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Dubcek: Um homem de boa vontade isolado no reino dos cínicos

Há 50 anos, Alexander Dubcek era eleito líder do PC checoslovaco, abrindo-se o processo político que levaria meses depois ao esmagamento da “Primavera de Praga”. [Artigo publicado em 2008 no dossier Primavera de Praga]

Uma retrospectiva da trajectória política de Alexander Dubcek feita pelo diário francês Le Monde na edição de 5 e 6 de Janeiro de 1969, onde o autor dá conta que «Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.»

Eram muito raros aqueles que, no estrangeiro, conheciam o nome de Dubcek. E na Checoslováquia? Um jovem engenheiro checo com quem falei no dia seguinte ao plenário de Janeiro dizia-nos que não experimentava qualquer interesse pela mudança que acabava de ocorrer na liderança do país. Para ele, Dubcek, Novotny e os outros pertenciam todos à mesma "clique", uma "clique" cuja primeira característica era de não ter "qualquer instrução". Foram precisas semanas de esforço, e sobretudo a grande "revolução cultural" de Março, para que o grande público começasse a "mexer". Mesmo depois disso, mesmo os especialistas precisaram de meses para conhecer o homem cujo nome se identificava com as conquistas da "Primavera de Praga". Hoje este conhecimento é ainda muito imperfeito, sem medida comum à sua popularidade. Dubcek era um herói, um "estratega genial" ou um novato e um fraco? As opiniões continuam muito diferentes.

No entanto, dispomos hoje de melhores pontos de observação que há um ano, e não apenas por causa dos acontecimentos de 1968. A publicação parcial, no Verão passado, da intervenção de Dubcek na sessão do comité central de fim de Outubro de 1967 - a que abriu a crise - mostra amplamente que a renovação estava inscrita no topo do programa, muito antes de ter começado. Desde esta época, com efeito, ele pedia uma "mudança fundamental" dos métodos da direcção e denunciava o conservadorismo em termos que já abriam o flanco às acusações de "complacência direitista" que lhe serão lançadas mais tarde. Quando afirmava: "O perigo do conservadorismo e do sectarismo é não menos agudo para o partido, em particular durante um período de mudança, que o das tendências liberais", antecipava o que seria a sua atitude no momento em que os adversários "ortodoxos" denunciariam o crescimento das forças "anti-socialistas". Igualmente, punha em causa toda a política soviética actual de inflexibilidade ideológica quando declarava: "É natural que a defesa da nossa sociedade contra as influências capitalistas... figure entre os nossos deveres fundamentais. No entanto, não podemos satisfazer-nos com uma atitude defensiva, porque é aí que podem se esconder as sementes da estagnação e do conservadorismo." Ou ainda: "Seria um erro sério confundir as consequências com as causas. Nem os emigrantes nem os agentes imperialistas podem-nos criar problemas maiores; é por isso que não devemos dar-lhes a honra de uma propaganda tão poderosa, desmerecida e para nós nefasta." É interessante notar que tudo isto foi dez semanas antes de Brejnev vir a Praga para investigar a situação. O secretário-geral do PC soviético, que deu a sua benção à mudança, não pode culpar senão a ele mesmo se a "heresia" se desenvolveu.

Ler Dossier Primavera de Praga, publicado em 2008 no esquerda.net.

Uma inimizade tenaz por Novotny

No entanto, em 5 de Janeiro de 1968, quando se instala na liderança do partido, Dubcek não prevê, como ninguém, o que se vai passar em seguida. Reformista certamente, talvez mesmo um pouco "revisionista", mas de forma alguma o "liberal" que se vai tornar depois, no espírito do público. E se ele desencadeia, ou, mais bem, deixa desencadear o processo de liberalização, é evidentemente em nome de uma concepção nova do papel do partido - um papel fundado na confiança das massas e não no comando -, mas também por dois motivos mais precisos.

