François Hollande, o presidente de França, apenas reconheceu publicamente a fraude fiscal do seu ex-ministro do Orçamento, Jérôme Cahuzac, quando este finalmente admitiu, perante os juízes, que teve uma conta na Suíça para fugir aos impostos em França. Hollande acusou Cahuzac de "ultraje à República", mas durante semanas os meios presidenciais e governamentais preferiram atacar a agência eletrónica Mediapart, que denunciou o escândalo, em vez de se distanciarem do comportamento fraudulento do ex-ministro.
"O que fez Jérome Cahuzac é chocante, porque mentiu às mais elevadas autoridades do Estado, e é um ultraje à República", declarou François Hollande numa comunicação formal aos cidadãos duas semanas depois de o seu ministro do Orçamento se ter demitido, por estar a ser investigado por fraude fiscal.
Cahuzac, um cirurgião plástico bem sucedido, desviou parcelas da sua fortuna para uma conta bancária na Suíça, para fugir aos impostos em França. Essa conta foi encerrada em 2010 e a agência Mediapart revelou que os fundos aí existentes foram desviados depois para Singapura através de um complexo processo financeiro. Daí que a acusação formal seja "branqueamento de fraude fiscal".
Jérome Cahuzac desmentiu sempre as informações da agência, no que foi secundado por serviços da presidência e do governo, até que na terça-feira acabou por confessar a existência da conta perante dois juízes de instrução. Na sequência da confissão, o ex-ministro responsável pela execução da política fiscal, "ministro do fisco", pediu "perdão" a Hollande e ao governo por lhes ter mentido.
Da esquerda à direita, passando por setores do próprio Partido Socialista, Hollande, o seu primeiro ministro, Jean-Marc Ayrault, e também o ministro da Economia, Pierre Moscovici, são acusados de não terem lidado de forma politicamente ética com o escândalo. Todos os responsáveis garantiam que não sabiam, mas preferiram sempre colocar a responsabilidade dos acontecimentos sobre a agência que revelou o caso. Nesse aspeto, as atuais autoridades socialistas não diferem da anterior administração Sarkozy, que fez uma guerra total contra a mesma agência quando esta denunciou, com grande acervo de provas, a contribuição financeira do ex-dirigente líbio Muammar Khaddafi para a eleição do presidente de direita.
A oposição considera que Hollande ficou numa "grave situação". Ou sabia da fraude de Cahuzac e a silenciou; ou não sabia e "é ingénuo", o que também não abona em seu favor. O Parlamento de Paris está a debater o escândalo em ambiente de grande tensão.
A agência Mediapart atribui grandes responsabilidades pela má gestão do escândalo ao ministro da economia, Pierre Moscovici, um dos mais exigentes membros das reuniões do Eurogrupo contra a população de Chipre nas questões relacionadas com as imposições da troika. O ministro felicitou a troika por ter "acabado com a economia de casino em Chipre". A agência eletrónica revela que Moscovici "branqueou" as atividades ilícitas de Cahuzac ao publicar em janeiro um parecer garantindo que as suspeitas em relação ao comportamento do ministro do Orçamento não tinham razão de ser. As primeiras informações da Mediapart sobre o escândalo datam já de 4 de dezembro do ano passado. Nessa altura, as principais autoridades do país manifestaram a "total confiança" no ministro. Agora, depois da confissão de Cahuzac, Moscovici afirmou que "não sabia de nada".
Artigo publicado no site do Grupo Parlamentar Europeu do Bloco de Esquerda