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Dossier sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola

Agostinho Neto, vencedor da disputa entre duas alas do MPLA, desencadeou uma chacina que terá chegado às 30 mil vítimas. Passados 40 anos, o Esquerda.net ouve sobreviventes, relembra os acontecimentos, traça os perfis dos protagonistas e apresenta documentos praticamente inéditos.
Sita Valles
Sita Valles

No próximo dia 27 assinalam-se os 40 anos sobre o 27 de Maio de 1977, dia fatídico da história contemporânea de Angola. Nele, terminou da pior forma uma disputa política que opôs duas alas do MPLA e que começara a travar-se 14 meses antes. De um lado, a maioria da direção, com Agostinho Neto e Lúcio Lara, acusavam os seus opositores de “fraccionistas” ao serviço dos inimigos de Angola; do outro, a corrente liderada por Nito Alves, José Van Dunem e Sita Valles rejeitava a acusação de fraccionismo, acusava Lara de ser o verdadeiro fraccionista, e denunciava evidências de corrupção e tráfico de diamantes envolvendo dirigentes da ala adversária. Esta corrente de pensamento batia-se pela adoção, por parte do MPLA, do modelo soviético como o ideal para Angola.

Mais desaparecidos que na Argentina e no Chile

O desfecho dos confrontos do dia 27 ocorreu quando as tropas cubanas, depois de horas de imobilidade, se puseram em movimento ao lado de Agostinho Neto e contra a ala de Nito Alves. A partir daí, e principalmente após a descoberta de sete cadáveres de membros do governo, militares e partidários da maioria, Neto deu o impulso à carnificina, ao anunciar na televisão que não iria “perder tempo” com julgamentos, adotando processos sumários contra os “fraccionistas”. Os primeiros fuzilamentos não tardaram, e o massacre estendeu-se a todo o país e terá durado mais de um ano. Pelos cálculos da Amnistia Internacional, 30 mil pessoas terão morrido.

Como o Estado angolano não admitiu as mortes nem informou os familiares, Angola tem atualmente esse mesmo número de desaparecidos, cifra que supera a dos desaparecidos nas ditaduras argentina e chilena.

Destaques do dossier

Para assinalar a data, o Esquerda.net reúne num dossier um conjunto de artigos que procuram ouvir sobreviventes, relembrar os acontecimentos, traçar os perfis dos protagonistas e apresentar documentos praticamente inéditos que contribuem para avançar na decifração do enigma.

Em destaque estará um perfil de Sita Valles, que iniciou a sua curta vida política em Portugal, no PCP, e que figura entre as vítimas – denunciada pelo Bureau Político do MPLA como sendo uma das principais cabecilhas dos “fraccionistas” –, e tendo sido impiedosamente fuzilada, junto com o seu companheiro, José Van Dunem (irmão da atual ministra da Justiça de Portugal). Nome maldito em Angola e também no PCP, onde ainda hoje é considerado tabu, Sita Valles merece ser recordada como uma militante determinada e corajosa, que deu a vida pelas suas convicções.

Para este perfil, o jornalista Luis Leiria ouviu um conjunto de ex-camaradas de Sita, que a conheceram em Portugal e em Angola, e o irmão sobrevivente, Edgar Valles.

O dossier inclui também um artigo do advogado e escritor Domingos Lopes, que foi durante anos responsável pelas relações com Angola do PCP, e uma entrevista com a historiadora Dalila Cabrita Mateus, já falecida, realizada em 2009. Outros artigos de grande interesse para o esclarecimento dos acontecimentos farão também parte deste dossier, que será publicado a partir deste próximo fim-de-semana, até ao dia da efeméride, que ocorre no sábado, 27 de maio.

A não perder, no Esquerda.net.

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Comentários

Lembro-me bem da Sita e das suas intervenções nas RGA de Medicina e não só. Não estavamos no mesmo lado, politicamente falando, mas não deixo de realçar a sua postura corajosa e combativa, ao contrário do irmão que andava em Direito, tal como eu, mais discreto, talvez fosse determinação do partido por defesa.
Quando se soube da morte da Sita não deixei de o lamentar profundamente. Era uma jovem anti-fascista e não merecia de todo acabar assim.

Já era sem tempo! A história também deve ser contada pelos que pereceram neste confronto! Honra lhes seja feita, nem que seja pela sua coerência!

Sobre o resgate do papel de Sita Valles na revolta do 27 de Maio, não podemos esquecer o trabalho pioneiro da jornalista, Leonor Figueiredo, com o seu livro "Sita Valles: Revolucionária, Comunista até à Morte". Estou curiosa para ver se a Esquerda.net se vai debruçar sobre o protagonismo das comandantes do Destacamento Feminino das FAPLA, Virinha e Nandi que lideraram a revolta militar com o ataque à prisão de São Paulo e à Rádio Nacional em Luanda e posteriormente foram fuziladas ou se pelo contrário, dará continuidade à invisibilidade que estas mulheres africanas e negras estão a ser alvo nas narrativas que estão a ser construídas sobre o 27.

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