Vítor Gaspar disse em Bruxelas que o ajustamento de Portugal “é muito mais bonito” se comparado ao de outros países sob programas semelhantes. A audiência, segundo relata o Diário de Notícias, riu. O ministro das Finanças falava na conferência "Plano para uma união económica e monetária efetiva e aprofundada", organizada pelo Gabinete Europeu dos Conselheiros de Política da Comissão Europeia.
O ministro afirmou ainda que "a consolidação orçamental em Portugal não está a ser imposta pela Comissão Europeia nem pela troika, mas sim pela realidade financeira" do país, e destacou o grande contributo que tem sido dado pela secagem e emagrecimento do sector privado: "O ajustamento do sector privado foi notável, exatamente como foi previsto", congratulou-se.
Recorde-se que este mesmo processo tem conduzido à falência de milhares de empresas e à explosão do desemprego a níveis recorde, que o próprio governo prevê que continuem a subir.
Recorde-se igualmente que Vítor Gaspar ganhou fama por não ter acertado qualquer previsão.
“Não governa para os portugueses”
Na segunda-feira, a deputada europeia Marisa Matias já tinha dito que o governo de que Gaspar é um dos expoentes "não governa para os portugueses", e tem uma intenção muito clara: "reduzir o Estado social ao mínimo", através da "obsessão" do corte da despesas públicas.
Para Marisa Matias, a insistência do governo de continuar a apresentar a mesma receita é própria de quem "não percebe nada de economia" porque "quando se corta nas despesas também se está a interferir nas receitas".
O drama de Portugal, salientou a eurodeputada eleita pelo Bloco de Esquerda, é que "há dois mundos: o das pessoas normais e o mundo do dr. Vítor Gaspar".
Varinha mágica
Manuela Ferreira Leite, ex-presidente do partido do primeiro-ministro, destacou no final da semana passada que o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) do governo é baseado em “números verdadeiramente irrealistas”, em “sacrifícios em nome de nada” e que “é preciso ter uma varinha mágica para transformar uma abóbora numa carruagem.”
Para a ex-líder do PSD, o documento do Governo que agora tanto excita o sentido estético do ministro Vítor Gaspar foi feito de acordo “com os objetivos que a troika impôs” e, depois, “construíram-se os indicadores de forma a encaixar” naqueles objetivos, “um exercício feito de pernas para o ar.” Por isso, trata-se de um documento que “nem para uma tese de doutoramento serve”, porque “não tem uma adesão à realidade”.