Fotógrafo acusa “Le Monde” de desprezo pelo trabalho de uma vida

23 de março 2013 - 20:20

Decisão do jornal de despejar uma sala levou à destruição do arquivo fotográfico de Daniel Mordzinski, especializado em fotografar escritores. Foram para o lixo 27 anos de trabalho, mais de 50 mil negativos.

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O escritor Luís Sepúlveda e o fotógrafo Daniel Mordzinski. Foto retirada do Facebook de Luís Sepúlveda

Como se sentiria o leitor se de repente descobrisse que o fruto do trabalho de toda a sua vida tivesse sido destruído inexplicavelmente? Pois foi assim mesmo que se sentiu o fotógrafo Daniel Mordzisnki no dia 7 de março ao saber que todo o seu arquivo fotográfico 27 sete anos de trabalho (entre 1979 e 2006) fora parar ao lixo e já não era possível recuperá-lo.

Daniel Mordzinski era um fotógrafo de escritores. São dele algumas das mais belas imagens de grandes nomes como Jorge Luís Borges, Gabriela García Márquez, Mário Vargas Llosa e centenas de outros homens e mulheres que tornaram as nossas vidas diferentes pela força dos seus romances, das suas poesias, dos seus contos.

Como foi possível que este desastre acontecesse? Mistério. Um mistério que toma contornos kafkianos quando se sabe que o desastre ocorreu na sede do famoso e respeitado diário francês Le Monde, um paladino da liberdade de informação e da cultura.

Decisão foi do departamento jurídico

Mordzinski ocupava, junto com o correspondente em Paris do jornal El País, um escritório no sétimo andar da redação de Paris do jornal francês. Não havia contrato escrito para ocupar o espaço; havia a palavra, e isso bastava. Era apenas uma sala, onde o fotógrafo mantinha uma secretária, um computador e um armário preto onde estavam arquivados os seus negativos.

Um dia, jornalista e fotógrafo deram com a sala vazia. A direção do jornal decidira que precisava da sala para outros fins e o departamento jurídico constatou que não havia contrato escrito para a sua utilização. E por que não tinham avisado jornalista e fotógrafo? Porque tinham pedido os contactos à secretaria, mas lá ninguém os tinha. Desolés.

Os dois começaram a revirar o edifício, até que encontraram a armário de Mordzinski vazio. Foi impossível encontrar os negativos. O funcionário que os deitou para o lixo não se comoveu com etiquetas de pastas que diziam “Cortázar”, “Semana Negra de Gijón”, “Borges”, “étonnat voyageur”, “escritores españoles”, “escritores portugueses”, “escritores libaneses”, “escritores israelíes”, “escritores franceses”, “escritores africanos de lengua francesa”, “escritores del Caribe”, “escritores latinoamericanos”, “escritores italianos”.

Preciso da vossa ajuda”

Desesperado, o fotógrafo publicou um apelo na abertura do seu site pedindo apoio para pressionar a direção do Le Monde para que se explique. “Preciso da vossa ajuda, mesmo que não haja nada que recuperar, gostaria que pelo menos fique claro que o que aconteceu no Le Monde é mais do que negligência: é um profundo desprezo por um trabalho que faz parte da memória da nossa cultura contemporânea, ao menos na medida em que os seus protagonistas são os escritores que dão natureza e dignidade à nossa língua e ao nosso mundo.”

Até agora, o jornal já pediu desculpas e disse que “fez todo o possível para compreender as razões deste lamentável incidente e estudar de que maneira podem ser reconstituídos os arquivos desaparecidos”. Mas a mesma nota da direção lamenta que o fotógrafo tenha acusado o jornal de ter destruído voluntariamente o material, “depois de ter decidido depositar os seus arquivos na sede do diário sem avisar ninguém do Le Monde, e ponha toda a responsabilidade do incidente sobre o jornal, e que tenha posto em marcha uma campanha para denegrir sistematicamente o jornal, particularmente nas redes sociais.”

O escritor chileno Luís Sepúlveda, amigo do fotógrafo, considerou esta nota “cobarde e vil”. “Apresenta Daniel Mordzinski como um intruso que, sem avisar e sem pedir autorização, chegou, entrou, e deixou aí o seu arquivo, esses 27 anos de trabalho, esses mais de 50 mil negativos.”