Líbia: Leais a Khadafi pegam em armas

20 de agosto 2012 - 11:42

Governo líbio impede o trabalho dos jornalistas diante do crescimento dos atentados reivindicados pelos ex-partidários de Khadafi. Por Mel Frykberg, da IPS

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Cenário de um atentado com explosivos no exterior de um hotel em Trípoli. Foto: Mel Frykberg/IPS

Trípoli, Líbia – Carros-bomba, assassinatos de altos funcionários políticos e militares, ataques contra diplomatas estrangeiros e organizações não governamentais, e jovens resolvendo disputas menores armados com armas AK-47 fazem parte do violento dia a dia na Líbia. Fontes do governo asseguram que os responsáveis por esses factos são pessoas leais ao ex-líder Muammar Khadafi (que governou o país entre 1969 e 2011), ou islâmicos que buscam vingança. Por sua vez, militantes armados leais a Khadafi disseram à IPS em diferentes entrevistas que intensificariam a sua luta.

Esta situação vê-se exacerbada por severas restrições à divulgação de informação nos meios de comunicação locais, e porque as forças de segurança impedem que jornalistas estrangeiros realizem o seu trabalho nos lugares onde houve ataques, o que inclui fotografar. Pelo segundo sábado consecutivo, no dia 11 deste mês esta jornalista foi despertada por um carro-bomba que explodiu do lado de fora do seu hotel, no centro de Trípoli. O alvo foi um veículo de segurança pertencente a membros das forças armadas líbias que se hospedavam no hotel Four Seasons, na rua Omar Al Mukhtar. No sábado anterior, outro carro-bomba explodiu diante da sede da polícia militar de Trípoli, causando um ferido.

“Acreditamos que ex-partidários de Khadafi estão por trás deste ataque e do de sábado passado”, disse um membro das forças de segurança sentado num dos vários carros de segurança que logo chegaram ao lugar para cercar a área. “Os tahloobs (leais a Khadafi, em árabe) são grandiloquentes, dizem que farão uma contrarrevolução contra o movimento 17 de fevereiro (quando começou a revolução que derrubou Khadafi). Eles só poderão realizar pequenos atos de sabotagem, nada importante”, declarou à IPS um dos efetivos da segurança.

Pouco depois de começar o bloqueio informativo, soldados fortemente armados impediram que fossem feitas fotografias e disseram que os jornalistas estavam proibidos de entrar na área. Um funcionário do Ministério do Interior negou-se a dar mais declarações. Na segunda semana deste mês, foram assassinados vários tahloobs, quando as forças de segurança invadiram uma fazenda onde se escondiam, depois de afirmarem que haviam coordenado o atentado com carro-bomba diante da sede da polícia militar de Trípoli.

Presume-se que um dos membros que sobreviveu criou células adormecidas na Líbia e cruzou a fronteira com a Tunísia, no Ocidente do país, de onde ele e outros camaradas contrabandearam armas para território líbio a fim de “desestabilizar o país pós-Khadafi”. Os serviços de informações líbios também afirmam que o grupo estava de posse de outras sete bombas e que previa explodir uma delas noutro hotel de Trípoli. Também disseram que o sobrevivente trazia consigo documentos que vinculavam o grupo a um dos filhos de Khadafi, Saadi, que cumpre prisão domiciliar em Níger. No começo deste ano, Saadi advertiu que estava em contacto com células adormecidas que organizavam a resistência clandestina.

A IPS conseguiu uma entrevista exclusiva com leais a Khadafi no bairro de Abu Salim, na capital, um de seus últimos redutos e palco dos confrontos mais ferozes entre leais e rebeldes durante a revolução. Pouco depois de matarem Khadafi, em 20 de outubro do ano passado, o bairro foi inundado por armas, num esforço de último minuto para resistir contra a revolução. “Estamos à espera do momento adequado. Não nos renderemos. Se o novo governo pensa que somos uma força desgastada, estão errados”, disse à IPS o tahloob Ahmed, que no ano passado lutou com as forças de Khadafi e conseguiu fugir de um acampamento de detenção de rebeldes.

Ahmed contou ter matado vários rebeldes, e agora está na clandestinidade. Ele e outros entrevistados pediram para não serem fotografados nem terem seus apelidos publicados, por questão de segurança. “Cada homem desta área está armado, mas as nossas armas estão enterradas porque a zona é alvo de buscas das forças de segurança”, contou à IPS outro leal a Khadafi, Muntasser.

Nas últimas três semanas, foram assassinados cerca de 20 militares de alta patente ou funcionários do governo em Bengazi. Muitos dos homens eram ex-leais a Khadafi que desertaram dos seus postos no regime para ficar do lado dos rebeldes. Alguns afirmaram que por trás dos ataques estão os insurgentes islâmicos, já que armas líbias abastecem os conflitos na península do Sinai e em países como Mali, Nigéria e Síria, onde dezenas de combatentes se uniram ao Exército Sírio Livre.

Noutro incidente, no dia 10, oito prisioneiros fugiram da prisão de Al Fornaj, em Trípoli, depois de um ataque coordenado. Do lado de fora, homens dispararam das suas camionetes contra os guardas de segurança, enquanto os presos incendiavam partes do prédio e dominavam vários guardas. Foi o terceiro ataque contra a prisão desde a vitória da revolução, e as autoridades demoraram muitas horas para recuperar o controlo.

Nas últimas semanas, sedes de segurança e hotéis em Bengazi foram sacudidos por ataques com explosivos e por tentativas de atentados. Pessoal diplomático estrangeiro e de embaixadas também foram alvo de ataques ou tentativas frustradas. Na segunda semana do mês, pessoal da embaixada dos Estados Unidos em Trípoli escapou de uma tentativa de sequestro quando se deslocava num automóvel. Nessa mesma semana, um ataque com granada e foguete contra escritórios da Cruz Vermelha Internacional, na cidade de Misurata, obrigou a evacuar vários edifícios dessa organização, que precisou suspender temporariamente as suas atividades.

Prosseguem os sequestros e raptos, e ainda se desconhece o paradeiro de uma delegação da Meia Lua Vermelha iraniana cujos membros foram sequestrados há várias semanas em Bengazi. Além disso, disputas de rua menores convertem-se, com regularidade, em lutas armadas. No dia 9, um homem munido de uma AK-47 ameaçou disparar contra a cabeça desta jornalista depois de presenciar um confronto armado que fugira do controlo.

17/8/2012

Tradução da Envolverde