Está aqui

Luta de Margarida Alves serve de inspiração aos movimentos sociais do campo

“É melhor morrer na luta do que morrer de fome”, anunciou Margarida Alves em um discurso de comemoração pelo 1° de Maio (Dia do Trabalhador), três meses antes de morrer (em 12 agosto 1983). Artigo de Solange Engelmann publicada por MST.
Primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, a líder sindical paraibana Margarida Maira Alves, assassinada em 12 de agosto de 1983, na porta de casa, em frente ao marido e o filho pequeno
Primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, a líder sindical paraibana Margarida Maira Alves, assassinada em 12 de agosto de 1983, na porta de casa, em frente ao marido e o filho pequeno

“É melhor morrer na luta do que morrer de fome”, anunciou Margarida Alves em um discurso de comemoração pelo 1° de Maio (Dia do Trabalhador), três meses antes de morrer.

Primeira mulher a presidir o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, a líder sindical paraibana Margarida Maira Alves, assassinada em 12 de agosto de 1983, na porta de casa, em frente ao marido e o filho pequeno, tinha voz forte e peito aberto. Sua baixa estatura física não refletia o tamanho da sua força e da sua coragem. Cresceu, e como cresceu na luta por uma sociedade mais justa e igualitária.

Margarida tornou-se conhecida por sua luta pelo reconhecimento dos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores do campo e pela denúncia de abusos por fazendeiros da região. Sua história e luta inspira a Marcha das Margaridas, criada em 2000 e serve de exemplo para os movimentos sociais do campo no Brasil, na luta contra a violência e por melhores condições de vida e trabalho.

Após trinta e quatro anos da sua morte, os culpados ainda não foram punidos. Mas, o legado de Margarida Alves representa um símbolo de força para a luta das mulheres do campo, contra à violência do capital e do patriarcado e por reconhecimento e representatividade na sociedade.

No contexto de golpe contra a democracia brasileira, as mulheres são as mais impactadas, principalmente as camponesas, com o avanço do capital e o aumento da violência. A contrarreforma da Previdência desconstrói a luta travada no campo pelas mulheres, desvaloriza o trabalho da mulher rural e contribui para o aumento das desigualdades.

A ânsia do governo golpista em aumentar os lucros do grande capital também tem gerado inúmeros retrocessos no trabalho feminino e contribuído para o crescimento da violência, o controle do corpo das mulheres e do machismo na sociedade.

O golpe também gera o aumento da violência do capital no campo, que sempre existiu, mas se intensifica com a ruptura do processo democrático e instalação do governo golpista. Trata-se de uma violência sistemática e contínua, provocada pela violência do agronegócio, omissão do governo, do Judiciários e de instituições do Estado como as forças policiais, que mata covardemente homens e mulheres, trabalhadores do campo que lutam pela democratização da terra e melhores condições de vida, sendo as mulheres as mais atingidas.

A violência e os assassinatos de trabalhadores do campo são inúmeros e tem se intensificado após o golpe. A exemplo da dirigente do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Nilce de Souza Magalhães, assassinada em janeiro de 2016, em Porto Velho (RO). Nicinha, como era conhecida, lutava em defesa das populações atingidas na região, denunciando as violações de direitos humanos cometidas pelo consórcio responsável pela Central Hidroelétrica de Jirau, chamado de Energia Sustentável do Brasil (ESBR). O corpo da militante somente foi encontrado depois de cinco meses desaparecido.

Kátia Martins, 43 anos, presidente da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Assentamento 1º de Janeiro, em Castanhal, no nordeste do Pará, foi outra liderança assassinada em maio deste ano, em uma embosca na sua casa. O crime tem todas as características de uma execução.

Em 24 de maio deste ano, dez trabalhadores rurais que ocupavam a fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco, a cerca de 60 km da cidade de Redenção, sudeste do Pará, também foram assassinados em uma ação das Polícias Civil e Militar do Pará. O Massacre de Pau D’ Arco ocorreu durante um processo de reintegração de posse da fazenda. Um dos mortos foi a presidenta da Associação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Pau D’Arco, Jane Júlia de Almeida. Após 40 dias do massacre o trabalhador, Rosenildo, que juntamente com um grupo de trabalhadores rurais voltaram a ocupar o local, foi assassinado a tiro.

Dados da Comissão Pastoral da Terra mostram que somente este ano, 51 pessoas já foram assassinadas em conflitos no campo. Conforme o Relatório “Conflitos no Campo”, em 2016 foram assassinadas 61 pessoas em disputas por questões agrárias no Brasil, segundo maior número em 25 anos. A região Amazònica concentra 57% dos casos.

Em pleno século XXI, o sangue de muitas Marias, Joanas, Anas, José, Raimundos e tantos outros trabalhadores do campo, continua jorrando na luta por Reforma Agrária e justiça social; devido à violência do capital, do agronegócio e do Estado brasileiro.

O exemplo de luta de Margarida Alves segue atual e imprescindível para a denúncia da violência contra a mulher e os trabalhadores do campo, por Reforma Agrária e o restabelecimento da democracia no Brasil.

Artigo de Solange Engelmann, publicado na página do MST

 

Termos relacionados Internacional

Adicionar novo comentário