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Em que pensava Lenine?

Em que pensava Vladimir Lenine na longa viagem para a Estação Finlândia em Petrogrado, em 1917? Artigo de Tariq Ali.
Lenine num desfile em Moscovo em 1019. Foto Smirnov N./Wikimedia Commons

Em que pensava Vladimir Lenine na longa viagem para a Estação Finlândia em Petrogrado, em 1917?

Como todas as outras pessoas, Lenine foi tomado de surpresa pela velocidade com que a Revolução de Fevereiro acontecera. Ao viajar de Zurique através da Europa para a Rússia, a bordo de um comboio selado por cortesia do chanceler alemão, ele deve ter pensado que esta era uma oportunidade a não perder.

Que os fracos partidos liberais tenham dominado o novo governo era de se esperar. O que o preocupava eram os relatórios que estava a receber de que seus próprios bolcheviques hesitavam sobre o caminho a seguir. A teoria unira-os, tal como à maior parte da esquerda, à ortodoxia marxista que, nesta fase, a revolução na Rússia poderia ser apenas democrático-burguesa. O socialismo só era possível em economias avançadas como a Alemanha, França ou mesmo os Estados Unidos, mas não na Rússia camponesa. (Leon Trotsky e o seu grupo de intelectuais estavam entre os poucos dissidentes desta visão).

Dado que o curso da revolução estava assim preordenado, tudo o que os socialistas podiam fazer era oferecer apoio ao governo provisório enquanto este atravessava a primeira fase da revolução e desenvolvia uma sociedade capitalista de pleno direito. Uma vez que isto se concluísse, então eles poderiam fazer agitação por uma revolução mais radical.

Esta combinação de dogmatismo e passividade enfureceu Lenine. A convulsão de fevereiro forçou-o a repensar velhos dogmas. Para avançar, acreditava ele agora, tinha de haver uma revolução socialista. Nenhuma outra solução seria possível. O Estado czarista tinha de ser destruído na totalidade. Por isso ele disse ao descer do comboo em Petrogrado: Nenhum compromisso seria possível com um governo que continuasse a prosseguir a guerra ou com os partidos que apoiassem tal governo.

O slogan bolchevique que encarnava seu pensamento tático era "paz, terra e pão". Quanto à revolução, Lenine agora argumentava que a cadeia capitalista internacional se quebraria no seu elo mais fraco. Conquistar os trabalhadores russos e os camponeses para criar um novo Estado socialista abriria o caminho para uma insurreição na Alemanha e noutros lugares. Sem isso, argumentou, seria difícil construir uma forma significativa de socialismo na Rússia.

Denunciado por alguns por virar as costas à doutrina marxista aceite, Lenine citaria Mefistófeles do "Fausto" de Goethe: "A teoria, minha amiga, é cinzenta, mas verde é a árvore eterna da vida."

Ele detalhou essa nova abordagem nas suas "Teses de Abril", mas teve de lutar muito para persuadir o partido bolchevique. Denunciado por alguns por virar as costas à doutrina marxista aceite, Lenine citaria Mefistófeles do "Fausto" de Goethe: "A teoria, minha amiga, é cinzenta, mas verde é a árvore eterna da vida." Uma das suas primeiras apoiantes foi a feminista Alexandra Kollontai. Também ela rejeitou o compromisso porque, acreditava, nenhum era possível.

De fevereiro a outubro, possivelmente o período mais aberto da história russa, Lenine conquistou o seu partido, uniu forças com Trotsky e preparou-se para uma nova revolução. O governo provisório de Alexander Kerensky recusou-se a sair da guerra. Os agitadores bolcheviques entre as tropas na frente de guerra assaltaram as suas vacilações. Seguiram-se motins e deserções em grande escala.

Dentro dos conselhos de trabalhadores e de soldados, ou sovietes, a estratégia de Lenine começou a fazer sentido para um grande número de trabalhadores. Os bolcheviques ganharam maiorias nos sovietes de Petrogrado e Moscovo, e o partido estava a desenvolver-se rapidamente em outros lugares. Esta fusão entre as ideias políticas de Lenine e uma crescente consciência de classe entre os trabalhadores produziu a fórmula para outubro.

Longe de ser uma conspiração, e muito menos um golpe, a Revolução de Outubro foi talvez a revolta mais publicamente planeada na história. Dois dos camaradas mais antigos de Lenine no comité central do partido continuaram a opôr-se a uma revolução imediata e publicaram a data do evento. Embora os seus detalhes finais não tenham sido, obviamente, anunciados de antemão, a conquista foi rápida e envolveu uma violência mínima.

Isso tudo mudou com a guerra civil que se seguiu, na qual os inimigos do Estado soviético nascente foram apoiados pelos antigos aliados ocidentais do czar. No meio do caos resultante e de milhões de baixas, os bolcheviques finalmente venceram - mas com um terrível custo político e moral, incluindo a extinção quase total da classe operária que originalmente tinha feito a revolução.

