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“Fátima” e o cinema do real

O filme não pretende tecer qualquer conclusão sobre a fé, a tradição das peregrinações a Fátima ou a necessidade do transcendente. Procura, sim, observar e retratar a realidade de quem as faz. Por Bárbara Veiga
"Fátima", filme de João Canijo
"Fátima", filme de João Canijo

Fátima, de João Canijo, é um filme sobre relações humanas numa situação de tensão extrema. O facto de não ser apenas uma caminhada, como inicialmente teria idealizado, para passar a ser uma peregrinação, acaba por, inevitavelmente, trazer à narrativa a questão da fé, tratada de forma secundária. A fé, aliada à questão do sacrifício, é um elemento que ajuda a potenciar a complexidade do enredo e a pôr em evidência as dicotomias que reproduzem o quotidiano de um grupo de pessoas, e de cada uma delas individualmente, que são obrigadas a conviver 24 sobre 24 horas.

O filme, cuja estreia coincidiu com o período do centenário das aparições e com a visita do Papa a Fátima, começou a ser preparado em 2011, altura em que Canijo fez ele próprio uma peregrinação de dois dias. No entanto, no contexto da crise que se desenhou em Portugal, com cortes e desinvestimento em determinadas áreas, sendo a cultura por norma a das mais sacrificadas, o filme acabou por ficar parado dois anos a aguardar a libertação das verbas pelo ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual.

A preparação dos atores começou em 2015. Canijo, que tem procurado retratar a cultura portuguesa na pluralidade dos seus traços de identidade, com filmes que se desenrolam em comunidades de um Portugal deixado à sua sorte (Boticas/Vila Real - Mal Nascida; Caxinas/Vila do Conde - É o amor, Alentejo sem Lei; comunidade portuguesa em Paris - Ganhar a Vida, etc.), desafiou onze atrizes a viver dois meses e meio em Vinhais e a integrar-se na comunidade, para ali apreenderem os seus traços de personalidade, os seus costumes, a sua forma de falar, a sua forma de ver o mundo.

As onze atrizes recorrentes no cinema de Canijo e com quem tem construído um método próprio de trabalho, que nos remete para o “método” de John Cassavetes ou Mike Leigh, entre as quais Rita Blanco, Anabela Moreira ou Márcia Breia, foram distribuídas pelas principais atividades locais, como a lavoura, o centro de saúde, a escola, a fábrica de enchidos, o posto de turismo e um balcão de um café, para facilitar este processo de integração e de compreensão de uma cultura tão particular quanto o é a transmontana, bem diferente de um grande centro urbano como Lisboa, de onde a maior parte das atrizes é originária. Frequentaram ainda o coro de Vinhais, onde aprenderam alguns cantares que vão pontuando o filme.

Antes da peregrinação representada no filme, as atrizes que participaram no processo de construção de Fátima fizeram peregrinações duas a duas, integradas noutros grupos de peregrinos e partindo de áreas geográficas diferentes, onde tinham por missão construir um diário com as peripécias e reflexões do dia-a-dia, e uma peregrinação “real”, de Vinhais (Bragança) a Fátima, apoiadas por uma carrinha, tal como no filme, onde caminharam cerca de 430 quilómetros durante nove dias. Aí, vivenciaram as bolhas nos pés, os joelhos inflamados, testaram a sua capacidade de resistência física, os problemas e tricas que surgem dentro de um grupo que está sujeito a uma situação de esforço intenso, com um calendário para cumprir, e confinado a um espaço circunscrito para descansar e fazer curativos, representado pelos planos apertados, pelas vozes sobrepostas e pelos jogos de “fora de campo”. Essas experiências ajudaram a construir o argumento e os diálogos do filme e a dar-lhe verosimilhança.

A fé, as crenças, os valores, as histórias, os cânticos e os costumes, a cultura popular, são um todo onde tudo se funde e se confunde e se traduz em comportamentos e na forma de pensar e avaliar as situações. É, talvez, um dos exemplos mais curiosos, o momento em que, subitamente, começam a cantar a Grândola, Vila Morena, a par dos cânticos religiosos que sonorizam os longos planos de sequência gerais sobre as paisagens transmontanas. Esta música de intervenção surge naturalmente como parte do seu imaginário popular, sem que lhe seja imputado qualquer significado político.

Tal como acontece noutros filmes do realizador que abordam as contradições da realidade humana, a personagem de Sara Norte é quem vê este grupo do lado de fora e acaba por questionar algumas incongruências entre o caminho que querem fazer, por força das suas crenças religiosas, e as suas ações. Está ali apenas para as apoiar na carrinha, alheia às suas questões de fé mas revelando, em alguns momentos, uma maior solidariedade e compreensão para com elas e com as suas dificuldades do que as que o grupo estabelece entre si, já que, segundo o realizador, “a vida é tudo menos transcendente”.

Uma questão muito curiosa neste trabalho de Canijo e do seu elenco regular é que Fátima chama também às salas de cinema um público diferente daquele que habitualmente vê os seus filmes. Vemos nas salas de cinema grupos organizados de pessoas já com uma certa idade, muitos dos quais já fizeram peregrinações e que aproveitam o intervalo do filme para tecer considerações, fazer comparações com a realidade que experimentaram e para referir os “palavrões”, que suscitam um grande burburinho e uma onda de risos abafados entre o público, assim como acontece face a uma cena ainda longa em que as atrizes aparecem despidas a tomar banho num balneário, que nos dá a ilusão de um certo “voyeurismo”.

Em Vinhais, local onde Canijo fez a antestreia de Fátima e onde começou a rodagem do filme, o público foi muito recetivo, ainda que, inevitavelmente, tenha sido tentado a estabelecer uma comparação com a realidade, dada a proximidade deste filme com a estética do documentário e a sua preocupação em fazer uma construção próxima do real, onde representação e realidade se misturam naturalmente.

Assim, este filme não pretende tecer qualquer conclusão sobre a fé, sobre a tradição das peregrinações a Fátima, ou sobre a necessidade do transcendente. Procura, sim, observar e retratar a realidade de quem as faz, questionar o que move as pessoas por um caminho de sacrifício e de grande desgaste físico e até onde é que isso pode levar as pessoas, deixando esse entendimento à consideração do espectador, que o interpretará de acordo com as suas conceções individuais.

Artigo de Bárbara Veiga, publicado em p3.publico.pt a 16 de maio de 2017

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