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Legionella em Vila Franca de Xira: onde estão os responsáveis?

Republicamos aqui a entrevista com Joaquim Perdigoto Ramos, da Associação de Apoio às Vitimas do Surto de Legionella de Vila Franca de Xira, que vai processar o Estado que, mais de dois anos depois do surto, apenas estabeleceu nexo de causalidade em 73 das pessoas infetadas e em 8 das 12 mortes pela infeção bacteriana.
Joaquim Perdigoto Ramos, da Associação de Apoio às Vitimas do Surto de Legionella, que vai por uma ação popular contra o Estado pela forma como o processo foi conduzido. O Ministério Público apenas estabeleceu nexo de causalidade em 73 das pessoas infetadas e em 8 das 12 mortes.
Joaquim Perdigoto Ramos, da Associação de Apoio às Vitimas do Surto de Legionella, que vai por uma ação popular contra o Estado pela forma como o processo foi conduzido. O Ministério Público apenas estabeleceu nexo de causalidade em 73 das pessoas infetadas e em 8 das 12 mortes.

Republicamos em 8 de novembro de 2017 esta entrevista, após mais um surto de legionella. Nos artigos relacionados, publicamos também a notícia dos projetos apresentados pelo Bloco de Esquerda, para reforçar a prevenção da legionella.

Joaquim Perdigoto Ramos, motorista e membro da Associação de Apoio às Vitimas do Surto de Legionella foi uma das vítimas do surto de 2014 em Vila Franca de Xira. A inalação da bactéria Legionella pneumophila na forma de aerossóis pode provocar a doença Febre de Pontiac, na sua forma menos severa, ou Doença do Legionário, que pode evoluir para uma pneumonia grave. No início, Joaquim foi erradamente diagnosticado no hopital.

Passados 2 anos e meio, o Ministério Público diz que só levaram 152 amostras para o Instituto Ricardo Jorge. E dessas 152, só 72 é que têm o surto de Legionella pneumophila 1905. Onde é que estão as outras 300 e tal amostras que faltaram?

"Passados três dias, isto continuava pior, já com falta de respiração, voltei a ir ao hospital e fiquei internado com a indicação de que tinha Legionella pneumophila", explica ao esquerda.net. Em 2014, 12 pessoas na zona de Vila Franca de Xira morreram com a doença e Francisco George, da Direção Geral de Saúde, declarou que havia quase 400 pessoas infetadas. O relatório do Ministério Público sobre o surto foi agora digvulgado, e é alvo de duras críticas por Joaquim.

"Eu pergunto porque é que agora, passados 2 anos e meio, o relatório do Ministério Público vem dizer que só levaram 152 amostras para o Instituto Ricardo Jorge. E dessas 152, só 72 é que têm o surto de Legionella pneumophila 1905, que dá nexo de causalidade com a Torre 8 do ADP. Onde é que estão as outras 300 e tal amostras que faltaram?"

O relatório do Ministério Público agora divulgado estabeleceu nexo de causalidade com 73 das pessoas afetadas e em 8 das 12 vítimas mortais, relacionando estas infeções com a bactéria detetada numa empresa de fertilizantes da zona, o ADP. Nos restantes casos não chegou a nenhuma conclusão, apesar de em várias outras empresas também se terem detetado vestígios da bactéria. 

As entidades competentes não sabiam que, havendo um surto com tantas vítimas, que teriam de fazer as análises devidamente? Nós tivemos a Legionella, e agora só têm nexo de causalidade 73 pessoas? E as outras pessoas tiveram o quê? Porque é que o Estado não fiscalizou as empresas, por contenção de custos? A vida não tem custos.

"Afinal, quais foram as empresas que tiveram a Legionella pneumophila? No caso da Sagres, vem lá no relatório que fizeram uma inspeção no dia 10 de novembro de 2014 e foram fazer uma reinspeção no dia 17 e que já não foi possível analisar a água porque já tinha cloro, a Legionella já estava stressada. As entidades competentes não sabiam que, havendo um surto com tantas vítimas, que teriam de fazer as análises devidamente?" questiona. "Nós tivemos a Legionella! E agora só têm nexo de causalidade 73 pessoas? E as outras pessoas, tiveram o quê?"

A Associação de Apoio às Vítimas do Surto de Legionella contesta a forma como todo o processo de investigação foi conduzido. "É claro, e concordo como cidadão de Vila Franca de Xira que se tem de estancar o surto, mas antes disso as entidades competentes deveriam, sim, primeiro de recolher as análises necessárias de tudo e depois então estancavam logo". Por essa razão, a Associação decidiu processar o Estado. "Vamos por uma ação popular contra o Estado. A responsabilidade da fiscalização destas empresas tem de ser do Estado", explica. "É o Estado e o Ministério do Ambiente que emitem as licenças industriais, logo eles têm de garantir que essas fábricas cumprem as regras", exigem.

"O Estado tem a obrigação, como tem a obrigação de emitir as licenças, e cobra pela emissão das licenças, também tem a obrigação de fiscalizar as empresas. Não o fez porquê? Contenção de custos? A vida não tem custos", conclui Joaquim. 

No dia 6 de maio, a Associação de Apoio às Vítimas do Surto de Legionella irá organizar uma caminhada que percorrerá os princiais poluentes da região, para chamar a atenção para a contínua falta de fiscalização. Para mais informações, consultar o facebook da Associação, disponível aqui.

 

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