Enfraquecido por um enfarte nos últimos dois anos antes de morrer em 1924, Lenine teve tempo de refletir sobre as conquistas da Revolução de Outubro. Não estava feliz. Viu como o Estado czarista e suas práticas, longe de serem destruídos, tinham infetado o bolchevismo.

A escolha que se seguiu à Revolução de Outubro de 1917 não foi, portanto, entre Lenine e a democracia liberal. A verdadeira escolha devia ser determinada, em vez disso, por uma brutal luta de poder entre os exércitos Vermelho e Branco, estes últimos liderados por generais czaristas que não escondiam que, se vencessem, os bolcheviques e os judeus seriam exterminados. Os pogroms realizados pelo exército branco destruíram aldeias judaicas inteiras. A maioria dos judeus russos lutou, quer como membros do Exército Vermelho quer nas suas próprias unidades partidárias. Também não devemos esquecer que algumas décadas depois, foi o Exército Vermelho - originalmente forjado na guerra civil por Trotsky, Mikhail Tukhachevsky e Mikhail Frunze (os dois mortos mais tarde por Estaline) - que quebrou o poderio militar do Terceiro Reich nas épicas batalhas de Kursk e Estalinegrado. Nessa altura, Lenine estava morto há quase duas décadas.

Enfraquecido por um enfarte nos últimos dois anos antes de morrer em 1924, Lenine teve tempo de refletir sobre as conquistas da Revolução de Outubro. Não estava feliz. Viu como o Estado czarista e suas práticas, longe de serem destruídos, tinham infetado o bolchevismo. O chauvinismo da Grande-Rússia era desenfreado e tinha de ser arrancado pela raíz, apercebeu-se. O nível de cultura partidária era lamentável após as perdas humanas da guerra civil.

“O nosso aparelho de Estado é tão deplorável, para não dizer miserável", escreveu no Pravda. "A coisa mais prejudicial seria confiar na suposição de que sabemos pelo menos alguma coisa."

"Não", concluiu, "somos ridiculamente deficientes". A Revolução tinha de admitir os seus erros e renovar-se, acreditava; caso contrário, falharia. Contudo, esta lição foi ignorada após a sua morte. Os seus escritos foram largamente ignorados ou deliberadamente distorcidos. Nenhum líder soviético emergiu com a visão de Lenine.

“A sua mente era um instrumento notável", escreveu Winston Churchill, que não era admirador do bolchevismo. "Quando a sua luz brilhou revelou o mundo inteiro, a sua história, as suas tristezas, as suas estupidezes, as suas mentiras e, acima de tudo, os seus erros”.

Dos seus sucessores, nenhum dos ​​reformadores mais conhecidos - Nikita Khrushchev nos anos 50 e 60 e Mikhail Gorbachev nos anos 80 - tinha a capacidade de transformar o país. A implosão da União Soviética deveu quase tanto à sua cultura política degradada - e, às vezes, à ridícula deficiência da elite burocrática - quanto à estagnação económica e à dependência de recursos que se iniciaram na década de 1970. Obcecados por imitar os avanços tecnológicos dos Estados Unidos, os seus líderes tiraram o chão debaixo dos seus pés. No último e lamentável capítulo da revolução, não poucos dos seus burocratas se redescobriram como milionários e oligarcas - algo que Trotsky tinha previsto no exílio em 1936.

"A política é uma expressão concentrada da economia", observou certa vez Lenine. À medida que o capitalismo tropeça, os seus políticos e os seus apoiantes oligárquicos encontram eleitores que desertam dos seus partidos em massa. A mudança para a direita na política ocidental é uma revolta contra as coligações neoliberais que governaram desde que a União Soviética entrou em colapso. Hoje, no entanto, os políticos não podem culpar o socialismo como o fizeram uma vez - pois ele não existe.

Na Rússia nacional-conservadora do seu presidente, Vladimir V. Putin, não há comemorações este ano da Revolução de Fevereiro ou de Outubro. "Não constam do nosso calendário", disse ele a um jornalista indiano meu conhecido no ano passado.

"Depois da sua morte", escreveu Lenine sobre os revolucionários, "tentam convertê-los em ícones inofensivos, canonizá-los, por assim dizer, e santificar os seus nomes de certa forma para o ‘consolo’ das classes oprimidas e com o objetivo de as enganar". Depois de sua morte, contra os gritos da sua viúva e irmãs, Lenine foi mumificado, colocado em exposição pública e tratado como um santo bizantino. Ele tinha previsto o seu próprio destino.


Publicado originalmente no New York Times a 3 de abril de 2017. Traduzido para o esquerda.net por Joana Campos.

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