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Kazuo Ishiguro: O escritor que sabe arriscar

Obteve sucesso com um romance tradicional inglês, mas soube arriscar ao escrever ficção científica distópica e até um livro ao estilo Role Plaiyng Games, que já foi descrito como o “Game of Thrones com consciência”. É este o Nobel da Literatura deste ano, um escritor tudo menos “tradicional”. Por Luis Leiria.
Kazuo Ishiguro recebeu os media no jardim da sua casa em Londres, nesta quinta-feira, 5 de outubro de 2017 – Foto de Neil Hall/Epa/Lusa
Kazuo Ishiguro recebeu os media no jardim da sua casa em Londres, nesta quinta-feira, 5 de outubro de 2017 – Foto de Neil Hall/Epa/Lusa

Desta vez pude assistir às primeiras reações ao Nobel da Literatura de forma privilegiada, já que conheço e li o Kazuo Ishiguro. Acho que é a primeira vez. Confesso humildemente que nunca tinha ouvido falar na Svetlana Alexievich (Nobel de 2015), nem na Alice Munro (2013), nem no Mo Yan (2012). Mas o Ishiguro, esse sim conheço-o (ia dizer bem, mas também não é verdade). E adoro. Fiquei felicíssimo.

Conheci-o por causa de um filme. Normalmente, em filmes que me marcam muito, procuro saber se se basearam num livro. Muitas vezes descubro assim um escritor. Foi o caso de "Never Let me Go", um filme de 2010 que fez relativamente pouco sucesso, dirigido por Mark Romanek, baseado no romance homónimo de Ishiguro. A ausência de grandes audiências do filme talvez tenha a ver com o tema triste. Trata-se de uma pesada distopia. Depois da II Guerra Mundial, a ciência descobre a clonagem de humanos. E passa a desenvolver clones, uma espécie de humanos de 2ª classe, que apenas servem para fornecer órgãos aos humanos de 1ª, quando estes precisarem de transplantes. São criados em escolas internas tradicionais tipicamente britânicas como órfãos, e aos poucos vão descobrindo a sua situação e o seu destino, que aceitam como natural. O casal que tenta rebelar-se apenas reivindica mais um par de anos, nada mais que isso. O próprio Ishiguro trabalhou no guião do filme, que mesmo assim é muitíssimo inferior ao livro (pelo filme, nunca se entende o título). Foi assim, então, que começou a minha relação com o Ishiguro.

Tudo menos "tradicional"

Agora, por causa do desconhecimento e de algum telegrama de agência, dizem que o prémio foi dado a um autor tradicional. Como podem ver pelo que disse antes, ele é tudo menos "tradicional". É certo que ele escreveu The Remains of the Day, um livro que poderia ser filiado à mais tradicional literatura britânica; mas também é certo que o escritor arrisca muito. O último livro dele, por exemplo, é o primeiro que escreve sem ser na primeira pessoa (todos os anteriores tiveram este ponto de vista) e faz um relato em estilo role playing game, uma espécie de Game of Thrones com consciência, como o definiu o The Guardian (já o tenho, mas ainda não li).

Um dos disparates que ouvi hoje é que Ishiguro é um autor de apenas 7 obras, enquanto o Saramago tinha 14 quando ganhou o Nobel. Em primeiro lugar, não é verdade: o vencedor do Nobel de 2017 escreveu sete romances, mas publicou também três livros de contos (é o tradicional desprezo das mentes iluminadas das edições portuguesas pelo conto); em segundo lugar, qual é o problema de "apenas" sete romances para um Nobel? O brasileiro Raduan Nassar, prémio Camões de 2016, apenas publicou três romances/novelas e um livro de contos. E o prémio foi merecido. Ishiguro tem o seu próprio ritmo, já o disse em entrevistas, e como escreve em inglês beneficia-se das vantagens da grande difusão desta língua. E assim, o seu até hoje moderado sucesso permite-lhe viver confortavelmente. É o que basta.

Mesmo assim, falar em moderado sucesso também não é rigoroso. Ishiguro foi quatro vezes nomeado para o Man Bookers Prize e ganhou uma vez, em 1989, com The Remains of the Day. Never Let me Go foi considerado pela revista Time o melhor romance de 2005 e incluído na sua lista dos 100 melhores romances de língua inglesa entre 1923 e 2005.

Identidade construída?

O nome japonês Kazuo Ishiguro e o seu rosto asiático causam confusão quando se menciona a sua nacionalidade britânica. Já o chamam de autor nipo-britânico. Também ouvi outro disparate, o de que ele “construiu” a sua identidade britânica. Ora se homem vive no Reino Unido desde os 6 anos de idade, filho de um oceanógrafo que foi trabalhar no National Institute of Oceanography; se fez o ensino primário e secundário em típicas escolas do interior da Grã-Bretanha, queriam que tivesse que identidade? Japonesa? Ishiguro estudou Inglês e Filosofia na universidade do Kent, em Canterbury, depois retomou os estudos em East Anglia e fez um mestrado em escrita criativa. Não é menos britânico por ter apenas ganho a nacionalidade em 1982, sabendo, ainda para mais, o quanto os britânicos são ciosos da sua cidadania. Identidade construída seria, ao invés, se ele, apesar de ter crescido e estudado no Reino Unido, escrevesse em japonês e sobre temas japoneses, só porque tem nome japonês e rosto asiático.

Também é um mestre em contos. O livro Nocturnes: Five Stories of Music and Nightfall (2009) é uma pequena obra-prima, em particular os dois contos passados em Veneza.

Recomendações

Enfim, recomendo a leitura do Ishiguro. Quem gosta dos romances tradicionais ingleses provavelmente já viu as adaptações para cinema de The Remains of the Day (Os Despojos do Dia), de James Ivory, ou A Condessa Branca, do mesmo realizador, com Ralph Fiennes e Natasha Richardson (que não é adaptação mas cujo guião foi escrito por Ishiguro). Nesse caso, recomendo Os Despojos do Dia. Quem gosta de ficção e distopias, pode optar por Nunca Me Deixes. Quem curte Game of Thrones talvez prefira O Gigante Enterrado. Tenho a certeza de que vão gostar. E que sentirão o prazer de uma escrita fluida, agradável, densa sem ser pesada, emotiva e emocionante sendo económica nos adjetivos. Como mandam as regras da boa literatura. Pelo menos, as “regras” que eu gosto..net

Artigo de Luís Leiria para esquerda

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