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As guerras não oficiais entre Arábia Saudita e o Irão: em busca da hegemonia regional

O jornalista da Al Jazeera, Creed Newton, descreve e procura explicações neste artigo para os jogos de influência e guerra na Síria, Iraque, Líbano e Iémen. Tradução do Esquerda.net. 

Arábia Saudita e Irão. Os dois países estão há vários anos numa batalha pela hegemonia regional. As hostilidades aumentaram desde que os sauditas, apoiados pelos Estados Unidos da América, se mostraram reticentes sobre o acordo nuclear de 2015, onde o Irão abdicou das armas nucleares em troca de alívio nas sanções e esforços redobrados para diminuir a influência do Daesh [Estado Islâmico] na região. 

Recentemente, o primeiro-ministro libanês - Saad Hariri - foi alegadamente detido contra a sua vontade na capital saudita, Riiade. Nas primeiras declarações televisivas depois da demissão abrupta a 4 de novembro, Hariri rejeitou o que ele chama de rumores pela sua detenção na Arábia Saudita, e prometeu voltar ao Líbano “dentro em pouco” de forma a confirmar a sua decisão de abandonar o cargo de primeiro-ministro. 

“Aqui no reino da Arábia Saudita, eu sou livre”, disse Hariri na TV Futuro, uma estação filiada com o seu partido político. 

No entanto, a equipa e os aliados de Hariri no governo temem que a liderança saudita esteja por detrás das ações do primeiro-ministro. 

Hassan Nasrallah, o líder do Hezbollah - movimento xiita do Líbano e um aliado do Irão -, disse que a sua demissão foi “forçada”. 

A súbita demissão de Hariri, associada a notícias de que ele estaria detido contra a sua vontade, levaram muitos a questionar se o príncipe herdeiro, Mohammed bin Salam, estará a abrir uma nova frente contra a influência iraniana no Líbano. 

Imad Salamey, professor de ciência política e e relações internacionais na Universidade Americana do Líbano, disse à Al Jazeera que era pouco provável que a Arábia Saudita fosse abrir um novo confronto no Líbano numa altura em que altera a sua visão da relação com a comunidade sunita no país. 

A Arábia Saudita tem relações estreitas com políticos e empresários libaneses, incluindo a família de Hariri. 

“Os sauditas não têm utilizado estas ligações contra o Hezbollah no Líbano, mas o príncipe herdeiro Mohammed bin Salam pode ter deixado de considerar este arranjo benéfico”, disse ainda o professor universitário. 

Bin Salam está a “consolidar o poder”, prosseguiu, fazendo referência às prisões de dos empresários e membros da família real saudita, algo que o Reino define como uma campanha “anti-corrupção”. 

“Julgo que será por isso que vemos a demissão de Hariri ao mesmo tempo que as detenções na Arábia Saudita”, concluiu. 

Esta consolidação de poder extende-se além das fronteiras sauditas, explicou Salamey. Recentemente, os sauditas utilizaram o exército para projetar influência, especialmente nas suas guerras não oficiais com o Irão na Síria, no Iraque e no Iémen. 

Síria

Considerando a extensão do envolvimento saudita e as aparentes perdas nestes conflitos - vistos como tentativas de limitar a influência iraniana - a decisão para enfrentar o Irão no Líbano pode não ser a mais sensata, considera Joshua Landis, diretor do Centro para Estudos do Médio Oriente na Universidade do Oklahoma e especialista na Síria. 

Landis acredita que a disputa pela supremacia militar já terminou. “Os iranianos ganaharam a guerra pela supremacia militar no Líbano, na Síria e no Iraque. Não deve haver dúvidas sobre isto”, disse à Al Jazeera. 

A guerra civil na Síria teve início em março de 2011, depois dos protestos da Primvera Árave expulsarem líderes regionais, quase terminando o regino do Presidente da Síria, Bashar al-Assad. 

Assad reprimiu os movimentos que exigiam democracia em 2011, o que levou à criação de grupos armados e à criação irrupação de violência. O conflito matou já quase 500 mil pessoas e deslocou vários milhões. 

Os sauditas desejam há muito que Assad - um líder proveniente da minoria alauita e apoiado pelo Irão que governa um país de maioria sunita - seja removido do poder. Algo que, em 2015, esteve perto de acontecer. 

Depois, a Rússia entrou na guerra em setembro de 2015 e, ao lado do Hezbollah e das forças iranianas, garantiram a Assad uma base de apoio. 

Desde então, Assad aumentou o controlo sobre a maioria do território. 

