Está aqui

Fukushima: o que vi

Entre os dias 15 e 20/9, o correspondente no Japão do Esquerda.net percorreu 2 mil quilómetros na região mais atingida pelo terremoto, pelo tsunami e pela crise nuclear de Fukushima 1. Esta é a 1ª parte da sua reportagem, escrita (e fotografada) em forma de diário.
Barcos destroçados amontoados em Iwaki. Foto de Tomi Mori

Entre os dias 15 e 20 de Setembro, percorri 2 mil quilómetros, desde Tóquio, indo e voltando pela costa do Pacífico, na região mais atingida pelo terremoto, pelo tsunami e pela crise nuclear de Fukushima 1.

Sinceramente, era um assunto que pensava nunca mais retornar, depois de ter escrito uma pequena série de artigos quando se cumpriu o sexto mês após o desastre. Tinha percorrido essa área há quase três anos, antes da tragédia, e estava com uma forte vontade de refazer essa viagem.

Confesso que se não o fiz antes foi pelo temor da radiação. Desde então, tenho feito de tudo para ficar o mais longe possível dessa região, recusando mesmo muitos trabalhos que me foram oferecidos. Mesmo Tóquio não é um lugar que considere seguro, até hoje. Não seria assim se pudéssemos acreditar nas informações que recebemos diariamente. O governo e a TEPCO afirmam que a situação melhora, mas a cada dia aparecem factos que desmentem totalmente essas afirmações.

Arroz radioactivo

O último exemplo é a recente descoberta de radioactividade acima do limite legal no arroz da cidade de Nihonmatsu, na nova colheita que está em curso na província de Fukushima. Nihonmatsu fica fora da zona de entrada proibida, a algumas dezenas de quilómetros de Fukushima 1 e, por esse motivo, não deveria, em tese, produzir arroz contaminado seis meses depois. A colheita de arroz deste ano já está a ser vendida aos consumidores, mas quem garante que parte não está contaminada e que a tal inspecção feita pelo governo obedece a padrões adequados? As perguntas continuam e a falta de respostas também.

Saí de casa no dia 15 ao final da tarde. Tinha algumas coisas na cabeça: Refazer a viagem anterior e, se possível, avançar mais alguns quilómetros em direcção ao Norte; fazer um registo fotográfico do que vi e, dentro do possível, evitar falar com a população local. Ainda que, do ponto de vista jornalístico, isso fosse uma incoerência, não estava disposto a mexer nas profundas feridas, ainda doloridas, das vítimas do desastre. Desculpem-me. Mesmo fotografar foi uma coisa que fiz com bastante constrangimento e só falei com algumas pessoas quando foi absolutamente indispensável – como quando me vi perdido, à noite, sem saber onde me encontrava.

Começa a viagem

Tóquio também sofreu consequências do terremoto, assim como Chiba, província que atravessei rapidamente. Saindo de Chiba, a próxima província é a de Ibaraki, que sofreu mais danos que Chiba e Tóquio, mas não o equivalente ao que aconteceu nas províncias de Fukushima, Miyagi e Iwate, as mais atingidas.

Já era noite quando entrei na província de Ibaraki. Na rota 6, pela qual percorri um bom trajecto, surgiram os primeiros indícios do desastre. Placas luminosas alertavam para danos nas estradas, aconselhando os motoristas a conduzir com cuidado. Consegui chegar nessa noite à cidade de Mito, capital de Ibaraki, onde parei a Nissan Serena que aluguei para esta viagem num estacionamento de uma loja de conveniência. Dormi imaginando o que veria no dia seguinte.

Despertei cedo, retomei a rota 6 em direcção ao Norte da província, e o amanhecer apanhou-me passando pela cidade de Kita Ibaraki. Era um belo amanhecer na praia e parei para algumas fotos.

Foto de Tomi Mori

Destruição em Iwaki

Pouco tempo, depois a placa de divisa com a província de Fukushima surgiu à minha frente. A primeira cidade nessa rota é Iwaki. Não imaginava que Iwaki tivesse sido fortemente afectada pelo tsunami. Avancei mais um pouco e vi um prédio semi-destruído. Era uma área de serviço na rota 6, para os viajantes. Não estava certo, mas, por via das dúvidas, parei o carro para conferir.

Foto de Tomi Mori

Ao descer, fui-me dando conta do que se passara. Do outro lado da rua, havia prédios semi-destruídos, barcos destroçados amontoados, as grades de protecção do canal tortas. Não estava seguro se fora devido ao terremoto ou ao tsunami.

Foto de Tomi Mori

Uma senhora passeava com seu cão e não tive outra alternativa senão perguntar.

Explicou-me, solícita, que fora o tsunami. Que, após o terremoto, a TV divulgou intermitentemente que o tsunami se aproximava e atingiria o local em sete minutos. Ela fugiu de carro com o seu netinho. Teve de se refugiar na casa de parentes, na província de Saitama, vizinha a Tóquio durante dois meses. Comentou que dois bairros tinham sido totalmente destruídos e que ainda havia 500 casas que era preciso demolir nas imediações.

Andei mais um pouco e vi uma velha ponte de madeira destruída, com os seus pilares tombados.

No alto de uma encosta, na direcção de um pequeno porto de pescadores, vi uma velha casa desabada. Várias casas tinham um número pintado na parede com tinta vermelha de spray, indicando o número de solicitação de demolição feito junto à câmara local.

Foto de Tomi Mori

Dirigi-me ao bairro de Shitahama, indicado pela senhora. Havia vários carros de trabalhadores da construção civil. Sobraram apenas algumas casas e o que se via era uma ampla área destruída onde restavam apenas os alicerces das antigas casas (soube depois que os alicerces foram mantidos para que se possa localizar os terrenos e os seus proprietários).

Foto de Tomi Mori

Foi o primeiro choque da viagem. Tinha passado por Iwaki anteriormente. Na ocasião fotografara um portal xintoísta que fica próxima a uma encosta voltada para o mar. Uma espécie de cartão postal da cidade. Uma amiga, nascida em Iwaki, explicara-me que essa encosta era um famoso local de suicídios, muitas tinham saltado para o mar do seu topo. Quando passei, não me dei conta se esse portal ainda existe ou não, já que não esperava encontrar tamanha destruição nessa cidade.

Leia a a segunda parte deste relato: Fukushima: cenas de um inferno; a terceira parte: Fukushima: brotos de persistência; a quarta parte: Fukushima: na rota da destruição; a quinta parte: Fukushima: Realidade maior que qualquer ficção.

Artigos relacionados: 

Comentários

Ohayo gozaimasu, trabalhei 18 anos no Japão do estado de Fukushima na cidade de Nihonmatsu. Trabalhava na área da construção civil, setsubiya-san, tubulação hidraulica. Conheço toda região e varios lugares do Japão. Retornei ao Brasil apos duas semanas do terremoto. Gostaria de retornar

Adicionar novo comentário