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Hospital de Santa Maria passa para o privado as consultas de interrupção de gravidez

O Hospital de Santa Maria suspendeu “por tempo indeterminado” as consultas de intervenção de gravidez, justificando com suposta falta de enfermeiros especialistas. Ana Campos, diretora-adjunta da MAC, considera "lamentável e muito mau sinal, não augurando nada de bom."
Edifício principal do Hospital Universitário de Santa Maria – Foto de Ivendrell/wikimedia
Edifício principal do Hospital Universitário de Santa Maria – Foto de Ivendrell/wikimedia

Segundo o “Diário de Notícias” desta sexta-feira, as consultas de interrupção voluntária da gravidez (IVG) foram suspensas “por tempo indeterminado” no Hospital de Santa Maria (HSM), que alega falta de enfermeiros especializados, e foram passadas para a privada Clínica dos Arcos. Alguns clínicos consultados pelo DN manifestaram “perplexidade” pelo facto de as consultas terem sido suspensas não temporariamente, mas por tempo indeterminado.

O jornal refere que os três médicos responsáveis pela consulta tentaram impedir o encerramento das consultas, oferecendo-se até para se encarregarem das tarefas asseguradas pelos enfermeiros especialistas, mas a direção clínica nem lhes respondeu.

Carlos Calhaz Jorge, diretor do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do HSM, diz ao jornal que a suspensão da consulta de IVG se deve a uma “restrição grave no corpo de enfermeiros especializados de obstetrícia e saúde materna”, justifica que “continua a haver resposta” (encaminhando as novas doentes para a privada Clínica dos Arcos), informa que a proposta de suspensão veio da “estrutura de enfermagem” e que "foi a direção clínica que tomou a decisão."

Também ouvida pelo DN, a enfermeira diretora do HSM, Catarina Batuca, respondendo por escrito ao jornal, diz que o Conselho de Administração do Centro Hospitalar Lisboa Norte decidiu “recorrer, sempre que necessário, a unidades privadas, certificadas pelo ministério da Saúde, para poder dar resposta atempada e com qualidade às grávidas que procuram os serviços da instituição para a IVG”.

O jornal refere que o HSM só está a fazer o seguimento das mulheres que tinham iniciado o processo de IVG e que tem efetuado uma média de 450/500 interrupções de gravidez por ano (três consultas por caso), desde que funciona há 10 anos.

"Não augura nada de bom”

Ana Campos, obstetra e diretora-adjunta da Maternidade Alfredo da Costa afirma:

"A carência de enfermeiros deve ser mesmo extrema para se ter de optar por isto. Santa Maria é um hospital de ensino universitário em obstetrícia e ginecologia, que foi o primeiro do país e é o maior. É lamentável que, 10 anos após a entrada em vigor da lei, da qual o anterior chefe do departamento, o professor Luís Graça, foi um dos grandes apoiantes, os alunos não possam seguir situações de interrupção de gravidez e os internos não tenham treino nisso. Não augura nada de bom. Mas mesmo nada de bom. Porque se calhar a este hospital seguir-se-ão outros."

O jornal refere ainda que as IVG feitas pela privada Clínica dos Arcos são todas cirúrgicas e não medicamentosas e que a decisão do HSM, a ser mantida, poderá custar num ano 250 mil euros ao hospital, na base de 500 euros por IVG.

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