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“Há uma estranha dissociação na escrita, que faz com que nos sintamos acompanhados”

Acaba de publicar um novo livro intitulado "Nem Todas as Baleias Voam". Em entrevista ao esquerda.net, Afonso Cruz afirma que na escrita procura sempre um novo olhar, longe dos lugares comuns que povoam o quotidiano. Por Pedro Ferreira.
Para Afonso Cruz, "a indiferença mata tudo, deixa as coisas monocromáticas, cinzentas". Foto de Vitorino Coragem
Para Afonso Cruz, "a indiferença mata tudo, deixa as coisas monocromáticas, cinzentas". Foto de Vitorino Coragem

Distinguido com vários prémios a nível nacional e internacional, Afonso Cruz é, aos 45 anos, um escritor que tem vindo a trilhar um percurso multifacetado onde o humor por vezes cáustico se confronta com reflexões profundas sobre o amor e a morte.

Considera que a literatura não deve ter um cunho panfletário ou didático para desta forma preservar o seu espaço de liberdade e de exercício crítico em relação às realidades que nos circundam.

Quais as circunstâncias mais relevantes que o levaram a ser escritor?

É difícil de dizer, há sempre demasiadas causas para um acontecimento para que as consigamos isolar e definir com clareza, mas acho que ser um leitor é um primeiro passo muito importante. Depois, o resto, é mais circunstancial e fortuito. No meu caso, comecei a trabalhar como redator numa agência de publicidade. Foi a primeira vez que trabalhei com palavras em vez de imagens.

Desde muito novo foi tocado pelas artes o que o levou a frequentar a escola António Arroio, em Lisboa, e depois o Instituto Superior de Belas Artes, na Madeira. Nessa altura já pensava dedicar-se à escrita?

Não, pensava talvez em fazer banda desenhada. Lia muito, viajava muito, e nessas viagens, porque não levava máquina fotográfica, anotava muitas coisas. Muitos dos textos de viagem que vim a publicar mais tarde, no JL [Jornal de Letras], por exemplo, nasceram dessas notas. Escrever era a minha maneira de fixar o que via, uma espécie de máquina fotográfica ou máquina de filmar. Também me ajudava em momentos de maior solidão, há uma estranha dissociação na escrita, que faz com nos sintamos acompanhados. Mas nunca pensei em publicar ou em ser escritor.

Tem uma atividade diversificada porque escreve, é músico, ilustrador e cineasta. Qual destas áreas é mais relevante na sua vida?

Já não trabalho com filmes de animação há algum tempo, é normalmente um trabalho de equipa e, por viver isolado [no Alentejo] ou em viagem, não tenho tido possibilidade de me dedicar a ele. Quanto às outras atividades, todas elas me preenchem de maneiras diferentes e seria absurdo hierarquizá-las.

E há choques entres elas ou complementaridade?

Complementaridade. Todas têm características únicas e insubstituíveis. Não se consegue substituir um Van Gogh por um blues, ou vice-versa.

Em que medida se influenciam?

De inúmeras maneiras, há uma musicalidade na escrita, por exemplo, uma harmonia, um ritmo, assim como há descrições profundamente imagéticas, que são quase pinturas ou cinema ou escultura. As canções têm letras e as ilustrações usam muitas vezes das mesmas figuras de estilo da escrita. Todas estas coisas, não só se tocam, como se contaminam, se amam, se misturam.

Mas é acima de tudo um escritor.

Quando estou a escrever. Quando estou a desenhar sou acima de tudo um ilustrador.

Porque é que a sua narrativa oscila entre um humor desconcertante e uma abordagem de natureza mais convencional?

Gosto de me situar no quotidiano e tentar descobrir, na rotina, na banalidade, aquilo em que normalmente não reparamos. A atenção sobre um objeto dá-lhe uma luz que ele não tinha antes. A indiferença mata tudo, deixa as coisas monocromáticas, cinzentas.

A realidade pode ser observada através de vários prismas. E isso que gosta de fazer?

Exactamente. Quando olhamos com atenção, quando nos baixamos, inclinamos, subimos umas escadas, começamos a ver novos ângulos desse objeto ou situação. Se nos aproximarmos muito de uma pessoa, vemos uma caricatura, se nos focarmos e a descrevermos através de três ou quatro dos seus maneirismos, temos a sensação que estamos perante alguém muito extravagante, mas são apenas as características que melhor nos definem, uma vez que as outras são as coisas triviais que partilhamos com uma grande percentagem de pessoas. O processo de encontrar uma pessoa que não seja igual a todas as outras, consiste em procurar tudo o que ela tem de extraordinário, seja bom ou mau. O resultado é sempre surpreendente.

Podemos considerar que anda em busca de uma escrita que lhe permita fugir aos lugares comuns e assim prolongar a vida dos seus livros?

A escrita será sempre efémera, como aliás tudo o que conhecemos. Mas na arte, na escrita, procura-se sempre um a nova perspetiva, um novo olhar, e tenta-se fugir do lugar comum, ainda que este muitas vezes possa servir de solo, de chão, para que a novidade floresça ou assente.

