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Erdogan promete “cortar a cabeça aos traidores”

O primeiro aniversário do golpe militar falhado foi assinalado pelo presidente turco em Istambul. Num discurso marcado por referências religiosas, Erdogan voltou a defender a reintrodução da pena de morte.
Erdogan nas comemorações do aniversário do golpe falhado.

Em Istambul, centenas de milhares de pessoas encheram a Ponte do Bósforo, agora rebatizada de Ponte dos Mártires, onde há um ano 36 pessoas perderam a vida durante o golpe militar falhado. O presidente turco, que desde então aproveita o estado de emergência para fazer uma purga no Estado, com mais de 140 mil funcionários afastados e muitas dezenas de milhares a passarem pela prisão, deixou claro que a purga vai continuar e intensificar-se.

Erdogan apontou o dedo aos que diz serem os três inimigos do país: a organização liderada pelo clérigo exilado nos EUA, Fethullah Gülen, apontada como estando na origem do golpe militar falhado; os separatistas curdos do PKK; e os terroristas do Daesh. “A primeira coisa a fazer é cortar a cabeça desses traidores”, prometeu Erdogan no seu discurso cheio de referências tiradas do Corão, sublinhando a narrativa do povo que "apenas com a fé e a bandeira na mão" conseguiu derrotar os golpistas.

O presidente turco desafiou ainda a União Europeia, com palavras de apoio à pena de morte. Em entrevista publicada este domingo na imprensa alemã, Jean Claude Juncker afirmou que o regresso da pena de morte à Turquia significava fechar de vez o processo de adesão do país à União Europeia. Este domingo, Erdogan voltou a dizer que assinaria uma emenda constitucional para trazer de volta a pena de morte abolida em 2004, caso o parlamento venha a aprovar essa emenda.

Para além deste discurso às massas em Istambul, Erdogan participou este fim de semana em Ancara noutra cerimónia evocativa do golpe, no parlamento turco. Segundo a estação pública TRT, Erdogan abriu a porta a um novo prolongamento do estado de emergência vigente, que tem permitido ao presidente governar por decreto e ao seu regime fechar órgãos de comunicação social e prender deputados da oposição e centenas de jornalistas por tempo ilimitado, sem qualquer acusação formal. "Amanhã, vamos discutir a questão com o Conselho de Segurança Nacional e aconselharemos o governo a prolongá-lo", disse o presidente no discurso em Ancara.

Quem ficou à margem destas cerimónias foi o líder da oposição - que logo a seguir ao golpe participou num comício ao lado do presidente -, que tem denunciado a forma como Erdogan se aproveitou do golpe militar para reforçar o seu poder absoluto num país em estado de emergência. Kemal Kiliçdaroglu terminou na semana passada uma Marcha pela Justiça que pediu a libertação dos opositores presos e a atenção do mundo para os ataques à democracia na Turquia. A oposição sempre levantou dúvidas sobre a natureza do golpe e até que ponto o governo e o presidente estariam informados acerca da sua preparação. Os pedidos de inquérito foram sempre recusados pelo governo e tratados como uma ofensa à honra das vítimas.

 

 

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