e Israel, que se negam a cooperar. O mesmo acontece noutros lugares. As zonas da África e do Pacífico aguardam a aplicação do tratado porque os Estados Unidos insistem em manter e melhorar as bases de armas nucleares nas ilhas que controlam.

Enquanto decorria a conferência de ONGs em Helsínquia, em Nova York realizava-se um jantar com o patrocínio do Instituto de Políticas sobre o Próximo Oriente, de Washington, ramificação do conselho israelita.

Segundo uma reportagem entusiasta acerca dessa “cerimónia” na imprensa israelita, Dennis Ross, Elliott Abrams e outros “ex-conselheiros de alto nível de Obama e Bush” asseguraram aos presentes que “o presidente atacará (o Irão) se a diplomacia não funcionar”: um presente de fim de ano muito atrativo.

É difícil que os norte-americanos estejam cientes de como a diplomacia voltou a falhar, por uma simples razão: virtualmente nada se informa nos Estados Unidos sobre o destino da forma mais óbvia de lidar com “a mais grave ameaça”: estabelecer uma zona livre de armas nucleares no Médio Oriente.

20 de janeiro de 2013

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