Começa a ser banal falar da importância da memória porque esta pode ser uma barreira à repetição de erros que estão na origem de grandes tragédias que marcam a História. Mas parece que os homens aprendem pouco com o passado e reincidem nos mesmos erros. Tem alguma explicação para isso?

A banalidade e a rotina têm um papel fulcral nas nossas vidas. Dão-nos conforto e segurança. Muitas vezes preferimos manter uma circunstância negativa, mas a que nos acostumámos, do que experimentar a novidade, o desconhecido, a diferença. Há também a sensação, quando olhamos para trás, depois de passado algum tempo, de que não foi tão mau, de que tinha coisas boas, conhecemos o político que se volta a candidatar, parece mais maduro e ponderado, acabamos por votar nele. É uma pena, pelo menos em alguns casos. Mas é um mecanismo fácil de compreender. Quantas vezes, ao viajar, não passamos sérias dificuldades, que, anos depois, são episódios que contamos em festas, que exibimos como conquistas? A dor do momento apaga-se e as recordações alteram-se. Há ainda outro problema com a memória: podemos relembrar, anunciar os perigos da repetição, mas para algumas pessoas que nunca viveram esse passado, o impacto e a importância dessa História acabam ou podem acabar relativizados ou amenizados. Mas é muito importante insistir. Não esquecer e não deixar esquecer.

O apagamento da memória contribui para o triunfo da mentira?

A mentira, a dissimulação e a estratégia acabaram por vingar e a maior parte das pessoas aceita-as com normalidade. Já ouvi comentadores criticar políticos por não serem suficientemente políticos, querendo dizer com isto que foram honestos, sinceros, que não souberam mentir. O chamado jogo político, que é um eufemismo para a dissimulação e a mentira (ou inverdade, como prefere dizer quem mente), instalou-se como virtude.

A velocidade da informação é hoje de tal modo vertiginosa que nos anestesia rapidamente ao ponto de deixarmos de nos interrogar e de prestar atenção ao que se passa. Esta realidade desumaniza-nos?

Atualmente o ritmo da informação é vertiginoso, mas também chega a mais gente, é mais global. A indignação não acontece tanto por causa da informação, pois quando é um simples resultado desta, costuma ser muito efémera. Normalmente as pessoas indignam-se seriamente quando sofrem com as circunstâncias, quando são sujeitos e agentes e não meros espectadores alheados do mundo e das injustiças que lêem nos jornais ou vêm na televisão. Como em tudo, há exceções, e parece-me justo referir que, por vezes, uma notícia pode fazer alguém levantar-se do sofá e partir para África, em vez de simplesmente colocar um comentário indignado no Facebook.

Em 2015 escreveu Flores onde de uma forma mais óbvia mas sem referências diretas aborda um período negro da história da democracia portuguesa, ou seja, a governação de Passos Coelho e as imposições da troika. Sentiu necessidade de exorcizar a revolta que sentiu?

Escrevi um romance centrado no tempo que vivíamos e tinha por isso uma ótima oportunidade para descrever o que se passava à minha volta. Creio que me sentiria mal se não o fizesse, se passasse ao lado disso, se fugisse do assunto. Mas, quero salientar, não são só os livros que falam diretamente das imposições da troika que falam da troika, esta opressão existe desde que existem sociedades sedentárias. E literatura. Sempre se falou da troika, simplesmente teve outros nomes ao longo da História.

No livro Vamos comprar um poeta não há nomes, apenas números e códigos o que nos transmite a sensação que tocamos os limites da despersonalização num universo que mergulha num gigantesco mercado onde é possível vender e comprar tudo. É um sinal dos tempos?

Não me parece que seja um sinal dos tempos. Sempre se compraram homens, desde as primeiras cidades. A escravidão é a sua forma mais evidente, mas a corrupção é outra maneira de comprar seres humanos. Na China, os taoístas criticavam a ganância e a propriedade, o mesmo fizeram os epicuristas, os estóicos, Cristo. O problema do dinheiro não é o dinheiro em si, é não percebermos que ele é uma ferramenta e não um fim em si mesmo. Quando lhe damos prioridade sobre tudo o resto, gera-se um equívoco enorme que ao longo da História tem tido consequências tenebrosas.

Disse que os escritores possuem uma arma poderosa que lhes permite chegar a um conjunto mais vasto de pessoas. Sente essa responsabilidade quando escreve uma vez que tem a possibilidade de influenciar o curso do acontecimentos?

A literatura é um espaço de liberdade. O escritor não tem deveres, isso seria uma compulsão, mas, no meu caso, sinto que, tendo a possibilidade de chegar a um números de pessoas que muitos outros cidadãos não têm, seria um desperdício não partilhar ideias sociais ou políticas. Sem ser panfletário ou didático, e sem inverter as prioridades: a literatura pode ser um veículo para passar uma mensagem, mas esse não é necessariamente o seu objetivo nem o seu motor.

