"Este Orçamento tem as contas furadas", avisa João Semedo

02 de junho 2013 - 20:23

No encerramento do encontro distrital bloquista em Lisboa, João Semedo acusou Passos de "instigar uma guerra social" aos professores e funcionários públicos, ao mesmo tempo que fez 4463 nomeações para o Governo desde o início do mandato. Quanto às previsões inscritas no Orçamento Retificativo, hoje já se sabe que vão falhar outra vez, alertou o coordenador bloquista.

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Foto Paulete Matos

"O primeiro-ministro e o seu Governo estão a instigar uma guerra social contra os trabalhadores portugueses e, em particular, contra os professores e os restantes funcionários públicos", defendeu João Semedo, reagindo às declarações do primeiro-ministro em que afirmava que havia quem estivesse interessado nessa guerra. Mas ao mesmo tempo que pretende despedir dezenas de milhares de funcionários públicos e professores, Semedo sublinha a existência da única atividade em Portugal em que não há desemprego:"os gabinetes dos ministros e os lugares de topo da administração pública".

O coordenador bloquista recordou a manchete deste domingo do Diário de Notícias, que dá conta de 4463 nomeações feitas pelo Governo em menos de dois anos: "1000 foram diretamente para os gabinetes dos ministros, 1500 para altos quadros da função pública e quase 2000 para 'grupos de trabalho'. Aqui é caso para dizer: não trabalhem tanto que nós agradecemos!"

As críticas ao Orçamento Retificativo apresentado sexta-feira pelo Governo também foram destacadas na intervenção do coordenador bloquista neste encontro autárquico. João Semedo recuperou as declarações de Passos Coelho na véspera para confirmar a sua certeza de que "este Orçamento Retificativo será substituído por um segundo Orçamento Retificativo e quem sabe se por um terceiro".

"É um Orçamento de contas furadas", acrescentou Semedo, explicando que hoje já se sabe que a recessão será superior ao que lá está previsto e que o desemprego continuará a crescer mais do que o Governo prevê neste Orçamento. Para o coordenador do BloCo, "Recessão e desemprego significam mais sobrecarga sobre as contas públicas, quer do lado da receita quer do lado da despesa", o que fura completamente as previsões do Governo.

João Semedo saudou ainda a iniciativa da greve geral de todos os trabalhadores no dia 27 de junho e prometeu o empenho do Bloco para que ela seja "a maior greve geral alguma vez realizada neste país". "Não há outra forma de travar esta política senão a luta. Não será o Presidente da República nem Paulo Portas a alivia-nos deste Governo, eles farão tudo para o manter".

"É preciso clareza", diz Semedo ao líder do PS

"Há hoje um grande consenso na sociedade a favor da demissão deste Governo e a jornada de quinta-feira na Aula Magna é a expressão deste consenso", defendeu João Semedo, repetindo a posição do Bloco: "Estamos disponíveis para fazer parte de uma alternativa de esquerda". 

Semedo desafiou o Partido Socialista a fazer o mesmo e clarificar a sua posição. "Um Governo de esquerda e uma política de esquerda não se fazem com gente do PSD e do CDS, com os atuais ou com os sucessores. Não há Governo de esquerda com ministros da direita, do centro e assim-assim. A esquerda faz-se com políticas de esquerda e com gente de esquerda", acrescentou o coordenador do Bloco, para quem "uma política de esquerda não pode ter nenhum ponto de contacto nem nenhuma continuidade com a austeridade e o memorando".

Referindo-se às vezes que António José Seguro e outros dirigentes do PS disseram que a sua alternativa ao atual Governo tanto pode ser feita com a esquerda como com a direita, Semedo resumiu: "Sempre que os ouvimos dizer isso, sabemos que o PS andou pelos caminhos da direita".

Ana Drago defendeu campanha aberta, participada e de luta 

"Queremos construir listas abertas, participadas, capazes de construir programa, e estar na luta" declarou Ana Drago no encerramento do encontro autárquico distrital do Bloco de Esquerda, em Lisboa, que discutiu as linhas estratégicas para a campanha autárquica. Para o mês de junho estão previstas reuniões de autarcas e cidadãos em vários concelhos e freguesias. Temas como política de habitação, transportes, serviços de proximidade, apoio aos idosos e combate às privatizações dos serviços públicos farão parte da agenda das candidaturas do Bloco no distrito de Lisboa.

"O nosso país mudou muito nos últimos dois anos, com o pior governo desde o 25 de Abril, que ataca os serviços públicos e os direitos dos trabalhadores", sublinhou a candidata bloquista à Assembleia Municipal de Lisboa, antes de recordar as lutas contra a privatização dos CTT "que nas últimas semanas reuniu populações, freguesias e autarcas na defesa de um serviço público fundamental, em particular para os mais idosos e pobres". 

A responsabilidade das autarquias nas políticas de habitação é um dos temas que o Bloco vai levar ao debate eleitoral. "Precisamos de políticas de reabilitação dos imóveis degradados. Precisamos de uma política pública que possa intervir no mercado de arrendamento, requalificando e alugando casas a preços aceitáveis", defendeu Ana Drago, para quem esta tem de ser necessariamente uma política municipal. "Não pode ser atirada para o nível nacional, como se não fizesse parte das competências da governação da cidade".

"O mesmo se passa nos transportes. Uma política pública tem de pensar na área do seu concelho, mas também nos restantes concelhos do distrito e da Área Metropolitana de Lisboa", acrescentou a deputada bloquista. Mais uma vez, a proposta e a estratégia têm de ter em conta o que se passou desde o início do governo da troika. "Nos últimos dois anos os títulos de transporte aumentaram 25%, mas para as crianças e jovens aumentou mais, porque muitas delas perderam o passe", referiu Ana Drago. O isolamento forçado de muitos idosos "ou porque perderam o passe ou porque acabaram as carreiras no seu bairro" é outra das situações novas nas cidades de um distrito em que "as famílias de 4 pessoas fazem as contas e fica mais barato andarem no distrito de Lisboa de carro do que andar em transportes públicos". Uma situação que resulta numa mobilidade mais socialmente desigual e que diminui a qualidade de vida, com cada vez mais carros a circular, defendeu a deputada.

O encontro autárquico distrital do Bloco/LIsboa teve lugar no Liceu Camões durante todo o domingo e incluiu debates sobre o papel dos autarcas na defesa do Estado Social, a política cultural das autarquias, as privatizações, os aumentos das rendas e os despejos, bem como de experiências de construção da democracia local e participação cidadã.