Sou de uma pequena aldeia, Cabeça, na Serra da Estrela, esculpida no meio de uma montanha, temos uma orografia, que nos dificulta todas as nossas deslocações a freguesias vizinhas, as duas mais perto distam a distâncias superiores a 10km, em estradas estreitas de difícil acesso, demorando mais de 20 minutos a alcançar qualquer uma.
A nossa sede de Município está a 22 km de distância, demorando mais de 35 minutos a chegar lá.
O único fator estado que existe na minha freguesia é a Junta de Freguesia, é aqui que me dirijo quando tenho algum problema.
Não temos qualquer tipo de transportes públicos, talvez devido à estrada de ligação a Vide, para onde o Projeto de Lei 320/XII/2.ª1 nos que empurrar.
Desde 1806, ano da sua criação, foi a freguesia do concelho de Seia que mais se desenvolveu, quer a nível material como também tecnológico, ou não seríamos uma das primeiras aldeias a ter internet em todas as casas com uma rede wifi, partilhada pela Junta.
Somos a Primeira Aldeia Led de Portugal, depois das obras de requalificação da zona histórica, dotando-nos de melhores infoestruturas, quer a nível elétrico, das águas e dos esgotos, bem como das ruas estreitas, onde foi colocado um empedramento em xisto, que lhe confere uma imagem única, todos os que nos visitam ficam encantados.
Foi a primeira freguesia do concelho a realizar, gratuitamente, o transporte das crianças, de casa para a escola e da escola para casa, bem como de todas as pessoas maioritariamente para Seia, com uma carrinha comprada pela Junta, e mantendo este serviço até hoje;
Presta apoio às várias faixas etárias, especialmente a crianças, jovens e idosos. As associações, movimentos que proporcionam às crianças e jovens a ocupação de tempos livres, de uma forma saudável, contribuindo para o seu desenvolvimento psíquico motor, pessoal, cultural e social. As várias valências do Centro Social contribuem para uma melhor qualidade de vida dos idosos.
Considerando todos estes aspetos, a extinção desta freguesia seria muito prejudicial para toda a sua população, maioritariamente, idosa. Foram estes homens e mulheres que mais contribuíram para a sua criação e desenvolvimento, apostando num serviço de proximidade ao implementar localmente todos os serviços necessários à melhoria da sua qualidade de vida e das gerações futuras. Com fracos recursos financeiros, não havendo transportes públicos e sem meios próprios para se deslocar, será muito difícil a esta população dirigir-se à nova sede de freguesia, para tratar de qualquer assunto.
Acredito também que, com a extinção desta freguesia, seja ainda mais significativa a tendência de diminuição da população que se verificou nos Censos 2011, pois haverá redução de grande parte dos serviços, conduzindo a um maior número de migração e emigração.
Finalmente, o que motiva a minha oposição a esta Reforma da Administração Local não são só os aspetos administrativos e financeiros mas, essencialmente, aspetos afetivos, familiares e sociais. Estes fatores são determinantes para manter um serviço qualitativo de proximidade e de solidariedade com a população, de modo a minimizar o isolamento da mesma.
Texto de Nuno Miguel Dias Silva
1 Projeto de lei Reorganização Administrativa do Território das Freguesias, de extinção de freguesias, aprovado na AR apenas com os votos a favor de PSD e CDS/PP e com os votos contra de Bloco de Esquerda, PS, PCP e PEV.