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ICA: Demissões surpresa, nomeações rápidas, tudo por explicar

Em declarações ao esquerda.net, João Salaviza comenta a celeridade da nomeação da nova direção: "fico impressionado com o contraste entre a capacidade de em dois dias mudar a direção do instituto, comparando com atrasos de cinco meses na abertura dos concursos.”
"O mais importante é entender que a presidência do instituto do cinema é um cargo político e não um cargo técnico ou burocrático”, afirma João Salaviza - Foto m4tik/Flickr
"O mais importante é entender que a presidência do instituto do cinema é um cargo político e não um cargo técnico ou burocrático”, afirma João Salaviza - Foto m4tik/Flickr

A Filomena Serras Pereira e Ana Costa Dias, nomeadas em 2014 por Jorge Barreto Xavier para dirigir o Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA), sucedem Luís Chaby Vaz, ex-chefe de gabinete de Jorge Barreto Xavier, e Fátima Mineiro, anunciou hoje o governo. Apesar da nomeação rápida, a demissão da anterior direção surgiu de forma inesperada e as razões que a provocaram continuam por explicar.

No cargo desde 2014, a anterior direção manteve-se à frente do Instituto numa das piores fases das políticas públicas de apoio ao cinema, com legitimidade progressivamente diminuída, objetivos estratégicos desconhecidos e pedidos de demissão frequentes por parte de agentes do setor.

O atual governo nunca deu a entender querer a sua substituição, ao contrário do que sucedeu no Centro Cultural de Belém ou na Companhia Nacional de Bailado.

Em declarações esta quarta-feira à agência Lusa, várias horas depois da direção do ICA fazer conhecida a sua demissão, o Ministro da Cultura não deu mais informação, declarando apenas que a “demissão deveu-se ao facto de as pessoas entenderem que não havia condições para continuar a exercer o lugar, e não a nenhum juízo negativo da nossa parte sobre a forma como elas o exerceram, mas há necessidade de termos novos rostos e novas figuras para um momento em que o setor vive alguma controvérsia, e nós pensamos que vamos caminhar no sentido de superar essas controvérsias”.

A controvérsia sobre a organização dos apoios ao cinema, com o governo a defender a necessidade de manter a Secção Especializada do Cinema a funcionar, mantém-se, com os novos júris a integrarem representantes de todas as grandes operadores, da Vodafone, à MEO e passando pela NOS. Mas acresce agora que as verbas anunciadas para os concursos de 2017 correspondem a um corte de 24% nos apoios para produção de Cinema.

Novos cortes no cinema

Segundo um comunicado da Plataforma de 14 associações do cinema, apesar deste concurso “apresentar um montante de 17,8 milhões de euros, esta [verba] inclui a dotação total de um conjunto de apoios plurianuais, a 2 e a 3 anos, como os referentes à realização de festivais”. Por isso, “descontando as verbas destes apoios plurianuais respeitantes aos anos de 2018, 19 e 20, o montante total dos apoios de 2017 ascende a 15,3 milhões, caindo 19,2% face ao ano anterior.”

Em concreto, estes cortes significam cortes assimétricos nos diferentes programas de investimento do ICA: nas primeiras obras de longa-metragem de ficção, nada menos que 60% de cortes, o que resultara em “menos 4 filmes” produzidos este ano. Simultaneamente, os apoios à co-produção com países da CPLP sofreram um corte de 100%, algo que a Plataforma considera “arbitrário”, e “numa política cultural que destoa totalmente com a estratégia nacional de ligação com estes países.”

"Não precisamos de gente que se limita a assinar papéis"

Em declarações ao esquerda.net, João Salaviza comenta a celeridade da nomeação da nova direção: "fico impressionado com o contraste entre a capacidade de em dois dias mudar a direção do instituto, comparando com atrasos de cinco meses na abertura dos concursos.”

E critica tanto os cortes “escandalosos” como a ausência de transparência com que a equipa ministerial lida com o setor: “a forma como o Secretário de Estado e Ministro da Cultura comunicaram ao país na última reunião da Comissão de Cultura é enganadora. Faz-se ali uma espécie de cosmética com os números para dar a entender que há mais dinheiro mas ninguém se apercebeu que há cortes escandalosos."

E estranha a atitude em contraciclo com a qualidade atual do cinema português: "Parece que a resposta do governo tanto do PSD como agora do PS, nos momentos que há maior pico de visibilidade e consagração internacional dos filmes portugueses, a resposta do governo parece ser inviabilizar o trabalho."

"Não há nenhum outro país do mundo que tenha conquistado, num espaço de quatro anos, 3 ursos de ouro em Berlim. Estes filmes de jovens realizadores estão a ser vistos pelo mundo inteiro. E obviamente que esta onda devia ser incentivada e não bloqueada mais uma vez", acrescenta.

Sobre a nova direção do ICA, alerta que "o mais importante é entender que a presidência do instituto do cinema é um cargo político e não um cargo técnico ou burocrático. Não precisamos de gente que se limite a assinar papéis e a carimbar interesses das grandes operadoras e a castrar as novas vozes do cinema português. Queremos que o ICA assuma quais são as suas políticas e as suas prioridades, em debate público."

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