A poesia ocupa um lugar de destaque na sua vida, através de nomes como e.e. cummings, Herberto Helder, Dylan Tomas, entre outros.

Mais do que gostar de poesia, preciso de poesia. E se não lesse poesia não escrevia prosa.

Tenciona publicar poesia?

Escrevo, com frequência e tenho uma gaveta cheia de poemas. Ainda não tive coragem para publicar, excepto um livro que escrevi para crianças e um ou outro poema que incluo nos volumes da Enciclopédia da Estória Universal, mas que assino ou atribuo a autores inventados. Talvez seja ridículo, mas olho para a poesia com demasiada gravidade.

Viaja muito e não dá importância às fronteiras físicas. Que respostas tem para o ressurgimento dos discursos isolacionistas que se alicerçam no medo e abrem caminho à construção de toda a espécie de barreiras para impedir a circulação das pessoas?

As fronteiras são linhas artificiais, que não me dizem nada. As sociedades crescem e evoluem através do contacto com outras culturas e ideias. Sem isso, estagnaríamos. Não teríamos esgotos porque isso era coisa dos romanos. Costumo dar o exemplo das cores: existem três que, pela sua mistura, geram todas as outras. Para quem acha que a natureza ficaria bem servida com apenas três cores, que jamais se misturariam, então está tudo bem, mas eu acho que merecemos todas as tonalidades que vemos à nossa volta, todo esse espectro riquíssimo de cores que fazem parte da vida e da sociedade.

Mais ainda: as diferenças estabelecem-se com a diversidade de matizes. Quando temos somente três cores só podemos ser uma delas, se optarmos pela mistura, entramos num território de criação e criatividade, e de repente podemos ser de um matiz qualquer desconhecido, único.

No conto que escreveu para o livro Uma Terra Prometida imaginou um piquenique familiar que acaba abruptamente porque surge alguém que correndo o risco de se afogar no rio pede ajuda. E a dócil família ignora tudo isto e indiferente decide regressar a casa. Não é uma visão demasiado negativa da natureza humana?

Pareceu-me uma visão realista face ao que se está a passar no mundo. A esperança é que no meio disto apareçam heróis que nos possam apontar caminhos. São raros. Mas é por isso que são heróis.

Como é que analisa a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas?

A escolha de Trump é muito complexa, há demasiados factores envolvidos e o reducionismo, apesar de tentador, não passa de um facilitismo. A verdade é que o medo tem imperado como discurso e as anedotas acabam por se tornar coisas sérias, demasiado sérias. O medo de perder um lugar de conforto, de poder não ter trabalho ou de não ter o que comer... tudo isso gera ódio ao outro, promove desigualdades e criações de fronteiras e muros, e coloca o povo, que é sempre quem mais sofre com isto, ao serviço das pessoas que mais os atacam.

Será exagerado recear pelo futuro da democracia?

Existem inúmeras formas de viver em democracia. Algumas parecem-me mais justas do que outras, mas sobretudo acho essencial que a democracia continue a ser objeto de discussão, para que possa ser melhorada, para que possa evoluir. Em Florença, por exemplo, durante o Renascimento, existiu uma democracia, demasiado corrupta, mas que, curiosamente, evitava as críticas que Platão sempre colocou a este sistema político. É bom conhecer todas estas versões, pensar em extrair delas o que achamos eficaz, descartar o que nos parece errado e ir caminhando para uma sociedade melhor.

O século XXI está a revelar-se um pesadelo. Em 2001 tivemos os atentados de Nova Iorque, depois a crise financeira, o agravamento da violência no Médio Oriente, a crise dos refugiados e o terrorismo em larga escala. É possível inverter esta realidade?

Espero que sim e não sou assim tão fatalista. Tenho dois filhos, sei que o mundo não está bem, mas não quero que herdem somente escombros, quero que, pelo menos, ainda exista esperança e eles a possam viver e lutar por ela.

No seu último romance escreve que o jazz foi utilizado pela CIA para retocar a imagem dos Estados Unidos tornando-o mais apetecível sobretudo entre os jovens. Há algum fundo de verdade nisto?

No programa Jazz Ambassadors, o jazz serviu para melhorar a perceção que se tinha dos Estados Unidos, e também para converter ou convencer os jovens através da música, dar a conhecer a cultura norte-americana e torná-la desejável. Outra operação, Northwoods, pretendia levar a cabo atentados terroristas nos Estados Unidos, culpar os cubanos, para criar legitimidade para invadir o país. Hoje já não é preciso programas tão complexos, basta acusar, sem qualquer fundamento, determinado país de ter armas químicas ou nucleares.

O amor e a morte estão muito presentes na sua obra. Porquê?

São questões essenciais para a nossa vida e para lhe darem sentido.

Não lhe parece que o amor é cada vez mais escasso?

Não creio que o amor esteja a escassear, mas, como o ouro, o verdadeiro sempre foi raro.


“A escrita será sempre efémera, como aliás tudo o que conhecemos”. Foto de Vitorino Coragem
 
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