Grupos rebeldes apoiados pela Arábia Saudita foram derrotados pelas forças pró-Assad. A situação caótica e o vácuo político na Síria ajudaram ao surgir do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL, também conhecido por ISIS ou Daesh). O Daesh assumiu controlo de partes da Síria mas, recentemente, sofreu baixas significativas, incluindo a sua capital, Raqqa. 

Iraque

No Iraque, o Daesh passa pelo mesmo processo. No passado, o grupo controlou partes significativas do norte iraquiano, um país ocupado pelos EUA desde a invasão de 2003 que deitou abaixo, julgou e executou Sadam Hussein. 

Agora, o Daesh está à beira de perder todo o território iraquiano. De forma similar ao que se passa na Síria, as forças iraquianas apoiadas por milícias patronadas pelo Irão, e curdos patrocinados pelos EUA, foram responsáveis por derrotar o grupo. 

Sadam Hussein - que lançou uma guerra de oito anos contra o Irão -, manteve a influência iraniana longe do Iraque. 

Agora, alguns dos líderes xiitas mais poderosos do Iraque, incluindo o primeiro-ministro federal Haider al-Abadi, são próximos do Irão. 

Abadi defendeu recentemente o papel dos guerrilheiros da Mobilização População - uma milícia patrocinada pelo Irão - que foram instrumentais na derrota do Daesh, numa reunião recente com o Secretário de Estado Rex Tillerson. 

O Iraque é uma das poucas nações aliadas tanto dos EUA como do Irão. E Tillerson tem tentado enfraquecer a influência iraniana no Iraque. 

“Os guerrilheiros da Mobilização Popular deveriam ser encorajados porque eles são a melhor esperança para o país e para a região”, declarou Abadi em outubro. 

A fronteira entre a Arábia Saudita e o Iraque é de aproximadamente 900 quilómetros. Os sauditas partilham a fronteira com um governo pró-iraniano no Iraque, que por sua vez partilha a fronteira com um governo pró-iraniano na Síria. 

A influência iraniana na Síria e no Iraque, duas nações próximas do Reino saudita, “assustaram a Arábia Saudita”, diz Landis, o que provocou uma política mais agressiva por parte do príncipe herdeiro, bin Salman. 

Iémen 

O conflito indireto onde a Arábia Saudita tomou uma posição mais agressiva é no Iémen. 

Localizado no sul da península arábica, o Iémen partilha aproximadamente 1800 quilómetros de fronteira com o reino saudita. 

Os rebeldes Houthis - um grupo religioso afiliado com a facção Zaydi do islão xiita -, bem como forças leais ao presidente iemenita Ali Abdullah Saleh, assumiram controlo de partes do país em 2014. 

Desde então, uma coligação liderada pela Arábia Saudita lançou uma campanha de bombardeamente e bloqueio aéreo. A guerra matou já mais de 10 mil pessoas e deixou sete milhões em perigo de fome. 

Mas os houthis, que têm o apoio do Irão, mantêm controlo sobre uma boa parte do país, incluindo a capital, Saná. 

Os Houthis reclaram o crédito pelo míssil balístico lançado contra a capital saudita de Riiade, a 5 de novembro, dizendo à Al Jazeera que “cidades capitais de países que continuamente nos bombardeiam, incluindo civis inocentes, não serão poupados aos nossos mísseis”. 

Os sauditas sustentam que o míssil foi fornecido pelo Irão, o que, dizem, constitui uma declaração de guerra. 

Líbano?

“Ninguém além de Salman acredita que a Arábia Saudita tem objetivos definidos” para um conflito com o Hezbollah, afirma Landis. 

O governo libanês é baseado em nomeações sectárias. O presidente tem de ser Cristão Maronita, e o presidente do parlamento um xiita, enquanto que o primeiro-ministro um sunita. 

Landis diz que “forçar” Hariri poderia dividir a comunidade sunita no Líbano. Simultaneamente, a comunidade Cristão está “bastante mais fraca” do que dantes da guerra civil na Síria. 

Com ambos os grupos fragilizados, o Hezbollah xiita seria capaz de “se impor a si próprio no Líbano com grande facilidade”, conclui Landis. 

Trita Parsi, presidente e fundadora do Conselho Nacional Americo-Iraniano - uma ONG com sede nos EUA que defende relações entre os dois países -, disse à Al Jazeera que, apesar das fronteiras sectárias estarem definidas, a crise atual é mais sobre poder do que religião. 

Parsi aponta para o bloqueio liderado pelos sauditas contra o Qatar, um estado sunita, e para a fragilização dos sunitas libaneses devido à forma como Hariri foi tratado. 

“Como é que a Arábia Saudita promove interesses sunitas humilhando os sunitas do Líbano?”, questiona. 

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