- Em primeiro lugar, uma inimizade tenaz por Novotny, os seus homens e o seu regime. Aqui, Dubcek volta a ser apparatchik e, sabendo que não há lugar na direcção do partido para duas equipas rivais, adianta os seus peões com a arte consumada de um táctico. Aliás, é Novotny que abre as hostilidades, pondo em causa, num discurso pronunciado numa fábrica de Praga no fim de Fevereiro, as conclusões do plenário de Janeiro. Imediatamente, Dubcek abandona à sua sorte o antigo primeiro secretário do Estado. A necessidade de renovar os quadros explica numa grande medida o grande movimento de fundo da Primavera;

Ao mesmo tempo, o novo chefe do partido não quer afastar-se da ala progressista, dos intelectuais principalmente, que contribuíram mais que outros a levá-lo ao poder e de quem ele continua a precisar para eliminar definitivamente os homens do passado. Os ortodoxos do estrangeiro acusam-no logo de não ver o "perigo principal", de renunciar à "luta nas duas frentes" e de se tornar prisioneiro da "direita". De facto, os seus detractores estão bem colocados para saber que a luta "em duas frentes" só é realmente possível, nos seus sistemas, num período de equilíbrio, quando o poder do momento estiver bem consolidado. O único país que pode dar exemplo sob este ponto-de-vista é talvez a Hungria, mas certamente não a URSS, onde Brejnev se apoia cada vez mais nos elementos estalinistas para desenvolver a sua ofensiva anti-revisionista. Na Checoslováquia, Dubcek escolheu o curso inverso: a principal característica da sua acção no curso deste período será, se não encorajar expressamente os progressistas radicais, pelo menos não querer atacá-los.

Observar a situação

Mas o seu papel limita-se a isto. Quanto ao resto, parece limitar-se a observar a situação, a deixar os problemas decantarem-se. Procuramos em vão nos seus discursos avaliações frontais sobre os problemas concretos da hora: cala-se sobre a federação no momento em que a questão se decide, nas primeiras semanas da Primavera; simula ignorar durante muito tempo as pressões soviéticas, ainda não disse publicamente o que pensa do XIVº Congresso do partido, realizado clandestinamente depois da invasão. A seu lado, homens sobem e descem - sucessivamente Kolder, Smrkovsky, Cernik, Mlynar, de novo Cernik, Husak, Strougal, etc. - que se agitam mais e parecem definir a "linha". Esta táctica - se é realmente - dá a Dubcek a vantagem de não se "molhar" demasiado nas viragens sucessivas e conservar a sua popularidade. Em contrapartida, ela expõe-no às críticas daqueles que desconfiam que vão ser ultrapassados pelos acontecimentos, incertos, sem estratégia a longo prazo.

Dizem-no sensível às influências dos que o rodeiam, sejam "progressistas", como na Primavera, ou "ortodoxos", como depois do 21 de Agosto. O público dá-se conta disso. No fundo, ele tem a sua estima não pelo que decidiu ou quis, mas pelas transformações que ocorreram no regime e pelas qualidade pessoais que lhe são geralmente reconhecidas: honestidade, boa vontade e espírito de aventura.

A entrada na lenda

A sua verdadeira hora de glória chegou em Julho, quando vemos o "pequeno homem tranquilo" levantar subitamente a espinha e rejeitar, sempre calmamente e sem bravatas inúteis, as exigências tornitruantes do seu todo-poderoso "aliado". Será que esperava o que viria a seguir? Parece que não, e uma das suas fraquezas terá sido sem dúvida a de subestimar, apesar da longa convivência com a URSS, apesar das relações pessoais que lhe são atribuídas com Brejnev, a brutalidade dos seus parceiros. Seja como for, o rapto violento na madrugada de 21 de Agosto, o regresso doloroso a Praga, concluem a sua entrada na lenda, mas quebram também o impulso.

Com efeito, é, em primeiro lugar, como ele mesmo dirá, a consumação de um "drama pessoal" (passa por um verdadeiro afundamento físico), mas é também o início de um extraordinário equívoco político. Porque depois dos famosos "acordos de Moscovo" - acordos que lhe terão, tal como a Smrkovsky, merecido reticências - Dubcek não encontra o seu lugar. Tenta, é verdade, pôr-se em uníssono com o ambiente de "realismo", como o mostra a firmeza do seu último discurso. Mas não está suficientemente desfeito para ser um Kadar, é demasiado humanista para ser um Gomulka. Além disso, permanece, até nova ordem, demasiado popular para ser derrubado, mas não tem energia suficiente para tomar as rédeas fortemente; de todas as formas, é um pouco tarde para resistir com sucesso às pressões soviéticas. Assim, deixa os "realistas" ocupar a boca de cena, tal como fazia, seis meses antes, com os "progressistas". Apesar de tudo, a história julgará sem dúvida com indulgência este "homem de boa vontade" isolado no reino dos cínicos.

M. T.

Tradução de Luis Leiria

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