As primeiras sondagens conhecidas depois dos resultados da primeira volta das eleições presidenciais francesas continuam a dar a vitória final a François Hollande, do Partido Socialista, com vantagens variando entre os 53-47 e os 54,4-45,5 sobre o presidente em exercício, Nicolas Sarkozy. As previsões não são claras sobre o modo como se vão repartir agora os votos dos restantes oito candidatos, sabendo-se desde já, no entanto, que o eleitorado de Jean-Luc Mélenchon (Frente de Esquerda), 11,11 por cento, e de Eva Joly (Verdes), 2,3 por cento, irão quase na íntegra para Hollande. Dúvidas maiores, e decisivas, existem sobre os comportamentos dos votantes em François Bayrou (centrista), 9,1 por cento, e Marine Le Pen (neofascista), 18 por cento.
O tom dado pelo principal derrotado da primeira volta, Nicolas Sarkozy, é o de que a partir de agora e até 5 de Maio, véspera da eleição decisiva, será uma campanha de vale tudo com uma chantagem permanente sobre o eleitorado do tipo "ou nós ou o dilúvio". Se a França escolher Hollande "será a falência do país", ameaça Sarkozy. Um dos seus porta-vozes de campanha considera que agora "a campanha será justa porque se fará no sistema de um contra um e não de nove contra um".
A Frente de Esquerda foi a primeira organização a declarar o seu apoio a François Hollande na segunda volta dentro do acordo tácito de "convergência republicana" que existe há muito entre a esquerda, incluindo comunistas e socialistas, isto é, votar no candidato do mesmo quadrante melhor colocado para vencer.
"Temos a chave da eleição para bater Sarkozy", declarou Jean-Luc Mélenchon na sua declaração após a divulgação dos resultados. "Trabalhámos bem", e agora há "uma esquerda que emerge", acrescentou o candidato.
A Frente de Esquerda alcançou 11,1 por cento, duplicando as intenções de voto que lhe eram atribuídas no início da campanha mas ficando aquém dos 15 por cento que chegaram a ser anunciados em estudos de opinião, provavelmente devido a uma concentração de votos de última hora em François Hollande.
O candidato socialista ficou, graças aos seus 28,63 por cento, com mais de um ponto acima da média das sondagens efectuadas durante a campanha.
Com Sarkozy aconteceu praticamente a mesma coisa, apesar das críticas generalizadas à sua campanha centradas no facto de a insistência nos assuntos securitários e xenófobos ter estendido o tapete aos neofascistas liderados pela família Le Pen, que alcançaram o melhor resultado de sempre - a filha Marine superou o patriarca.
Os socialistas de Hollande e os sectores à esquerda salientam a importância final que poderá ter a dinâmica de vitória expressa pelos resultados de domingo, sobretudo porque pela primeira vez na V República, em mais de 60 anos, um presidente em exercício não venceu na primeira volta.
Esse facto revela uma grande falta de confiança no presidente, inclusive no seu sector natural, a direita, onde se registaram importantes fugas para a extrema direita e para o centro. Os resultados eleitorais revelam que o presidente em exercício mereceu apenas a confiança de pouco mais de um em cada quatro franceses.
Há, de facto, outras chaves desta eleição, importantes dúvidas em aberto susceptíveis de fazer balançar ainda as sondagens que dão grande favoritismo a Hollande. A aritmética dos eleitorados naturais não coincide com o estado actual das sondagens uma vez que a soma da direita com a extrema direita e parte dos centristas aglutinados em François Bayrou, oriundos originalmente das hostes de Sarkozy, garantiria ao actual presidente mais do que os 47 por cento que lhe são atribuídos.
Em compensação, a soma dos votos em Hollande, Mélanchon, Joly e dois candidatos trotskistas não chega a 50 por cento, precisando o candidato socialista de uma fracção do eleitorado de Bayrou maior do que a que lhe é presentemente atribuída. Segundo as sondagens mais recentes, os 9,1 por cento de Bayrou seriam distribuídos da seguinte maneira: 32 por cento para Hollande, 38 por cento para Sarkozy, 30 por cento de indecisos.
Sarkozy e Bayrou são, na realidade, adversários políticos com grande animosidade pessoal. Existem muitas dúvidas, que só a campanha decidirá, sobre a forma como esse antagonismo se reflectirá na importante fatia de eleitores que à primeira escolheram o candidato dito centrista.
Outra chave é a do eleitorado que convergiu na neofascista Marine Le Pen. O discurso pós- primeira volta da candidata é cerrado contra Sarkozy, que considera "politicamente morto" e propondo-se fazer "implodir a direita" para reformular todo o espectro partidário, incluindo o desaparecimento da UMP do actual presidente – que já tem uma facção de deputados aliada do sector neofascista. Resta saber qual será o efeito dos discurso corrosivo da senhora Le Pen – que afirma não fazer recomendação de voto para a segunda volta – no voto útil do eleitorado que a escolheu na primeira volta.
O primeiro de maio será o auge da campanha da segunda volta, com três manifestações programadas para Paris. A de extrema direita, nacionalista e xenófoba, convocada como sempre em torno da figura de Joana d'Arc. A convocada pelo próprio Sarkozy, qualificada desde já como um "contrassenso oportunista" tendo em conta o que a sua administração tem feito para deteriorar os direitos dos trabalhadores.
E a manifestação do Primeiro de Maio, a da grande convergência das esquerdas e das forças sindicais em torno do que está efectivamente em causa na eleição presidencial francesa: uma nova política capaz de por em causa o tratado orçamental ou de austeridade, a dependência da França em relação ao neoliberalismo fundamentalista da senhora Merkel, e uma Europa capaz de aplicar outras alternativas no combate à crise. É visível, posto tudo isto, que o resultado final está muito aberto.
Para lá da aritmética e das sondagens, a dinâmica própria da campanha da segunda volta será determinante, sobretudo o modo como a lucidez construtiva da esquerda conseguir esquivar-se e neutralizar o trauliteirismo sarkozyano.
Artigo publicado no site do grupo parlamentar europeu do Bloco de Esquerda.